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	<title>RF</title>
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	<description>RF</description>
	<pubDate>Sun, 31 Aug 2025 03:20:31 +0000</pubDate>
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		<title>Brinquedo de Furar Moletom</title>
				
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		<pubDate>Thu, 30 May 2019 03:02:26 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>Brinquedo de Furar MoletomJaime Lauriano
[07 de dezembro de 2018]


&#60;img width="1600" height="1066" width_o="1600" height_o="1066" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/96d2b8caa2b45655fbdc0dd2d3c911221e93ac17603fc2006901dd94b78ca28d/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteroi---foto-Rafael-Adorjan-33.jpg" data-mid="43375827" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/96d2b8caa2b45655fbdc0dd2d3c911221e93ac17603fc2006901dd94b78ca28d/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteroi---foto-Rafael-Adorjan-33.jpg" /&#62;








As histórias do colonialismo na América Latina e seus reflexos traumáticos na contemporaneidade são um dos núcleos de interesse de Jaime Lauriano. Nascido e baseado na cidade de São Paulo, o artista tem desenvolvido diferentes trabalhos em que seu olhar crítico se volta para as narrativas da violência no Brasil, em especial no que diz respeito à população negra em um arco temporal que vai do tráfico negreiro à resistência atual das comunidades quilombolas. Sua proposta de ocupação da varanda do MAC Niterói dá prosseguimento ao histórico recente de projetos curatoriais que pensam a especificidade de um museu que apresenta uma vista panorâmica para a Baía de Guanabara. Partindo de sua posição, o artista reflete sobre o lugar ocupado historicamente no imaginário cartográfico dessa localização: área portuária que foi território de invasões, batalhas e fortalezas que tentaram assegurar a integridade do Brasil colonial. Esses episódios históricos foram sobrepostos a outros em que o conflito foi – e ainda é – palavra de ordem no estado do Rio de Janeiro: a ditadura militar e a violência policial dos últimos anos.




&#60;img width="1600" height="1066" width_o="1600" height_o="1066" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/46c9b5f7712d2e3ac010955b21dd5c3e1bd485b2d14b9c9d5e32937d9626cb0a/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-8.jpg" data-mid="43375660" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/46c9b5f7712d2e3ac010955b21dd5c3e1bd485b2d14b9c9d5e32937d9626cb0a/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-8.jpg" /&#62;




O artista propõe uma pequena barricada como ocupação da varanda. Esse muro é feito com tijolos popularmente chamados de “tijolos coloniais”, adquiridos em olarias e resultado de um processo de feitura que remete à história da construção civil no Brasil. Acima desse longo muro que ocupa três galerias do espaço, miniaturas de transportes relacionados ao militarismo, à defesa e à violência.
Três caravelas, um tanque, um avião de guerra e vinte e sete miniaturas de carros da polícia militar pousam sobre os tijolos como se defendessem o espaço interno do museu. Essa ronda diminuta representa as vinte e sete capitais do Brasil e teve seus modelos extraídos de automóveis comumente utilizados pela polícia militar: o caveirão (Rio de Janeiro), a base móvel da Polícia Militar de São Paulo e quatro modelos populares (Palio, Gol, Fiat Uno e pick-up). Balas de armas utilizadas por policiais foram coletadas em diferentes cidades do Brasil e constituem a matéria que compõe essas réplicas.



&#60;img width="1600" height="1066" width_o="1600" height_o="1066" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/0de7e923a235dc4abfd4085ee0716439d968e0df7dbcb0295f489a246b297917/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-18.jpg" data-mid="43375661" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/0de7e923a235dc4abfd4085ee0716439d968e0df7dbcb0295f489a246b297917/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-18.jpg" /&#62;




O título da exposição foi extraído da música “Vida loka parte 1”, do célebre grupo paulistano de rap Racionais MCs. Do álbum “Nada como um dia após o outro dia”, de 2002, se trata de um verso que joga justamente com um dos elementos essenciais da proposta de Lauriano: os limites entre violência e infância, entre miniaturas de brinquedos e munição militar. Onde começa um e termina o outro? Até quando brincar de “polícia e ladrão” será visto apenas como mais uma brincadeira infantil?

&#60;img width="1600" height="1066" width_o="1600" height_o="1066" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/025a2c7a0c419da6d6cf3e04967621a0753c8d99ccd7883ea5e41605d2a0472b/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-2-1.jpg" data-mid="43375662" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/025a2c7a0c419da6d6cf3e04967621a0753c8d99ccd7883ea5e41605d2a0472b/Jaime-Lauriano---Brinquedo-de-furar-moletom---MAC-Niteri---foto-Rafael-Adorjn-2-1.jpg" /&#62;

(texto curatorial relativo à exposição "Brinquedo de furar moletom", de Jaime Lauriano, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre agosto e dezembro de 2018)</description>
		
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	<item>
		<title>Negro Swan</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Negro-Swan</link>

		<pubDate>Wed, 02 Sep 2020 14:07:27 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>Negro swan
Tiago Sant’Ana
[07 de agosto de 2020]
&#60;img width="2498" height="2058" width_o="2498" height_o="2058" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/d0e6e4de3528424272cacbe8d80695b92817d9b1e7c9e0ef822c5ac43322eb40/3.jpg" data-mid="81609419" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/d0e6e4de3528424272cacbe8d80695b92817d9b1e7c9e0ef822c5ac43322eb40/3.jpg" /&#62;

Quando buscamos por informações a respeito do trabalho de
Tiago Sant’Ana via internet, é interessante notar que um termo aparece repetidas
vezes: “artista da performance”. Ao entrar em seu website, notamos que sua
produção dialoga constantemente com a performance, mas não se limita à essa
linguagem. Podemos afirmar, todavia, que muitos de seus trabalhos lidam com a
presença do corpo humano – seja o seu, seja o de outras pessoas.



Dentro de sua pesquisa, há um elemento que sempre me chamou a
atenção: uma economia formal. Quando olhamos suas performances, elas associam o
seu corpo a um elemento: ele e folhas de bananeira em “Chagas” (2013), ele e as
cabaças em “Atravessando Estácio” (2016) ou ele e o açúcar em “Refino” (2017).
Não nos enganemos, pois o artista nunca está sozinho: nos dois primeiros
exemplos se evoca a presença de Omolu e Exu, ao passo que no terceiro o açúcar
é uma recodificação das histórias coloniais escravocratas no Brasil. Mesmo a
imaterialidade sempre se dá de forma pontual; Tiago Sant’Ana não é dado aos
excessos barrocos e nos convida a refletir sobre os mistérios, louvores e
tragédias das imagens a partir dos detalhes. Há – e basta olharmos para trabalhos
como “Rota de fuga” (2018), “Cana-coluna” (2019) e “Cadarços” (2019) para se
ter certeza disso – a necessidade de que essas presenças materiais sejam
acompanhadas de um certo vazio. Menos é mais.
&#60;img width="2798" height="2377" width_o="2798" height_o="2377" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/7ff53043ca73082dd817cf4327d49e28c21dae994354b152a26febc885feb66b/2.jpg" data-mid="81609469" border="0" data-scale="82" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/7ff53043ca73082dd817cf4327d49e28c21dae994354b152a26febc885feb66b/2.jpg" /&#62;
&#60;img width="3077" height="2292" width_o="3077" height_o="2292" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/25350d2ca84da0bc30240e42c7d05af89e6359fa17bab11f17ec05bf8693d0bf/6.jpg" data-mid="81609535" border="0" data-scale="82" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/25350d2ca84da0bc30240e42c7d05af89e6359fa17bab11f17ec05bf8693d0bf/6.jpg" /&#62;



Estava eu em casa nesse peculiar momento da História que
estamos vivendo, quando vi uma postagem que Tiago fez de uma pintura no instagram.
Corri para escrevê-lo e expressar minha surpresa. Descobri que havia algo de
boa surpresa também da parte dele, alguém que nunca havia se dedicado à
pintura, mas que, durante o isolamento social, resolveu expandir os materiais
de seu trabalhos – afinal, por que ele deveria se prender ao título de “artista
da performance”? Lembrei do termo em inglês “Sunday painter”, às vezes adaptado
em português para “pintor de final-de-semana”, ou seja, alguém que pratica a
pintura esporadicamente, em seu tempo livre; brinquei com Tiago que ele havia
se tornado um “pintor de quarentena”.



As imagens aqui apresentadas – algumas das pinturas que o artista
realizou nos últimos meses – nascem desse contexto. Sete homens negros são
pintados – cada um em uma postura e sobre um fundo cromático diferente. Ao
vermos o conjunto de imagens organizadas uma ao lado da outra, a referência
central para a escolha de cores é visível: o arco-íris. Fenômeno físico, o
arco-íris pode ser associado a muitas narrativas religiosas e espirituais, além
do fato de que o próprio número sete – as sete cores que compõem o seu espectro
– possui um lastro de interpretações amplo. Nessa série, o artista não associa
esses sete corpos a uma leitura transcendental ou esotérica das suas escolhas;
temos, perante os nossos olhos, apenas um leque de cores. De toda forma,
os dados estão lançados, assim como a possibilidade de múltiplas interpretações.



Gosto de pensar essa série em diálogo com sua produção
anterior; se observarmos cada uma dessas imagens, notaremos novamente a
importância que o “vazio” tem na sua pesquisa. Não se trata do vazio da
diagramação de um texto ou das montanhas de açúcar, mas dos espaços de cor que estão
ao redor desses rostos e corpos. Cada um desses homens pintados tem sua
aparição física condicionada a um ambiente cromático – em alguns a roupa e o
fundo se fundem em uma coisa só, ao passo que em outros as cores de fundo se destacam
e conversam com os tons das roupas trajadas.
&#60;img width="2259" height="3010" width_o="2259" height_o="3010" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/bba5bcf879d8bc2b1e0776accb000f07b939d84eff4be9915b9cd250518967a8/1.jpg" data-mid="81609605" border="0" data-scale="48" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/bba5bcf879d8bc2b1e0776accb000f07b939d84eff4be9915b9cd250518967a8/1.jpg" /&#62;
&#60;img width="2580" height="3118" width_o="2580" height_o="3118" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/38df69e186a07c1a340f99366ae4a9ffe075a65476ea6e87e60edde97f6bc116/5.jpg" data-mid="81609619" border="0" data-scale="58" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/38df69e186a07c1a340f99366ae4a9ffe075a65476ea6e87e60edde97f6bc116/5.jpg" /&#62;



Se nosso olhar se detiver especificamente sobre seus corpos,
perceberemos aquela mesma “economia formal” de outros trabalhos do artista;
nenhum desses corpos se estica, ergue seus braços ou expressa muitas rugas em
seus rostos. Sua gestualidade é contida e, em sua maioria, são imagens de
corpos enquadrados como bustos. Nesse sentido, esses quadros endossam algo
essencial para a própria história da pintura: o silêncio. Imagens pintadas não
falam e são objetos anteriores à fotografia, ao cinema e à ansiedade
instantânea do mundo digital. Talvez as vozes dessas pinturas sejam o elemento
por onde comecei essa análise: suas cores.



Toda pintura traz em si algo que a difere da poesia: se na
segunda podemos ter uma sucessão de acontecimentos, na imagem estática o
artista precisa escolher um momento para ilustrar a sua narrativa. Na ausência
de alegorias, Tiago Sant’Ana elege poses que o levam a essa série de imagens;
eis outra forma de se pensar a performatividade, dessa vez por meio da pintura.
Esses sete corpos foram compostos a partir de uma colagem mental de fotografias
vistas em muitas fontes e guardadas pelos printscreens dos smartphones.
O corpo dum, a roupa d’outro, a fragilidade de um terceiro, o afronte daquele;
assim como Rafael Sanzio dizia que pintava a partir da eleição das mais belas
partes dos corpos, criando um corpo idealizado[1],
Tiago faz algo semelhante a partir da distância entre a tela de seu celular,
imagens fotográficas apropriadas, pincéis e uma tela.



Essa galeria de retratos fictícios de homens negros cria um
paralelo interessante com, justamente, a produção de retratos durante o
Renascimento: se as poses, tamanhos – entre 60x60cm e 60x80cm – e mesmo
expressões faciais se assemelham, a cor da pele dessas pessoas pintadas em 2020
denota o caráter decolonial da proposição. A decolonialidade, na visão do
artista, pode se apresentar não apenas pela possível iconoclastia das tradições
artísticas ocidentais, mas também como uma forma de dar a esses corpos negros
aquela nobreza tão difundida no Renascimento e tão negada ainda de forma
sistêmica à negritude não apenas no Brasil, mas no mundo. Como Beyoncé nos ensinou
essa semana, “Black is king”, right?
&#60;img width="2840" height="2332" width_o="2840" height_o="2332" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/967baf927e750e9ba973ea306e7384323c0cd0b02f504363bf5d5f306009631a/4.jpg" data-mid="81609646" border="0" data-scale="73" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/967baf927e750e9ba973ea306e7384323c0cd0b02f504363bf5d5f306009631a/4.jpg" /&#62;
&#60;img width="2508" height="3364" width_o="2508" height_o="3364" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/90a0fdc600c702a0328ee50c5bb83c69d33768d1fa5cfc5836bda00d8b0fa422/7.jpg" data-mid="81609691" border="0" data-scale="56" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/90a0fdc600c702a0328ee50c5bb83c69d33768d1fa5cfc5836bda00d8b0fa422/7.jpg" /&#62;




Por fim, é importante pensarmos essa série de imagens a
partir de seu título atribuído: “Negro swan” (“Cisne negro”), uma referência ao
álbum de Blood Orange (o musicista Dev Hynes) lançado em 2018 – uma série de
músicas muito escutadas pelo (agora) pintor Tiago Sant’Ana enquanto produzia esses
trabalhos. Os versos que trazem o título do álbum estão na música “Charcoal
baby”: “no one wants to be the odd one out at times / no one wants to be the
negro swan”, ou seja, “ninguém quer ser o estranho às vezes / ninguém quer ser
o cisne negro”. Importante notar a manobra vocabular feita por Haynes: ele não
intitula o álbum como “Black swan”, mas “Negro swan”, em referência à forma
como, na língua inglesa entre o século XIX e meados do século XX, a população
negra era referida, geralmente de forma racista.



Está nas letras do cantor, está nesta série de pinturas:
todos homens negros devem ter o direito de se imaginar em diálogo com o
ambiente cromático que queiram, estejam essas cores na curva de um arco-íris ou
produzidas a partir de muitas misturas. Nenhum homem negro deve ser visto como
um “estranho”, mas como um indivíduo - corpo, rosto, nome próprio, pitadas de
fragilidade e afronte em um só, cada um à sua maneira. 



A pintura, essa atividade recém-adotada por Tiago Sant’Ana,
chega carregada do desejo de recusar estereótipos e ficcionalizar
subjetividades. Fica a minha curiosidade quanto às próximas pinceladas de um
pintor cuja atividade certamente ultrapassará os limites temporais de nossas
quarentenas.











[1]“... eu digo que, para pintar uma mulher bonita, preciso ver muitas mulheres
bonitas, nesta condição: você está aqui comigo para julgar o melhor. No
entanto, quando careço de bons juízes e de mulheres bonitas, aproveito de uma
certa ideia que me vem à mente. Não sei se isso tem alguma excelência
artística, mas certamente trabalho para adquiri-la” in SANZIO, Rafael in DOLCE,
Ludovico. “Lettere di diversi eccellentiss. huomini, raccolte da diversi libri:
tra le quali se ne leggono molte, non piu stampate”. Veneza: Gabriel Giolito de
Ferrari, 1554, pág. 228. As frases de Rafael remetem a um tópico antigo da
literatura artística presente no livro XXXV da “História natural”, de Plínio, o
Velho e no “De inventione”, de Cícero. Agradeço ao Renato Menezes pelas
referências.











(texto relativo à série de trabalhos “Negro swan”, de Tiago Sant’Ana, parte do IMS Programa Convida, desenvolvido pelo Instituto Moreira Salles durante o período de isolamento social, em 2020)</description>
		
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	<item>
		<title>Desliguem a televisão</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Desliguem-a-televisao</link>

		<pubDate>Tue, 28 Feb 2023 13:29:13 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://raphaelfonseca.net/Desliguem-a-televisao</guid>

		<description>Desliguem a televisão
Sonia Andrade
[31 de outubro de 2022]

&#60;img width="870" height="870" width_o="870" height_o="870" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/9c9c2170cc9a0e569198599bbd65acca69b6959ab21819bfe83fd6a7cb0c4d19/sonia-andrade.jpg" data-mid="170017830" border="0" data-scale="77" src="https://freight.cargo.site/w/870/i/9c9c2170cc9a0e569198599bbd65acca69b6959ab21819bfe83fd6a7cb0c4d19/sonia-andrade.jpg" /&#62;
Em 1977, a artista visual carioca Sonia Andrade (1935-2022) gravou um vídeo que dava prosseguimento à sua pesquisa recente, começada em 1974, em torno da linguagem audiovisual. Após vermos quatro televisores de diferentes marcas ligados e transmitindo diversos programas, seu corpo entra em cena e desliga cada uma dessas telas. Centralizada na imagem, a artista olha para a lente da câmera (e para os espectadores) e repete cento e noventa e seis vezes a mesma frase, lentamente: “Desliguem a televisão”.

Esse trabalho compõe uma série de experiências em vídeo feitas em preto-e-branco que são icônicas na produção da artista, fazendo parte, por exemplo, da coleção do Centro Pompidou, em Paris. Comuns a esses trabalhos estava o seu interesse não apenas em explorar o uso da câmera de vídeo – algo que, naquele momento, era recente nas artes visuais –, mas pensá-la em relação ao seu corpo, à paisagem e, de maneira insistente, refletir sobre às mudanças trazidas pela popularização do audiovisual. Sendo a televisão um equipamento tecnológico que se popularizava no Brasil e no mundo durante a década de 1970, a artista parecia interessada em problematizar o seu estado de fetiche. A capacidade que os televisores tinham – e ainda tem por meio dos celulares, por exemplo – de seduzir, informar, distorcer e manipular aparecem nestes trabalhos. Não esqueçamos que esses vídeos foram realizados no auge da violência da ditadura militar que abatia o Brasil e grande parte da América Latina.
&#60;img width="1223" height="987" width_o="1223" height_o="987" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/a51078711a2efa7e015615dfc8263e8df0fa19ae8fd9c6b86964943028617831/unnamed-27.jpg" data-mid="170017170" border="0" data-scale="88" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/a51078711a2efa7e015615dfc8263e8df0fa19ae8fd9c6b86964943028617831/unnamed-27.jpg" /&#62;

Engana-se quem, porém, acredita que a carreira de Sonia Andrade girava em torno exclusivamente do vídeo. Antes de suas experiências com o audiovisual, ela estudou com a pintora Maria Thereza Vieira entre 1971 e 1972, além de frequentar o curso de Anna Bella Geiger, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre 1974 e 1975. Como alguém que começou sua carreira depois dos seus trinta e cinco anos – nos ensinando que o mito do frescor do “artista jovem” pode ser uma falácia mercadológica -, ela experimentava em linguagens como fotografia, desenho, gravura, instalação e até mesmo o neon.

Em 1977, ela participa da XIV Bienal de São Paulo com um trabalho em que, por meio de cartões postais de diferentes localidades do Brasil, se vale da chamada arte postal para refletir não apenas sobre as relações entre arte e imagem massificada, mas também sobre a participação de pessoas diversas na autoria de uma obra. No ano seguinte, a artista apresenta no MAM Rio o trabalho “A caça”, censurado pelo governo militar. Duzentas ratoeiras foram espalhadas pelos espaços do museu e, no lugar do esperado queijo, são colocadas medalhas católicas e imagens de santinhos. Até que ponto esse trabalho não causaria convulsão semelhante no Brasil de hoje?
&#60;img width="4256" height="2832" width_o="4256" height_o="2832" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/ff26c1951d4a35db85fda1ba20d5ebb1583a4c9d1cc8f9cd3a01c138817b02db/sonia-andrade-ratoeira.jpg" data-mid="170017404" border="0" data-scale="93" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/ff26c1951d4a35db85fda1ba20d5ebb1583a4c9d1cc8f9cd3a01c138817b02db/sonia-andrade-ratoeira.jpg" /&#62;

Nos cerca de cinquenta anos que separam estas primeiras exposições até seu triste falecimento recente, Sonia Andrade se manteve fiel ao seu apego à experimentação. Em um oceano de artistas que se atém a fórmulas, chama a atenção o zigue-zague de sua produção, por mais que seja possível notar um interesse constante na relação entre apropriação de materiais e a virtualidade da imagem – cristais são a base para a projeção de um colorbar (sem título, 2005); sapatos banhados em bronze são mostrados em diálogo com suas próprias fotografias semelhantes àquelas vistas em lápides (“O veículo”, 1976-1984); na sua icônica instalação “Hydragrammas” (1993), incluída na XXXII Bienal de São Paulo, em 2016, objetos são feitos pela associação de elementos banais associados entre si pela artista, nomeados e apresentados próximos de suas reproduções em slide. Quais os limites entre as palavras e as coisas, entre um objeto físico e as narrativas feitas com luz pela fotografia e pelo vídeo?

Nos últimos anos, o interesse da artista pela passagem do tempo, outro tópico transversal à sua pesquisa, ficou mais explícito. Em sua última exposição institucional, “... às contas”, no MAM Rio, em 2019, a artista mostrou cinco décadas de todas as contas de seu espaço doméstico. Içados, estes documentos nos fazem refletir sobre os aspectos econômicos e burocráticos de uma vida. Indo por outro caminho, em uma de suas últimas instalações, “Naufrágio”, do mesmo ano, a artista cria uma situação dramática com um aquário cheio de estilhaços de vidro e uma coleção de cerâmica acidentalmente quebrada por sua mãe. Cá estamos perante as ruínas de uma família que também comentam tanto sobre as fraturas de um país em crise, quanto uma sensação do tempo sentida fisicamente pela artista.


&#60;img width="1000" height="667" width_o="1000" height_o="667" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/e700b291aec4b06af74a510bbf2a51201a0773532ff25411b91f7a6068fa241e/FBSP_41560_32BSP_160929_LE_052-scr-1.jpg" data-mid="170015532" border="0" data-scale="86" src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/e700b291aec4b06af74a510bbf2a51201a0773532ff25411b91f7a6068fa241e/FBSP_41560_32BSP_160929_LE_052-scr-1.jpg" /&#62;


Em uma das últimas mensagens que troquei por whatsapp com Sonia Andrade, ela me citou uma frase de Nietzsche: “A arte e só a arte, resta-nos a arte para não morrermos de verdade”. Na sequência ela disse: “Durante anos eu não soube dizer o que é arte até me deparar com esta citação”. Querida Sonia, peço desculpas, mas não desligaremos a televisão. Queremos te ter por perto e fazer jus à sua memória e lugar essencial para se pensar muitas narrativas vindouras sobre as artes visuais no Brasil e no mundo.




&#38;nbsp;




(texto feito para a Folha de São Paulo em decorrência do falecimento da artista Sonia Andrade, em outubro de 2022)</description>
		
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		<title>Falar com os mortos</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Falar-com-os-mortos-1</link>

		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 13:17:07 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>Falar com os mortos
André Griffo
[11 de julho de 2023]

Durante a organização deste livro, André Griffo chamou minha atenção
para algo comum às suas pinturas, em especial as que se referem à arquitetura
da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro: algumas das figuras humanas
seguram uma linha. Em muitos destes fios, de um lado há a demarcação de um território
e, de outro, temos um emaranhado deles, um bololô, como se diz popularmente.



Comecei a pensar como a pesquisa de Griffo se assemelha ao esticar
destas linhas — suas imagens proporcionam sobreposições de temporalidades e
culturas visuais que tanto delimitam narrativas, quanto nos confundem. Ao
entrevistá-lo para esta publicação, uma de suas respostas me levou a aprofundar
essa leitura: falando sobre suas primeiras experimentações com parafina, ele comentou
a respeito de trabalhos feitos com sobras encontradas em cemitérios. Griffo disse
que esta sequência pode ser vista como uma forma de “entender quais materiais
as pessoas usavam para se comunicar com os mortos”.



Depois dessa afirmação, não consegui enxergar sua pesquisa de
outra forma; comecei a observar suas narrativas como maneiras de manter uma
comunicação constante com os mortos. Seus fios soltos me remeteram à expressão
“fio da história” e a como, se caminhamos com um novelo de lã ou um carretel de
linha em nossos bolsos, somos capazes de retornar aos nossos pontos de partida.
O que as imagens de André Griffo nos sugerem, contudo, é que nem sempre esse caminho
de volta é linear ou mesmo possível; há momentos da história que nos empurram
para um estado de imbróglio e confusão. Inevitável e quiçá desejável, este é um
estado no qual podemos pensar sobre as complexas formas de, mais do que nos
comunicarmos com os mortos, fazermos reverência a eles.



Assim como as diferentes tessituras propostas por André Griffo, este
ensaio se divide em quatro momentos — cada um dedicado a um grupo de trabalhos
que, no todo, respeita certa cronologia de sua produção. Os quatro fragmentos são
intitulados a partir de frases escritas pelo próprio artista na superfície de
suas obras — em sua poética, a comunicação com os mortos muitas vezes também
passa pela palavra.




Substituir os chifres
Considerando sua formação em arquitetura, é interessante notar o
material escolhido por Griffo em seus primeiros trabalhos: a parafina. Derivado
do petróleo e criado no início do século XIX, o material de caráter combustível
é usado frequentemente em velas e chama a atenção por sua natureza moldável. Após
sua experiência com o concreto, o artista opta por lidar com uma matéria conhecida
por sua fragilidade e transitoriedade.



Quando observamos as fotografias desses objetos dispostos no chão
de seu primeiro ateliê, suas formas geométricas se destacam: quadrados,
retângulos, círculos desenhados com maçarico, torres e pequenas piscinas de
parafina. Esses trabalhos possuem certa sujeira e se apresentam parcialmente derretidos,
o que sugere uma relação mais orgânica com a arquitetura; são corpos estranhos
que parecem brotar do ateliê.



Ao passo que essa produção se desenvolvia com velas por vezes
apropriadas de outros espaços, trazendo, assim, materiais diversos a elas associados
— como recortes de papel e fósforos —, Griffo também circulava por
ferros-velhos em busca de pedaços de sucata, que seriam posteriormente
interligados entre si em seu estúdio. Esses objetos remetem a diversos usos do ferro
em relação ao corpo humano: próteses ortopédicas, equipamentos de musculação e
até mesmo instrumentos de tortura. Há um certo fantasma da violência e da
brutalidade nestas composições.



É interessante notar o que se sucede quando o artista realiza suas
primeiras pinturas sobre tela: por meio da imitação, ele representa a
fisicalidade encontrada na parafina e no ferro. Em Caixas (2011), uma de suas primeiras pinturas, vemos uma série de cubos
que remetem a caixas d’água e às estruturas de parafina desenvolvidas por ele;
em imagens posteriores, há a sugestão de uma ambiência arquitetônica que nos
lembra algo entre a oficina mecânica e uma sala de cirurgias. Tubulações,
articulações, parafusos, argolas, cordas e fiações conectam emaranhados de
corpos. Em muitas dessas imagens, como um manual de montagem de um objeto,
Griffo enumera elementos que nos dão a sugestão de sequência e denotam sua
dívida com a arquitetura e seus métodos construtivos. 



Assim como qualquer desenho esquemático, pouco a pouco surgem palavras
e frases nas imagens. Se em alguns desses trabalhos o campo semântico da
arquitetura se faz nítido — “decorado”, “sem matriz”, “chumbado” e “coroamento”
—, em outros, notamos que alguns escritos soam agressivos e alheios a ela. Palavrões
surgem aqui e ali, junto a frases como “não funciona”, “falsa insígnia” e “o
que esperar que saia de um cano de 40 anos?”. Essas expressões, ao lado de
iconografias de crânios de bois e porcos dilacerados em tons que vão do cinza
ao rubro, criam uma ambiência peculiar. Sai de cena o artista como arquiteto e
entra em palco uma figura mais próxima ao açougueiro — profissão
intrinsicamente ligada à morte.



Não é à toa a presença do porco nestas imagens, animal associado à
sujeira desde a Antiguidade — e especialmente desde o surgimento do
cristianismo[1]— por ter patas com casco fendido. Essa característica física protagoniza
desenhos de projeto e instalações como Chumbadores
(2013), cujos materiais também trazem ganchos encontrados em casas de abate de
animais. Além disso, não há como ignorar o simbolismo que a palavra “porco” adquiriu
nos últimos anos, em especial nos Estados Unidos, ao ser associada com a força
policial e seus constantes atos de violência gratuita.[2] 



Em Reuso e
retardo (2012), cujo
fundo é similar à assepsia branca de um açougue, lemos a discreta frase
“substituir os chifres”. Como um cirurgião, um açougueiro e/ou um escultor, Griffo
optou, no início de sua carreira, pela corporeidade e pelo caráter violento da
fragmentação do corpo animal. Trocam-se os chifres, conectam-se os crânios e criam-se
corpos estranhos.



Ainda como pano de fundo, mas crescendo com o decorrer dos anos,
aqui e ali em suas pinturas, surgiam referências ao arco ogival, às volutas e aos
portais góticos. Até que em um desenho, comentando um objeto feito com ferro e
parafina, ele escreve: “Como fazer o barroco vazio. Pegar uma grade de tamanho
e dobrar até fazer uma caixa. Depois, revestir essa caixa com outras grades e
içar. O objeto não tem fim”. Sai de cena o interesse pela carne e abre-se
espaço para sua obsessão pela tradição clássica na história da arte ocidental.



 
Barroco vazio
Duas pinturas parecem abrir caminho para o interesse de Griffo em regurgitar
a história da arte: Barroco
vazio e A exibição de Giotto/Gotejamento
contínuo/A vocalização da Mãe da Lua, ambas de 2014[3].
O primeiro trabalho pode ser visto como uma despedida de uma maneira de pintar
na qual a relação entre figura e fundo se dá pela adição de formas sobre um plano
abstrato de nuvens de cor. Há, novamente, a inserção de um crânio, que denota seu
interesse pela morte em sentido literal. Uma gaiola parece ser sustentada por
volutas e a expressão “barroco vazio” é escrita sobre a superfície. Estas duas palavras
nos interessam não apenas pela fórmula aqui já referida, mas pelo que ecoam
para além da pesquisa do artista.



A palavra “barroco”, utilizada não apenas nas artes visuais, mas em
todas as áreas das artes e da história da cultura, inicialmente designava
pérolas irregulares. Posteriormente, o termo é usado para nomear produções
artísticas que parecem recusar a ordem, a simetria e a calmaria — também
historicamente associadas (e inventadas) à noção de clássico. Nesse sentido, “barroco”
poderia ser lido, de forma muito superficial, como algo anticlássico — uma suposta
desordem com a qual se relacionariam as noções de kitsch e horror
vacui, que se refere ao horror ao vazio cultivado nas igrejas católicas
construídas após o surgimento do protestantismo. O Barroco, em sua associação
com o catolicismo, é visto como uma maneira de, pelo excesso, mover os ânimos das
massas.



Se a obra Barroco vazio preza, como diz o título, pela
ausência de excessos, o mesmo não pode ser dito de sua outra pintura aqui
referida que, desde o título — três nomes em um —, chama a atenção. Esse dado,
somado ao seu tamanho monumental — mais de quatro metros de largura e mais de
dois de altura — denotam um novo passo na trajetória do artista. Quando olhamos
a superfície da obra, seu caráter citacionista vem à tona: há uma coleção de
portões, janelas e detalhes extraídos da arquitetura gótica e de outros
momentos da arquitetura ocidental.[4] 



Já há algo barroco nos primeiros trabalhos de Griffo, sempre
permeados por um excesso fisicalizante. Uma relação direta entre esta
plasticidade e seu diálogo com a história da arte aparece de maneira inédita na
pintura Acidentes não são
territórios (2015). O
artista mostra um espaço em ruínas, mas ocupado com citações a obras de arte.
Ali estão artistas essenciais para a história da pintura como o italiano Giotto
(1267–1337) e o alemão Dürer (1471–1528), ladeados por um elmo medieval e
reproduções de elementos escultóricos feitos pelo próprio autor. Não deixemos
passar de forma desatenta: logo na parte de cima da tela, no teto desse
ambiente, há trilhos com refletores. Trata-se de uma galeria subterrânea; algo
que, num piscar de olhos, remete à ideia de um museu em uma era
pós-apocalíptica.



Se, nos trabalhos anteriores, apontei a metamorfose do
artista-arquiteto na figura de um artista-açougueiro, nestas pinturas
produzidas entre 2015 e 2018, poderíamos aproximar o artista de um historiador
da arte e/ou curador. Sempre interessado no grande formato — beirando os dois
metros de largura —, Griffo produziu uma série impactante de trabalhos nos
quais as ruínas convidam o olhar do público ao deleite. Ao ver
espectadores diante dessas obras, sempre me impressionou o tempo estendido durante
o qual encaravam os detalhes. Para o público leigo, é o caráter realista de
suas imagens que salta aos olhos — mesmo que, num segundo instante, as texturas
destas ruínas voltem a ser meras pinceladas. Já um observador mais atento cai
rapidamente no desafio de tentar identificar as obras curadas pelo artista —
elas existiriam? Seriam invenções no estilo de artistas renascentistas? E estas
flores que surgem solitárias? Alusões ao gênero da natureza-morta? Nesses
trabalhos, a conversa com os mortos é direcionada aos artistas que nos
antecederam e à própria história da pintura ocidental.



Aquela maneira de ver o mundo, porém, está morta; em 2016,
obcecado com essa cultura visual, o artista extrai o personagem central da
pintura O abençoado Ranieri liberta os pobres da prisão em Florença (1437–1444),
de Sassetta, e o coloca a sobrevoar diversas situações. Duas pinturas destoam
de outros trabalhos deste período: Ranieri abençoa os candomblecistas e Os
colonos em prol dos bons costumes. Eis um dos primeiros momentos em que
Griffo direciona a discussão para o campo geográfico-histórico do Brasil. Se
observarmos atentamente suas pinturas de ruínas, algo semelhante se passa: de
repente, a reverência feita à arte italiana cede espaço a reproduções de
retratos fotográficos de pessoas negras produzidos durante o século XIX no
Brasil. Em Back to Olympia (2017), atenção especial é dada à relação entre
a figura da empregada negra no quadro original de Manet, de 1863, e outras
representações de corpos negros, todos colocados lado a lado com fita adesiva, quase
em referência ao Atlas
Mnemosyne, de Aby
Warburg[5]. Oratórios
semelhantes à escultura barroca praticada no Brasil durante os séculos XVII e
XVIII se fazem presentes e citações arquitetônicas se relacionam à noção de casa
grande. Essas imagens trazem um diálogo com outros mortos: os da
colonização do Brasil.



 
A quem devo pagar minha indulgência?
Em 2018, André Griffo pinta um quadro intitulado Instruções para administração das
fazendas I. No
chão do edifício retratado na pintura, vemos miniaturas: uma casa está no
centro da composição, assim como um oratório. O que chama mais a atenção,
contudo, são diminutos corpos humanos. Ao nos aproximarmos, percebemos que são
pessoas negras carregando objetos de um lado para o outro, saindo desta maquete
de casa grande rumo a um buraco para plantar uma árvore ou observando o
oratório como símbolo de poder. A partir da leitura de um documento sobre como
fazendas deveriam ser administradas durante o período colonial no Brasil, o
artista tensiona alguns dos jogos de poder que envolviam a propriedade colonial
e a escravidão negra no Brasil.



Foi a partir de seu encontro com a Santa Casa de Misericórdia do
Rio de Janeiro que essa pesquisa ganhou uma camada mais ácida. Um dos edifícios
mais antigos da cidade, com obras iniciadas em meados do século XVI, a
instituição médico-religiosa oferece serviços públicos de saúde. Marco da
arquitetura colonial brasileira, o hospital esteve sob acusações de má
administração e corrupção em diversos momentos de sua história, colocando nos
holofotes seus provedores. Munido das contradições inerentes à história da instituição
— como seu anseio por misericórdia em um contexto escravagista —, Griffo acessa
diferentes espaços do edifício, estuda sua arquitetura por meio do desenho e da
fotografia, e a utiliza como base para uma extensa série de trabalhos.



É também de 2018 a tela A sala dos provedores na qual vemos a sala da Santa Casa que reúne retratos dos
provedores da instituição durante seus quase quinhentos anos. Longe de celebrar
esses homens ilustres que posaram tendo em suas mãos cruzes e livros, o artista
subverte suas efígies — um dos quadros parece ter sido vandalizado com tinta
vermelha, ao passo que outro senhor segura uma máscara do seu próprio rosto,
tendo outras idênticas espalhadas pelo chão. Como comentado na introdução do texto,
alguns destes retratados seguram linhas vermelhas — umas se espalham pelo chão
e outras sustentam bolos de dinheiro. Ao centro da imagem, no chão da sala e
dentro de uma planta baixa cruciforme esboçada com esta linha, dois corpos
negros se encontram novamente trabalhando, portando enxadas sobre suas costas.
À esquerda, uma miniatura de igreja com três homens negros velando um corpo
também é colocada no chão. Na entrada, um reduzido São Sebastião, padroeiro do
Rio de Janeiro.



É na perversidade dos detalhes que André Griffo cria um paralelo
narrativo entre os homens brancos com poderio econômico e simbólico que
administraram — e seguem fazendo — a Santa Casa de Misericórdia, e a população
negra miniaturizada, tratada como propriedade pela sociedade colonial
brasileira; eis o artista-sociólogo. Nos anos seguintes, o espaço da
instituição religiosa retorna de forma minuciosa na série Instruções para administração das
fazendas: azulejos,
janelas, esculturas religiosas, retratos de provedores, mobiliário, padrões
geométricos do piso, luminárias e oratórios — todos esses elementos são
incluídos em narrativas que demonstram como Estado e Igreja caminharam juntos
em séculos de exploração do território que atualmente chamamos por Brasil.
Enquanto a misericórdia era praticada, o sangue era derramado.



Ademais, Griffo nos lança outra pergunta: devemos articular esses
verbos no passado? Projetos de poder que articulam religião e Estado no Brasil
não são vigentes na contemporaneidade? A população negra, maioria da população
brasileira, não segue a ser aniquilada diariamente, de diferentes formas que
atualizam a violência colonial? É deste questionamento que o artista produz pinturas
que são uma mescla de iconografias cristãs e representações da violência. Em
Talvez valha a pena
contar com a sorte (2019),
uma figura angelical que parece extraída de uma pintura italiana do século XIV
observa um grupo de pessoas negras trabalhando — a vista grossa feita até hoje.
À direita, duas cascas de tinta de parede têm uma silhueta semelhante à América
do Sul; uma delas representa o continente em sua relação com a África, a
América Central e a América do Norte — as Américas como um projeto de ruína.



Em uma pintura de 2019, uma frase pixada sobre uma parede nos
pergunta: “A quem devo pagar minha indulgência?”. Quem levanta a questão? As
múltiplas figuras religiosas? As figuras estatais? Ou seriam estes corpos que trabalham
para manter um país e, na impossibilidade de enxergar qualquer ascensão social,
acreditam na ficção de que são pecadores? À esquerda, no chão, uma superfície
de plástico reúne objetos de maneira semelhante à de vendedores ambulantes. O
artista nos introduz um novo personagem em seu universo pictórico: os vendedores
de miniaturas.



 
Voarei com as asas que os urubus me deram
Em 2020, André Griffo faz a pintura O vendedor de miniaturas. Fazendo referência a uma estação de metrô — algo recorrente em
seus trabalhos recentes —, o artista pinta um espaço vazio, mas repleto da
presença humana pelas miniaturas. Algumas, mantendo sua assinatura, estão
pousadas no chão. Em posturas que se assemelham a santos cristãos, notamos a
presença de um pastor com microfone que tem um fiel ajoelhado ao seu lado e
alguns policiais militares. Outras figuras são agrupadas em cachos içados no
teto da estação, semelhante ao que vendedores ambulantes fazem no Rio de
Janeiro. Nelas, vemos não apenas silhuetas de santos, mas, novamente, pastores
e policiais.



Depois de mais de dez anos de discussões sobre a violência, é
interessante como apenas recentemente Griffo começa a utilizar iconografias que
incluem agentes contemporâneos. A polícia militar, as milícias e o
protestantismo foram alçados ao estatuto de poder estatal e religioso. As
instituições a quem a população brasileira deve pagar suas indulgências
mudaram; exemplo disso é O
vendedor de miniaturas — show room (2021), no qual, em um ambiente semelhante a uma igreja com um
belo vitral, todas essas figuras citadas são pintadas como se fossem esculturas
de mármore.



A escala da figura humana cresceu em seus trabalhos recentes — era
difícil imaginar anteriormente corpos em tamanho grande como os que encontramos
nas várias versões de trabalhos na série O vendedor de miniaturas e nas figuras melancólicas das duas pinturas que compõem Olhos distantes se camuflam na
paisagem. Na variante
mais recente da tela, de 2022, um homem se senta perante uma mesa vazia com
apenas uma garrafa de cachaça e um copo. Acima de seu corpo, presa à parede,
uma reprodução da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. Na ausência da
fartura daquela grande refeição, cabe a esse homem estar ensimesmado e
reflexivo em seu labirinto de azulejos.



Há algo de existencialista nas obras recentes de Griffo; gosto de
pensar que, se anteriormente o apontei como um artista-sociólogo, aqui ele
lança um olhar mais próximo da psicologia, versando sobre existências que se
posicionam entre a melancolia e o cansaço dos dias de trabalho. Seus
vendedores de miniatura se encontram em lugares subterrâneos e mal iluminados,
ao lado de coleções de miniaturas perversas, em posturas entre o descanso e a
autorreflexão. Talvez eles não percebam que, em verdade, as miniaturas são
eles. É como lemos não apenas uma, mas duas vezes nas placas de O vendedor de miniaturas 5: “sem saída”.



Em O
progresso do regresso 4
(2021), o artista nos mostra como o jornal desempenha um importante papel
ficcional. Cinco recortes trazem artigos que apenas confirmam o beco em que
estamos — um repete o título do trabalho, ao passo que os outros dizem “Iphan
quer proteger as armas de fogo como objetos de valor cultural”, “Use sua arma
nova em si”, “O que dá pra rir dá pra chorar” e “Talvez valha contar com a
sorte”. Acima dessas matérias, a imagem de um bolsonarista fazendo uma arma com
as mãos, tendo Brasília ao fundo. Neste ambiente seco e de desesperança,
contudo, há uma frase escrita sobre a superfície externa de uma janela de
vidro: “Voarei com as asas que os urubus me deram”[6],
uma citação à música Manguetown, de Chico Science &#38;amp; Nação Zumbi.[7]



Em uma espécie de releitura do mito de Ícaro — o filho de Dédalo
que voa alto demais e tem suas asas de cera e penas derretidas —, Griffo nos
sugere que, uma vez no caos, mais vale abraçá-lo e tentar voar dentro de seus
limites. Longe das asas das águias, que nos valhamos de pássaros cuja carga
simbólica e cromática costuma ser associada à morte e ao mau agouro. Nestes
trabalhos mais recentes, a conversa com os mortos proposta pelo artista diz
respeito à própria noção de individualidade e liberdade; acometidos por tantas
violências físicas, simbólicas e psicológicas estimuladas pela acelerada comunicação
humana e pela luz de nossos celulares, só nos resta ficar prostrados. É a morte
dos sonhos ou, melhor dizendo, é a conclusão de que só as asas dos urubus nos permitirão
voar.




***



Em seu percurso de quase 15 anos como artista visual, André Griffo
criou imagens que não cessam de proporcionar novas leituras e associações para
o público. Felizmente, mesmo que seja um trabalho engajado em uma reflexão
política e existencial, sua pesquisa está longe do caráter panfletário que
abate tantos artistas em momentos de crise política, sucesso comercial e
entrada institucional. Seus trabalhos recentes, assim como suas primeiras
pinturas e objetos, permanecem um emaranhado de referências que nos convida a,
como ele próprio escreveu, “substituir os chifres” — ou seja, mover signos
daqui para ali, colocar lado a lado formas e extrair equações cujos resultados nunca
serão os mesmos. 



Comparando seus últimos trabalhos com os primeiros, é curioso
constatar um interesse comum: a relação com o tempo, com a memória, com o
passado, com a História e, claro, com a morte. Se aquelas produções em parafina
se perderam enquanto escultura, segue no artista a experiência física de fazê-las
e seu registro fotográfico para o público. Enquanto isso, algumas narrativas
ecoadas em sua pintura parecem ter se desmanchado no ar — seja o Renascimento,
seja a sociedade colonial, seja o fascismo que abateu o mundo. Como, porém, sua
proposição de mnemotécnica[8]nos ensina, não existem verbos no passado — existem ciclos, às vezes orgânicos,
às vezes abruptos, que nos colocarão perante o gozo e o medo, menos como um
movimento pendular e mais como uma espiral.



Por agora, ao menos no Brasil, parece ser tempo de respirar aliviados
e observar de forma esperançosa o horizonte — mesmo que estejamos voando com
nossas asas de urubu. Quem disse que precisamos das asas de outros pássaros? O
importante é voar.










[1] Diversos fragmentos da Bíblia fazem referência à carne de porco. Em
Levítico, 11:7-8: “Também o porco, porque tem cascos fendidos, e a fenda dos
cascos se divide em dois, mas não remói; esse vos será imundo. / Da sua carne
não comereis, nem tocareis no seu cadáver; esse vos serão imundos”. Já em
Deuteronômio, 14:8: “O porco também é impuro; embora tenha casco fendido, não
rumina. Vocês não poderão comer a carne desses animais nem tocar em seus
cadáveres”. 
[2] Ver ORTEGA, Adam. “A brief history of the word
pig as a slang for police” in Noise Omaha. 02 de
julho de 2021. Disponível em &#38;lt;www.noiseomaha.com/resources/2021/7/1/a-brief-history-of-the-word-pig-as-slang-for-police&#38;gt;.
[3] Ambos os trabalhos, assim como parte das obras comentadas
previamente neste texto, estavam na mesma exposição: Intervenções pendentes em estruturas mistas, no
Palácio das Artes, Belo Horizonte, em 2015.
[4] Importante lembrar que esse largo estudo sobre o arco ogival levou
o artista a realizar sua instalação de maior escala até agora, Predileção pela alegoria — andaimes, exibida na
cobertura do Centro Cultural São Paulo, em 2017, e que também gerou a exposição
de mesmo título realizada na Galeria Athena, em 2015. Há um tríptico em pintura
com o mesmo título, também de 2015, que exemplifica seu interesse pelo estudo das
relações entre forma, uso e ornamentação.
[5] Ver, por exemplo, WARBURG, Aby. Atlas Mnemosyne. Madri:
Ediciones Akal, 2010 e DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente:
história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2013. Interessado no tráfego de símbolos entre tempos e culturas
diferentes, o historiador da arte alemão Aby Warburg (1866–1929) desenvolveu um
estudo em que aproxima imagens de diferentes temporalidades a fim de perceber
constâncias formais. Warburg organizou mais de mil imagens em sessenta e três
pranchas, abordando diversos tópicos desde a Antiguidade até a época do seu
estudo, por meio de reproduções imagéticas e colagens.
[6] Este se trata do título de sua exposição individual na Galeria Nara
Roesler, em São Paulo, em 2022.
[7] Os versos originais dizem “Esta noite sairei / vou beber com meus
amigos / ha! E com as asas que os urubus / me deram ao dia / eu voarei por toda
a periferia”. A música tem composição de Chico Science e Lucio Maia, e foi incluída
no álbum Afrociberdelia, de Chico Science
&#38;amp; Nação Zumbi, de 1996.
[8] Ver YATES, Frances. A arte da memória. Campinas: Editora
UNICAMP, 2007.















(texto feito para o livro “André Griffo”, organizado por Raphael Fonseca e publicado pela Act Editora em 2023)</description>
		
	</item>
		
		
	<item>
		<title>Roda da fortuna</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Roda-da-fortuna</link>

		<pubDate>Sun, 31 Aug 2025 03:20:31 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://raphaelfonseca.net/Roda-da-fortuna</guid>

		<description>Rodas da fortunaEmmanuel Nassar[22 de agosto de 2025]

Quando buscamos a história das
cartas de tarô, muita atenção é dada a um dos primeiros baralhos dos quais se
tem notícia, com datação aproximada de 1451 e comumente atribuído a Bonifacio
Bembo e Francesco Zavattari. O baralho circulava pelas mãos das famílias
Visconti e Sforza, proeminentes do ducado da cidade de Milão. Por mais que
existam relatos anteriores de jogos semelhantes, este seria o conjunto mais
antigo de cartas de tarô conservado em sua quase totalidade — com exceção das
cartas do Diabo e da Torre — e espalhado por diferentes coleções no mundo.



Quando criadas no século
xv, as cartas de tarô eram usadas
em uma espécie de jogo de azar chamado Tarocchini. Apenas no século xviii as cartas de tarô são embebidas de
uma leitura mais esotérica, que observa a sua iconografia com um olhar que a
aproxima de diversas tradições iconográficas e religiosas. Salvaguardada na
coleção da Morgan Library &#38;amp; Museum, em Nova York, uma das cartas mais
célebres é a Roda da Fortuna [img.]. No campo da cartomancia, ela é
considerada um dos 22 Arcanos Maiores, ou seja, uma das cartas que trazem
grandes tópicos, aspectos vitais e arquetípicos da experiência humana.



No centro da composição
e vendada, eis a fortuna, a sorte — aquela que, dependendo de onde o vento
bater, pode girar tanto para cima quanto para baixo: basta observar as palmas
das suas mãos abertas não apenas fisicamente, mas também metaforicamente. Ao
redor dela, quatro figuras humanas sugerem o formato de uma cruz e dos pontos
cardeais. Acima, sentado em um trono, com uma postura rígida, vemos um homem
jovem que tem ao seu lado uma palavra em latim: regno. No seu polo
oposto, um senhor idoso, com grande barba e trajes simples, engatinha como uma
criança e tem outra frase ao lado de sua boca: sum sine regno. À
direita, de cabeça para baixo, tentando não se desprender da roda de forma nenhuma,
um terceiro homem profere regnavi, ao passo que do outro lado, mirando
com olhar firme o poder acima, a quarta figura diz: regnabo.



“Eu reino”, “eu estou
sem um reinado”, “eu reinei” e “eu devo reinar” caminham lado a lado, variam
seus poderes dentro da roda da fortuna e da vida de acordo com as velocidades
impressas pelos acasos. Há reinados que duram dias, assim como há ambições de poder
que podem durar dinastias inteiras. Seja aprendendo com os livros de História,
seja com os personagens de uma telenovela, a ambição parece ser inerente à
grande parte desta espécie chamada humana. Os acasos recheados de sortes e
azares são, porém, maiores do que a nossa espécie, desafiam a ciência e, por
vezes, empurram essa roda para configurações nunca imaginadas.



O leitor deve se
perguntar: de qual maneira essa introdução sobre a roda da fortuna e o tarô se
relacionam com a obra de Emmanuel Nassar? A resposta é mais simples do que
parece: basta observarmos a sua produção para nos darmos conta da obsessão pela
repetição de formas circulares embebidas de campos semânticos distintos.
Durante minha trajetória como parte do público de artes visuais, pude acompanhar
algumas exposições de Nassar, mas foi durante a pesquisa em torno da mostra Fullgás[1]&#38;nbsp;que seu interesse pela circularidade me chamou a atenção.



Quando solicitei ao
artista uma lista de obras datadas entre o começo de sua carreira, nos anos
1970, e o ano de 1993, muitas delas flertavam com a noção de jogo. Não é à toa
que, por fim, a obra que incluímos na exposição se chama Roda de bicho,
1986. Um macaco, um galo, um tigre e uma cobra ditam a direção cruciforme dessa
imagem. Apesar de não tratar explicitamente do jogo do bicho, criado durante o
final do século xix no Rio de
Janeiro, somos impelidos à tentação de cruzar esses campos dada a presença de
todos esses animais. A sugestão de movimento de Roda de bicho, algo que
se espraia em grande parte da produção de Nassar, se dá pela maneira
inteligente como ele joga não apenas com cores contrastantes, mas também com as
suas extremidades: nos cantos superiores, mesmo que discretamente, lá estão os
clássicos “e” e “n”, sugerindo não apenas suas iniciais,
mas também um jogo poético com “este” e “norte”. Nas extremidades inferiores,
duas linhas douradas datam a pintura — 8 e 6. Em um arco abaixo da roda, para
que não restem dúvidas, ele assina o seu nome.



Em 1988, há uma obra de
sua autoria que, literalmente, se chama Roda da fortuna. Tal como uma
roleta de cassino, um grande círculo é dividido em diversas partes; grande
parte surge em branco — com exceção de cinco pequenos ícones: um carro, uma
chave, um anel, uma bicicleta e uma televisão. Entre o casamento, o desejo de
consumo e o sonho da casa própria, o destino daquele que gira a roleta em sua
imaginação — ou seja, o público — está totalmente em aberto. Roleta, do
mesmo ano, possui estrutura semelhante, ainda que os personagens e o universo
poético sejam outros: homens e mulheres desnudos são distribuídos pelos
fragmentos do quadro. Ao centro, situa-se uma pequena roleta com números, cujo ponteiro
é peculiar: uma espingarda. Na ciranda dos crimes passionais, prazer e rancor
caminham lado a lado.



A minha surpresa não foi
pequena quando, no processo de escrita deste texto, resolvi assistir ao
material bruto da entrevista de Nassar a Juliana Reolon, assistente de
curadoria de Fullgás, que ficou responsável por consultar parte dos
participantes da exposição. Comentando Roda de bicho, Nassar diz:



Até
hoje eu faço rodas da sorte. […] A vida é uma espécie de jogo onde a gente
depende não apenas da nossa determinação, mas de uma sorte, uma janela que se
abre, uma possibilidade que se abre. A criatividade e a criação dependem muito
disso — de você apostar alguma coisa para ganhar e, para ganhar alguma coisa,
você tem que ter um bilhete. Então, acho que é tudo um jogo de perde e ganha,
mas é preciso mover a roda da fortuna porque às vezes ela é a roda do azar.[2]



A década de 1980 foi, em
certa medida, a década em que foram dados a Nassar esses bilhetes da sorte. Foi
em 1982 que, pela primeira vez, ele mostrou seu trabalho fora do estado do
Pará, na 4ª Mostra de Desenho Nacional, em Curitiba. Em 1988, participa de uma
grande coletiva de artistas brasileiros que passa por três diferentes
instituições alemãs.[3]No ano seguinte, o artista integra a Bienal de São Paulo e apresenta uma exposição
individual na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.



Curiosamente, porém, de
maneira diferente de tantos artistas que já encontravam, logo na sua primeira
década de produção, absorvidos pelo mercado de arte, Nassar — nascido em 1949 e
com uma experiencia de vida que passava pelos estudos de Arquitetura, pelo
trabalho com publicidade e propaganda, além de um período vivido em São Paulo —
ingressava no sistema de arte sudestino com pouco mais de trinta anos de idade.
Jovem? Certamente, mas não alguém nos seus “vinte e poucos anos”, como diz a
canção de Fábio Jr.[4]




Quando perguntado, na mesma
entrevista para as preparações de Fullgás, por uma palavra que definiria
os anos 1980, ele afirma: “uma década”, abre um sorriso e segue, “para alguém
de mais de 70 anos, aquilo ali foi apenas uma década. Importante, mas uma
década”.[5]Afastando-se da usual e complexa filiação à chamada “Geração 80”, Nassar diz
que não se identifica com o termo porque estava geograficamente distante
daquela exposição do Parque Lage[6] —
ele se encontrava, precisamente, no Pará. Considerando o somatório de elementos
aqui apresentados — idade, geografia, formação artística parcialmente
autodidata e interesses existenciais —, as rodas da fortuna de Nassar giram da
melancolia à celebração da vida, seus ventos se movimentam para direções sempre
diferentes.



Há uma imagem do artista
que me chama a atenção pelo caráter inusitado e, ao mesmo tempo, eletrônico.
Assim como em parte de sua obra, em Genius, 1990, Nassar joga com o
“vazio” compositivo da superfície — neste caso, a tela —, onde pinta dois
elementos: acima, um círculo dividido em quatro áreas de cor; abaixo, o
rascunho da silhueta de um corpo humano que parece deitado em posição fetal,
solitário na imensidão da superfície. Um olhar atento, que tenha memória fresca
sobre a cultura visual dos anos 1980 no Brasil, retornará a essa imagem algumas
vezes e suspeitará da semelhança dessa roda com um objeto muito popular à época:
o brinquedo Genius, lançado em 1980, o primeiro jogo eletrônico fabricado no
país. Uma vez ligado, essa espécie de disco voador caseiro emite diferentes
sons para cada cor e desafia o usuário a decorar sua ordem de tons sonoros e
cromáticos e a exercer a sua memória. Assim como na produção de Nassar, não há
muitas regras (às vezes, se começa pelo azul, outras vezes pelo amarelo); o
importante aqui é jogar com os acasos audiovisuais.



A empresa que lança esse
jogo no Brasil se chama Estrela — ainda hoje, uma das maiores produtoras de
brinquedos na América Latina —, e seu logotipo era constituído de um círculo
vermelho onde, em seu centro, se vê uma estrela cujos lados variam entre o
branco e o azul. Nassar brincará com essa composição em alguns trabalhos: uma
vez, logo acima de suas iniciais, feitas em ferro e presas em arame; outra, apenas
pintada. O importante é que a estrela — e, consequentemente, a apropriação da
logomarca — tenha seu espaço próprio para brilhar. Eis um ótimo exemplo das
muitas maneiras como o seu trabalho conversa diretamente com a cultura do
consumo no país, de modo a permitir, porventura, que não apenas críticos e
curadores, como também o próprio artista vincule sua produção à chamada pop art.
Não nos esqueçamos que, ainda durante os anos 1980, a empresa Estrela abre uma
indústria de brinquedos em Manaus, capital do estado do Amazonas, célebre por
sua Zona Franca, inaugurada em 1967, em plena ditadura militar. Para tornar
essa série de relações ainda mais rica, a primeira fábrica da empresa foi
criada no bairro de Belém, na cidade de São Paulo. Poderíamos nos perguntar:
todos os caminhos levam Emmanuel Nassar a Belém? 



Felizmente, não. Porém,
assim como qualquer outro artista, são inegáveis as suas relações e vínculos
com o lugar onde viveu grande parte da vida. Longe de qualquer fabulação de
mitos originários em torno de Belém, do estado do Pará ou desse grande
território que convencionamos chamar de Amazônia, as imagens de Nassar são
devedoras de uma memória em que artesanal e industrial se encontram entre as
grandes fábricas e os painéis publicitários de rua pintados à mão. O som hoje
retrofuturista de um Genius e os aplausos em um picadeiro de circo não apenas
podem, como devem caminhar lado a lado.



Nem tudo, porém, são
apitos eletrônicos e coloridos. Toda noção de trabalho — seja em escala
monumental e automatizada, seja em escala microscópica e artesanal — envolve a
presença humana, o planejamento e a possibilidade de acidentes de percurso; há
um potencial trágico em qualquer atividade humana. Algumas de suas rodas,
portanto, são uma lembrança da violência. Acidente de trabalho, 1987, é
exemplar da chave mais fatal do trabalho de Nassar: um losango de madeira, com
suas bordas pintadas em verde-e-amarelo, tem no seu centro um bocal para
lâmpadas vazio. Ao redor do objeto integrado na madeira — que também nos lembra
da importância da colagem em parte de sua produção —, o artista pinta uma forma
que remete a uma serra industrial pontiaguda. Duas mãos são distribuídas, uma para
cada lado, como se tivessem sido decepadas pelo maquinário — leitura certamente
direcionada pelo título da obra. Mesmo que a forma como as mãos são pintadas
traga algo de cartunesco, o artista realça a cor vermelha, que remete à verossimilhança
anatômica do ato imaginativo. Deveríamos interpretar esse losango na chave da
literalidade de suas cores e enxergar nesse acidente uma metáfora para o
Brasil?



Trabalhos anteriores do
artista já traziam a presença de roldanas e serras, geralmente em uma chave
mais acrobática, colorida e festiva — há algo em obras como Pesos e medidas
I, 1982, e em Currupiu gigante, 1984, que nos permite lembrar tanto
da ludicidade do famoso Circo (1926–31) de Alexander Calder,
salvaguardado pelo Whitney Museum, em Nova York, quanto de artistas mais
próximos ao círculo de Nassar, como o grande Marinaldo Santos, cuja carreira
também se inicia durante os anos 1980, no Pará. Desse período, existem algumas
obras de Nassar em que os círculos são acompanhados por martelos, embora ainda
sem o caráter trágico do trabalho braçal. Uma obra sem título de 1995 possui
estrutura formal que lembra as gambiarras que se alastram em parte da produção
do artista: de forma improvisada, uma roda pintada de vermelho e branco é
ficcionalmente sustentada por uma engenharia frágil de cordas pintadas, que
sustentam a composição atadas a dois martelos presos por pregos nas margens da
pintura. Qualquer movimento destruiria o falso equilíbrio ensejado. Roda com
martelo, 1991, exemplo ainda mais experimental, apresenta um círculo feito
de diferentes tábuas de madeira que traz sobre a sua superfície tanto um
martelo que funciona como ponteiro de um relógio, quanto duas pedras presas às
iniciais do nome do artista. Colagem, engenhoca e fantasia caminham juntas. Essas
obras são, portanto, elogios ao movimento e à sugestão cinética feita pela
pintura de Nassar.



Há algo em sua produção
que faz com que, sobretudo no final dos anos 1980 e início da década posterior,
surjam diversos trabalhos em que predomina a insistente violência das serras. EN
Serra e Serra EN, ambas de 1990, jogarão com as serras nos centros
das composições, tal como se estivessem fatiando a superfície do
objeto-pintura. Outra obra, sem título e datada da mesma década, traz a serra
na margem inferior da pintura, oferecendo risco a um tronco de árvore pintado
que conecta as iniciais do artista. O fundo verde da tela e suas bordas de
madeira nos fazem mudar a lente para observar a serra — sai de cena o
imaginário de uma roldana industrial ou doméstica e entra em seu lugar um campo
semântico próximo das motosserras e da infeliz lembrança rotineira dos
desmatamentos florestais.



A mão vista em Acidente
de trabalho reaparecerá em outras obras de Nassar, embora desassociada do
maquinário. As mãos, por exemplo, pintada em 1993, trará uma coleção
delas em diferentes cores de pele, formatos anatômicos e lados esquerdos e
direitos. Trata-se de uma espécie de lição de anatomia recodificada em pintura,
o excesso das mãos faz lembrar igrejas ou museus que apresentam suas coleções
de ex-votos. Feitas em madeira ou cera para celebrar ou tentar alcançar uma
graça no que diz respeito à saúde de um fiel católico, mãos são ofertadas seja quando
se deseja a cura desses membros, seja quando se celebra a cura de alguém que
trabalha constantemente com elas.



Retornando a seus
círculos, quando Nassar opta por dar protagonismo a uma mão apenas, a lembrança
do ex-voto permanece, mas com uma aura ainda mais sagrada. Em Mão, 1990,
as cores da pintura nos levam a enxergá-la como se estivesse refletida na íris
de um olho; já em Altar, 1992, a simulação de uma cortina nas bordas da
pintura concede a ela um caráter teatral. Não mais lembranças da violência, da
dor e ou dos acidentes, as rodas agora parecem mais rodas de fé, da esperança
pela cura e, intrinsicamente, do peso e importância do tempo.



Ao fim da entrevista
aqui citada, Emmanuel Nassar afirma:



Estão acontecendo coisas
imagináveis hoje — em todo lugar e a toda hora. Acho que a roda está
acelerando; está mais rápida do que estava nos anos 1980 e o jogo da vida está
se apresentando cada dia com um cenário novo tanto na minha vida pessoal, como
do mundo e como agora, hoje, a gente sabe mais do que antes. Hoje sabemos em
tempo real de tudo que acontece... e eu tenho setenta e cinco anos.[7]



Ouvindo as suas palavras
e passando os olhos por todas essas rodas, roletas e círculos, a intrínseca
relação desses objetos com a passagem do tempo se faz ainda mais clara. Talvez
sua insistência ao representá-los com formas, cores e campos semânticos tão
diversos nos ensine algo sobre sua obsessão com a passagem do tempo e com a
incerteza?



Roda, uma obra de escala médoa,
de 1985, parece resumir o interesse do artista de forma misteriosa: novamente,
eis no centro da composição um círculo com as marcações dos pontos cardeais
sobre sua superfície. Como diferencial, porém, a pintura traz no centro uma
forma cilíndrica amarela que sugere o eixo central de um relógio. Sem ponteiros
ou marcações de números, o espectador é convidado a inventar tudo aquilo que
essas máquinas tão antigas possuem: o número de ponteiros, o seu design,
a quantidade de números ou mesmo de palavras que dividiriam esse plano e
denotariam a tentativa de quantificar o mundo. Círculo em chamas, 1989,
mesmo que fuja da silhueta de um relógio, também nos lança perguntas sobre o
tempo: onde essas chamas começaram? A este ou a norte? Elas criam esse círculo
em brasa ou foi a forma externa que as iluminou? 



Depois dos anos 1980, a
insistência nos círculos será constante e tomará as mais diversas escalas e
materiais — da fotografia ao desenho, passando pela pintura, a costura das
bandeiras e proposições com caráter mais instalativo. Para a retrospectiva na
Pinacoteca de São Paulo, realizada em 2018 e intitulada Emmanuel Nassar
81-18, o artista fez um trabalho chamado Roda8118, em que começo e
fim, diferentes décadas e projeções de idades se misturam em um espiral única —
assim como a exposição justapunha trabalhos de datações variadas. A nossa
relação com o tempo e com nossas memórias e carreiras pode ser encarada como um
giro contínuo.



O universo curvilíneo de
Emmanuel Nassar é um convite ao constante exercício criativo por parte do
espectador. Seja a Roda viva, 1968, de Chico Buarque,[8] o
Pião da Casa Própria,[9] o
girar de uma garrafa numa rodada de “verdade ou consequência”, o globo de um
bingo ou, para ficarmos nos anos 1980, os versos de A roda, 1987, de
Sarajane:[10]“cada pessoa projetará uma velocidade, um resultado, vitórias e derrotas
diferentes no girar ficcional dessas imagens aqui comentadas”.[11] Tal
como num jogo de tarô, quando alguém nos lança a “roda da fortuna”, a interpretação
se relaciona com as perguntas que fazemos, com as cartas tiradas anteriormente
e posteriormente e, sobretudo, com a oralidade da pessoa que analisa as cartas.



“Eu tenho um cenário
novo agora, novíssimo: como administrar essa reta final da vida? É um novo
desafio. Eu não pensava nisso quando eu tinha trinta ou quarenta anos, mas
agora eu tenho que pensar nisso também. Eu tenho que ser mais imediatista”, diz
Nassar nos segundos finais de sua entrevista.[12] Não
tenho dúvidas de que ele terá a sapiência necessária para seguir usando
bilhetes da sorte nos anos por vir; nós, o público, seguiremos girando rodas,
roletas e círculos, à espera de novos resultados. 



O artista pode um dia
desaparecer, mas as suas rodas da fortuna permanecerão conosco e povoarão novas
imaginações — isso se tivermos sorte.







[1] “Fullgás: artes visuais
e os anos 1980 no Brasil” abriu primeiramente no CCBB Rio de Janeiro, em
outubro de 2024 e depois viajou para as unidades de Brasília, São Paulo e Belo
Horizonte, se estendendo até o final de 2025. Assinei como curador-chefe do projeto
e Amanda Tavares e Tálisson Melo como curadores adjuntos. A mostra gira em
torno de um levantamento sobre artistas que iniciaram suas carreiras entre 1978
e 1993 em todos os estados brasileiros. Seus cinco núcleos expositivos se
concentraram em diferentes tópicos que se deram na passagem do final da
ditadura militar no Brasil até o impeachment do primeiro presidente eleito
democraticamente na nação após o militarismo, Fernando Collor de Melo, em 1993.






[2] Emmanuel Nassar em entrevista
realizada em 29 de julho de 2024, disponível no canal “Arquivo Fullgás”, programa
paralelo à exposição Fullgás, no Youtube.






[3] Brasil já, 1988,
Museum Morsbroich, em Leverkusen; Galerie Landergirokasse, em Stuttgart; e
Sprengel Museum, em Hannover, Alemanha. 
[4] “Eu não abro mão/ nem
por você nem por ninguém/ eu me desfaço dos meus planos/ quero saber bem mais
que os meus vinte e poucos anos”, diz o seu refrão. A canção foi inserida no
álbum Fábio Jr., lançado em 1979 pela rge.
[5] “Arquivo Fullgás”, Op.
cit. 
[6] Como vai você,
Geração 80?, 14 de julho a 13 de agosto de 1984, na Escola de Artes Visuais
do Parque Lage, Rio de Janeiro.
[7] Ibid.
[8] “Roda mundo,
roda-gigante/ rodamoinho, roda pião/ o tempo rodou num instante/ nas voltas do
meu coração”. A canção é parte do álbum Chico Buarque de Hollanda vol.
3, de Chico Buarque, lançado em 1968 pela rge.
[9] Refiro-me ao quadro
criado pelo apresentador televisivo Silvio Santos, muito popular na televisão
brasileira durante os anos 1980 e 1990. Nele, quem tirava um número maior
ganhava uma casa própria. O quadro foi criado em 1962, na tv Paulista, em seu programa “Pra ganhar
é só rodar”.
[10] “Vamos abrir a roda/enlarguecer”, canta Sarajane em sua canção icônica e cheia de duplos sentidos.
Ela foi incluída em seu álbum História do Brasil, de 1987, lançado pela emi.
[11] Interessante registrar
que Nassar, na referida entrevista (“Arquivo Fullgás”, Op. cit.), interpreta o
seu interesse pelos jogos pela via da ascendência síria: seu avô saiu da Síria
com 17 anos e foi para Capanema, no Pará. Segundo o artista, seu antepassado
era viciado em jogos.
[12] Ibid..






















(texto feito para o livro “André Griffo”, organizado por Raphael Fonseca e publicado pela Act Editora em 2023)</description>
		
	</item>
		
		
	<item>
		<title>A body in metamorphosis</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/A-body-in-metamorphosis-1</link>

		<pubDate>Wed, 06 Aug 2025 15:24:31 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>A Body in Metamorphosis
Elen Braga
[21 de outubro de 2024]




















I
first came across Elen Braga's work in 2011, in São Paulo, when the artist
still signed her name Elen Gruber. We met at a collective studio she was part
of, which occasionally opened its doors as an exhibition and experimentation
space. Much has happened in her career over the past ten years. Still, I have a
special fondness for this moment when we met because – like any artist at the
beginning of their career – she was feeling her way through the broad field of
visual art and trying to understand which topics and media might be of interest
for her research.



An
untitled video of hers from 2011 is referred to simply as Rosa [Pink] in some of her older portfolios. Filmed vertically, we
see a space filled with white tiles. The ambient sound reminds us of something
related to water running through the space – the association with a bathroom is
almost inevitable. There is a bench and a container with pink liquid. The
artist sits on the bench with her back to the camera and slowly begins to paint
her body. We gradually observe a specific juggling act as she captures the
different angles and surfaces of her back, always leaving her face a mystery.
After performing the action, she stands up and leaves pink traces – a stamp of
her buttocks on the bench and the remains of the action on this previously
aseptic surface.



This
is an extremely simple video in terms of production and economical in terms of
narrative; nonetheless, it is interesting to note her practice’s recurring
interest in working with the image of her own body and placing it in an open
narrative space, which has grown more complex over the last ten years. Here,
her body goes from something hominid and imitative due to the realism of the
video to something nonsensical and pink – a commentary on painting? A
reflection on the association between color and gender? The suggestion of
autofiction is one of the backbones of Elen Braga's practice.



Many
of her early works were produced as video performances. Actions involving
tension and effort, along with objects carrying strong symbolism, such as
corsets and straitjackets, are the main motifs in these images. In some of
them, due to the focus on specific parts of the body or the mirroring effect
suggested in the video, we cannot distinguish what is being shown: is it the
artist herself? Is it her body doubled? In her first performances, we see the
artist performing and/or inviting the audience to perform activities such as
wrestling, including arm wrestling and tug-of-war. Sweating, colliding with
others, falling, and repeating everything again becomes necessary. No pain, no
gain – but what is there to gain from the pleasure of making art?



At a
later point, Elen developed an interest in epic figures such as Hercules.
According to a lost book written by the epic poet Peisander, which is dated
between the 7th and 6th centuries BC, Hercules is said to have performed twelve
tasks as penance. After committing a heinous crime – the murder of his family
during a fit of madness provoked by Hera – these tasks were meant to redeem him
and set him on the path to immortality. In each episode of his narrative, the
notions of displacement and the destruction of enemies are fundamental: from
the Nemean Lion to Cerberus, the hound of the underworld, Hercules relied on
his physical strength and wit to assert his superiority, driven by a thirst for
vengeance. 



In
2013, Elen Braga put herself in the place of Hercules; she became the heroine
of her story. As in the ancient tale, this series of works was developed in
very different places – Portugal, Brazil, Argentina, the United States,
Bolivia, and, finally, Belgium, where she has lived since 2016. Far from the
Herculean monsters, her enemies here do not have bodies that can be destroyed
with physical strength. Instead, the artist’s struggle seems to be not only
with herself but also with the natural phenomena that surround us daily, which
can be intensified in places like a salt desert or beaches famous for their
rough waves.



Made
in collaboration with several professionals who have become friends over the
course of her career, many of these works feature her body performing alone in
these spaces. This series of twelve works also reflects on solitude: what are
the limitations of the notion of the artist as traveler? How long can her body
remain upright in the face of other physical forces?



Alongside
works that engage directly with the notions of landscape and romanticism,
another part of the series focuses on the encounter between the artist and
objects related to bodybuilding and martial arts. Weights, gloves, shoes, and
iron bars reveal her growing interest in accessories that can be attached to
her physicality and expand the notion of the body. The pink Elen – almost a nod
to an Ingres painting, embodying delicacy, fragility, and, at the same time,
strangeness – leaves the scene to give way to a more physically active artist,
unafraid to make her image the protagonist of a profound autofiction.
Furthermore, this artist no longer fears experimentation or venturing in
different directions. Whoever takes on the twelve tasks of Her-, I mean, Elen,
is ready to try anything.



It is
interesting to observe the changes in the artist's research since Belgium
became her new home. Her work has undergone a growing process of
institutionalization in Western Europe, leading to the acquisition of her
works, the circulation of her performances, and a greater formal and conceptual
rigor that reflects a visual art system very different from that of Brazil.
Some works from the beginning of this migration process deepen something of the
futurism found in some of her earlier performances, from her interest in
metallic-colored leotards to actions with uniforms and sound helmets that evoke
an aerospace aesthetic. There are performances with a tricycle built by the
artist herself and another performance with her father, in which she attempts
to fly inside the KANAL-Centre Pompidou in Brussels. Asepsis permeates many of
these pieces, shifting her self-image from that of an athletic heroine to
someone closer to the scientist or inventor – or, as is often said in Brazil, a
figure like the Disney character Gyro Gearloose.



The
change of continent has certainly allowed Elen to engage with a medium which
she has devoted herself to in recent years: tapestry. It is interesting to
observe a trajectory that, while initially guided by the expressiveness of
performance, is gradually distancing itself from video, photography, and the
creation of objects with industrial materials towards an ancient practice
rooted in various artisanal traditions, often associated with women. If we
previously spoke of a certain futurism in her practice, I see these recent
works as another stage in her autofictions: we no longer see Elen as a body
documented by cameras, needing to show the viewer, "Look, I did this
action," "Notice, I stood there, still, for two hours." The
focus now lies in the infinite possibilities of playing with the representation
of her body through the chromatic expressiveness that tapestries offer. Using a
textile gun, she creates complex narratives in a matter of days, responding to
the vibrations provided not only by different colors but also by the different
material origins of the threads. Elen is once again a superheroine, with
compositions that evoke a particular visual culture of role-playing and video
games. Her interest in epic narratives remains latent, but perhaps it is no
longer necessary to echo the memory of Hercules.



In a
series of tapestries from 2022, we see a figure in blue clothing in various
situations. In one,&#38;nbsp; the words
"Palace of Justice" are written above, and the figure appears to have
fallen from its horse, which is heading towards the building. In another work,
titled Dragon's Mouth, the figure is
looking away while holding a pickaxe. In front of her is a hole that appears to
have been dug from the inside of a mountain, revealing a bright, fantastical
landscape. It resembles an image taken from the pixelated landscapes of Super
Nintendo or Mega Drive games. Mistress of
Beasts (2022), Woman with the Sin(2022), and Salt Statues (2022) are
other images that play with the mysterious actions of this figure, from
confronting a beast to hiding animals under her dress, to striking a seductive
pose in front of a city that appears in the background, crowned by a rainbow.
There is plenty of room for imagination in all of these images, and the
artist's ability to bring together a wide range of colors on the surface of the
tapestry certainly contributes to the vintage futurism of these works.



Curiously,
the first tapestry she made not only impressively condenses her interest in the
technique but also seems to guide her research over the next few years: the
monumental work Elen ou Hubris (2020),
created at the Arc de Triomphe in Brussels. Measuring approximately 24 meters
in height, the work references a series of her works dating back to 2016, in
which the artist, wearing a blue leotard, performed and directed collective
actions in Sala de Exercícios[Exercise Room], exploring the relationship between the human body and the
concept of the podium. Something similar, but collective, can be seen in Green Screen (2017), presented at
Central Saint Martins in London. In this work, a sequence of podiums features
performers standing with their backs to the viewer while gazing at a wall.



This
large-scale work created in Brussels brings something different: a direct
confrontation with the viewer's gaze. Transformed into a giant tapestry, Elen
Braga's body is now a colossus. Standing on a small podium, she not only stares
at the passersby in the Belgian capital but also holds a weight-training ring
that can be seen as a symbol of worship, a threat, or an object of
self-protection. Drawing on iconography related to Christianity and tarot
cards, the image’s verticality and strategic placement in the city could not go
unnoticed.



To a
certain extent, I see this work as a great tribute to freedom and perseverance.
This body which was exhibited for a single day in one of the largest and
wealthiest capitals in Europe was that of an immigrant who knows full well the
tasks – certainly more than a dozen – that had to be undertaken without
hesitation to solidify a career as a visual artist. 



Pink,
athletic, Herculean, inventor, aseptic, heroine of a fable, or monumental like
an Ionic column: these are the bodies, the effigies, the characters, the
narrative layers that make up Elen Braga's trajectory so far. Far from safe
places – and, above all, far from the clichés expected of a "Brazilian
artist" – her self-image and research prove day after day to be a happy
"walking metamorphosis."[1]



May
the spark and curiosity that she had back in 2011, which allowed her to swim in new oceans, never fade.
May we continue to be surprised by the manifold connections her research offers
us as spectators for many more years to come.







[1] The expression “walking metamorphosis” is
borrowed from a popular song of the same name by Brazilian musician Raul
Seixas. 











(texto feito para o livro “Elen Braga”, publicado em junho de 2025, na Bélgica)</description>
		
	</item>
		
		
	<item>
		<title>Duvidar da destreza</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Duvidar-da-destreza</link>

		<pubDate>Tue, 24 Jun 2025 21:05:47 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://raphaelfonseca.net/Duvidar-da-destreza</guid>

		<description>Duvidar da destreza
Andréa Hygino
[03 de julho de 2023]

Se a instituição escola imprime sobre o corpo uma
memória, isto se dá pelo poder da disciplina. São os métodos disciplinares os
responsáveis por fixar em nosso comportamento, nossos gestos, um padrão preestabelecido.
E para que se não pense que a disciplina é posta em prática com a mera
finalidade de distanciar a anatomia humana de suas feições mais primitivas,
animais, dando-lhe ares de educação e polidez, é preciso deixar claro seus
objetivos: tornar os corpos úteis, funcionais, produtivos para certa função.[1]



Essa citação
de Andréa Hygino foi retirada de sua dissertação de mestrado. Gosto dessas
frases porque elas parecem resumir alguns dos elementos centrais de uma
pesquisa que tem se desenvolvido de forma sólida em sua participação de
exposições nos últimos dez anos. As palavras-chave que me chamam a atenção são
“instituição”, “escola”, “corpo”, “disciplina” e “educação”.



A artista tem
um dado biográfico de grande interesse: sua observação da figura do professor
se deu desde muito jovem dentro de sua própria casa. Sua mãe, Angélica, é
graduada em pedagogia e teve por anos, no bairro de Parque Anchieta, Zona Norte
do Rio de Janeiro, uma escola em seu terraço. Por ali passaram não apenas
crianças, mas também jovens e adultos. Angélica foi responsável tanto pela
função de “explicadora” — termo usado com frequência na cidade do Rio para
designar pessoas que dão aulas de reforço —, quanto pela alfabetização de
vizinhos de diferentes faixas etárias.



Ao observarmos
a trajetória educacional de Hygino, notamos sua passagem por importantes
instituições públicas pioneiras na história da educação no Rio de Janeiro e no
Brasil. Ex-aluna de ensino médio do Colégio Pedro II — instituição quase
bicentenária e terceira escola de ensino básico mais antiga do país —, a
artista se graduou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e fez seu mestrado na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), universidades com um papel
essencial na história do ensino de artes visuais no país. Reflexo de seu ensino
superior em artes visuais, a artista também possui larga atuação como
professora da disciplina na universidade e em cursos voltados para pessoas
interessadas especificamente no desenho. 



Talvez uma boa
forma de começar a olhar para os seus trabalhos e estabelecer conexões seja,
justamente, por meio de um trabalho de 2016 no qual o desenhar aparece tanto
como atividade, quanto como palavra. Utilizando folhas pautadas, a artista
escreve de forma repetitiva a frase: “Devo desenhar com destreza”. Canhota
desde criança, Hygino tenta “reeducar” suas mãos e cérebro utilizando a mão
direita e se tornando, de maneira efêmera, uma pessoa destra. A memória dos
cadernos de caligrafia é ecoada em um trabalho que traz em si um modus operandi comum em sua pesquisa:
repetir até a exaustão, serializar imagens, disciplinar, mesmo que
temporariamente, olhos, mãos e língua.



Essa
experimentação formal a partir de um elemento, tal qual uma gramática, é algo
que pode ser visto em uma de suas séries de caráter público, Cadeira universitária, de 2017, feita em
parceria com a artista Luiza Coimbra. Calcadas na figura icônica da mesa
escolar individual — aquela cujo design possui um apoio para braço que, ecoando
o trabalho anterior, costuma ser feito majoritariamente para pessoas destras —,
as artistas montam, remontam e desmontam sua estrutura por meio da serigrafia.
Séries de imagens em que as cadeiras têm elementos destacados e apagados de seu
corpo são geradas e sugerem outras formas de pensar o seu formato utilitário
que convidam o público a um exercício de imaginação e a uma pergunta: seria
essa ergonomia a mais indicada para corpos em aprendizagem? Sentar-se
diretamente no chão, estar em pé ou mesmo deitar não poderiam também ser
desenhos anatômicos para as trocas educacionais? A passividade que se espera do
corpo discente — tão bem
explorada, por exemplo, por Alan Parker em seu filme clássico Pink Floyd: the wall, de 1982 — não é
endossada pelo desenho desse mobiliário e contraditória à sala de aula como
espaço de transformação?



Andréa Hygino
possivelmente responderia “sim” a essa última pergunta e ela o faz por meio de
seus trabalhos. Uma das séries consideradas propulsoras de toda sua pesquisa é Prova de estado, de 2013. Nessa série a
artista transforma em matriz de xilogravura as superfícies das carteiras
escolares usadas pelos alunos de sua mãe — a sala de aula vira ateliê de artes
visuais. Eis uma maneira sutil de se pensar a noção de subversão: sentados nas
cadeiras com o intuito de aprender, esses corpos optaram por, perfurando tampos
de madeira, escrever e deixar suas marcas. Trata-se de uma prática do
escrever-desenhar, como Hygino nos ensina com as imagens resultantes desse
processo xilográfico. Linhas finas que parecem rabiscos e linhas mais grossas
que criam as margens de letras compõem um emaranhado que transforma essas
matrizes em um arquivo da história de seus usos.



Há uma certa
noção de ansiedade nesses trabalhos que remete a outra série da artista, Mordido, iniciada em 2019. Hygino coleta
diferentes lápis encontrados em escolas e salas de aula que trazem marcas de
dentição dos alunos. A inquietude estimulada pela sala de aula é descontada
sobre essas ferramentas que possibilitam aos alunos criarem mundos; quanto mais
força for aplicada sobre esses objetos, mais profundas serão as mordidas e
marcas nesses lápis que se transfiguram em esculturas anatômicas. A cada lápis,
um aluno, e, em um conjunto destes, a sugestão de um grupo heterogêneo de
corpos, desejos e formas de responder às quatro paredes de uma sala de aula.



Voltando para
as maneiras como a artista se utiliza das cadeiras, Hygino repensa a sua
objectualidade em Saída de emergênciae Ensino superior, conversando com as
noções de design, escultura e instalação. Saída
de emergência tem origem na Camisa
educação realizada pela artista (também em parceria com Luiza Coimbra) e
recebedora do Prêmio Select de Arte e Educação em 2020. E se a superfície dura
do encosto de metal de uma cadeira fosse convertida em uma escada que convida o
corpo a escapar não apenas do objeto, mas também do espaço onde ele é colocado?Ensino superior traz, agora na
madeira, uma superfície para escrever que, muito alta, fica inatingível.
Quantos alunos concluem a chamada educação básica e conseguem a proeza de
ingressar na universidade? Uma vez no ensino superior, até que ponto o capital
social e privilégios de alguns dos estudantes não imprime, ironicamente, uma
avassaladora inferioridade sobre outros?



Respondamos
essa pergunta com uma frase incluída pela artista em um trabalho de 2021:
“Escreveu, não leu, o pau comeu”. Esse curioso provérbio associa escrita e
leitura à violência, lembrando-nos, metaforicamente, que não podemos dar
bobeira em nenhum momento da vida — “é preciso estar atento e forte”, como
cantava Gal Costa. Hygino cria um paralelo interessante entre o desenho das
carteiras escolares e as formas como são modeladas as tábuas de carne. Sala de
aula e açougue se avizinham em uma obra que traz o interesse da artista pela
relação entre educação e violência — realçado por outro trabalho no qual vemos,
em duas tábuas, as palavras “carne” e “verbo”, mas que também explicita como a
escrita é algo basilar para sua pesquisa.



Esse interesse
é percebido em um de seus trabalhos mais recentes, Tipos de comer, de 2022, em que o rosto da artista é fotografado
com sua boca aberta. Sobre sua língua, lemos os nomes de diferentes alimentos
escritos com letrinhas de macarrão. Arroz, carne, feijão, fubá, ovo e tomate
são apenas alguns desses ingredientes que tanto faltam nas casas de milhões de
brasileiros e nas milhares escolas públicas do país. Feitas durante um momento
crítico da pandemia da Covid-19, essas fotografias conversavam com o fato de
que, devido ao fechamento das escolas públicas, muitas crianças e adolescentes
não tiveram acesso à alimentação gratuita oferecida, chegando a passar fome. A
sopa de letras proposta por Hygino é um prato de difícil digestão e que se come
cru.



Também parte
do campo de sua pesquisa que olha para a escola e a educação de uma perspectiva
trágica, a artista criou diferentes estojos que reúnem tampas de canetas
esferográficas douradas. Observando rapidamente esses objetos brilhantes, seu
design tem uma forma que remete a um estojo metálico de munição. Como milhares
de professores são capazes de lidar diariamente tanto com os estojos escolares
de seus alunos, quanto com os projéteis que circundam os espaços de suas
escolas? Quais as consequências da flexibilização recente das leis brasileiras
quanto ao porte de armas para a educação no Brasil?



Como se pode
notar nesta leitura dos trabalhos de Andréa Hygino, a palavra escrita
desempenha um papel importante em trabalhos que jogam com diferentes culturas
visuais. Quando nosso olhar se detém sobre a forma como a artista intitula seus
trabalhos, salta aos olhos os jogos de palavras pelos quais se interessa —
desde Prova de estado, termo
utilizado por gravuristas que, no contexto do seu trabalho, relaciona-se com a
noção de Estado e de poder público, à série com tampas douradas de canetas
intitulada Projeto educacional de ponta,
as sequências de palavras são pinçadas de forma a ecoar a riqueza da cultura
oral e da informalidade com que são proferidas na língua portuguesa e no
Brasil. Isso me leva a pensar que, talvez, mais do que a escrita, um dos
grandes interesses de Hygino seja a palavra em si — escrita, falada, jogada no
mundo à espera de alguém que a imbua de múltiplos sentidos. 



Recentemente,
após uma residência em Johanesburgo, na África do Sul, a artista realizou uma
série de trabalhos na qual a educação deixa de ter a escola e a sala de aula
como protagonistas, e mergulha na oralidade e na memória coletiva. Exercício para a língua é um vídeo onde
a artista tenta repetir — intermediada pelo inglês imposto pela colonização
britânica — diferentes palavras em isiZulu, Tshivenda e Sesotho. Mais uma vez
compondo uma imagem de sua boca, a linguagem corporal da artista se coloca
entre o maravilhamento com o aprendizado de algo novo e o constrangimento do
tão pouco que conhecia a respeito das muitas culturas que compõem não apenas a
África do Sul, mas o continente africano como um todo.



A pesquisa de
Andréa Hygino gira em torno do campo semântico trazido pelo título desta
publicação: o corpo dissente. Sendo uma das
poucas artistas de sua geração no Brasil interessadas explicitamente na relação
entre educação e palavra, o seu olhar é, antes de tudo, o olhar de uma pessoa dissente
– em um cenário artístico ainda muito pautado nas dinastias e nos herdeiros de
apartamentos da Zona Sul carioca. Esta artista, pesquisadora e (orgulhosa)
professora nascida em Parque Anchieta, convida-nos a duvidar das maneiras como
a escola pensa o corpo de seu alunado, a ampliar a ideia de desenho e a
identificar de maneira polissêmica os prazeres e as tragédias da educação
básica pública.



Fica a curiosidade de
quais dissentimentos surgem a partir do momento em que a artista alça voos para
além do Rio de Janeiro e do Brasil. Uma coisa é certa: seus exercícios como
artista visual colocarão em dúvida noções cristalizadas sobre o que pode ser a
educação, seus espaços de prática e as hierarquias entre mestre e alunado.
Duvidar da destreza é essencial.







[1] HYGINO, Andréa. Inscrições da memória. Dissertação de
mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, 2017, p. 47.
























(texto feito para o livro “O corpo dissente”, da série Subúrbio Singular, organizada por Ana Hortides e publicado pela Atelier Cultura em 2023)</description>
		
	</item>
		
		
	<item>
		<title>Pintar é soprar</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Pintar-e-soprar</link>

		<pubDate>Sat, 14 Jun 2025 01:31:03 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>Pintar é soprarMAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin)
[13 de outubro de 2022]

Parece oportuno começar esse texto com a lembrança de
uma conversa que aconteceu em Munique, em 2021. Ela aconteceu na abertura para
imprensa da exposição Sweat, na Haus der Kunst, que tive a oportunidade
de curar junto a Anna Schneider. Estávamos rodeados de jornalistas, em sua
maioria, alemães. O Movimento de Artistas Huni Kuin (MAHKU) era parte da
exposição, porém, devido às restrições de locomoção internacional decorrentes
da COVID-19, não puderam viajar com antecedência para realizar um mural de
grandes dimensões no edifício. Em seu lugar, temporariamente, contávamos com um
grupo de desenhos sobre papel produzidos especialmente para a exposição.



Eis que uma jornalista alemã faz uma
série de perguntas sobre a exposição e, ao final de nossa conversa, resolve
enfocar na presença de artistas indígenas na mostra.[i]&#38;nbsp;Referindo-se aos desenhos feitos pelo MAHKU, ela questiona: “Você não acha que
a presença de artistas como esses endossa o caráter exótico da arte
brasileira?”. Surpreso com a frase, perguntei de volta: “Exótico para quem?”. A
jornalista permaneceu em silêncio. Aproveitando a deixa, refleti: “Por que
naturalizar a presença do MAHKU nesta instituição como algo exótico? Qual
artista brasileiro poderia ser lido como não exótico aqui? Por que, no Brasil,
não estranhamos a presença de artistas como Anselm Kiefer e Sigmar Polke
(1941-2010) em exposições? Eles não seriam também exóticos para a ‘cultura
brasileira’? O que não seria exótico? Mostrarmos trabalhos do Gerhard
Richter?”. Constrangida, a jornalista disse que “era só uma pergunta”, ao que
respondi que meu comentário era “só uma resposta”. 



No final das contas, essa troca de
provocações não foi incluída em sua matéria final sobre a exposição.



***



Quatro meses após a abertura de Sweat, Ibã Huni
Kuin e Kássia Borges puderam viajar a Munique e, durante uma semana, fizeram um
mural intitulado Rashuaka&#38;nbsp;no espaço de acesso para a Galeria Norte da
instituição, onde estava concentrada a maior parte da exposição. A pintura está
situada abaixo de uma escada – elemento arquitetônico que, assim como todo o
edifício, está diretamente vinculado à história do nazismo. Não esqueçamos que
a Haus der Kunst é um prédio proposto por Adolf Hitler (1889-1945) para ser, como
dizia seu nome original, a “casa da arte alemã” em oposição à noção de “arte
degenerada” e, nas entrelinhas, indo contra a experimentação do modernismo.[ii]&#38;nbsp;Era do desejo do ditador que sob esse espaço fosse resguardada a “real arte”
herdeira de ideais clássicos e neoclássicos. A pintura feita pelo MAHKU tinha
uma relação com a noção de cura – algo importante em um prédio com tamanho peso
traumático.



Ao observarmos o processo de
realização de Rashuaka, notamos alguns elementos constantes na produção
do MAHKU. Em primeiro lugar, não se trata de um trabalho produzido
exclusivamente pelas mãos de seus integrantes; como Ibã Huni Kuin, o criador do
MAHKU, costuma afirmar, o princípio do coletivo é gerar a oportunidade para se
pintar a muitas mãos, conversar e aprender. Nesse caso, devido à sua escala
monumental – com cerca de 25 metros quadrados –, foram convidados alunos da
Academia de Belas-Artes de Munique.



Não existe um desenho prévio à
realização da pintura mural; para o coletivo é essencial estar dentro do espaço
arquitetônico (ou no espaço público) e criar uma relação com as paredes que
serão ocupadas. A maneira como o MAHKU produz se dá de forma pendular; no
vaivém criativo proposto pelo coletivo, o vazio das paredes é observado,
algumas linhas iniciais são traçadas, pausas são feitas, conversa é jogada no
ar, se toma um café e logo se volta ao trabalho. De maneira sutil, o coletivo
joga com o ritmo ditado pelas escalas e normas de trabalho de diferentes
instituições de arte pelo mundo. A cada convite feito, as instituições
desejosas por terem seus trabalhos também precisam se adaptar ao seu modus
operandi, às mudanças e às incertezas. Trata-se de entender que aquele
encontro é um momento de criação onde qualquer conversa, apontamento ou
discordância construtiva pode levar a imagem final a outra direção.



Aliás, faz sentido falar em “imagem
final” para o que o MAHKU propõe? Tenho a impressão de que estas pinturas são
mais a consequência da definição de dias e horas colocadas pelas instituições
(e pela indústria cultural) do que algo buscado de maneira objetiva pelo
coletivo. Em outras palavras, se mais dias e horas fossem sugeridos para a sua
realização – ou se, por exemplo, eles fossem convidados para ocupar um espaço
por um tempo contínuo e longo –, essas imagens estariam em constante
transformação, assim como há algo de movimento sugerido pelas suas próprias
formas, cores e iconografias.



Conversando com Ibã Huni Kuin sobre o
título deste trabalho, ele me disse: “É um sopro que tira a doença; soprar do
corpo da gente. Tirando o mau-olhado, tirando o mau espírito, tirando a inveja,
tirando a moleza, tirando a dor. Cura”.[iii]&#38;nbsp;Gosto de pensar sobre o trabalho do MAHKU de maneira semelhante ao próprio ato
de assoprar; essa movimentação dos lábios depende de uma série de fatores que
envolvem não apenas o corpo da pessoa que o faz, mas também de condições
físicas e químicas presentes no lugar de onde o sopro é feito. Um sopro nunca
será exatamente igual ao outro e, portanto, afetará o seu entorno – e a pessoa
que o realiza – de diferentes formas. Assim flutuam as imagens e a pesquisa do
MAHKU – de sopro em sopro, de parede a parede, encontro após encontro.



Rashuaka&#38;nbsp;traz algo da brevidade dos sopros. Assim como em outras pinturas de grande
escala feitas pelo MAHKU, o mural nos convida a desistir pela busca por um
ponto central ou elemento narrativo que se protagonize em relação à sua
composição. Uma grande jiboia se espalha por todos os lados que delimitam as
paredes ocupadas pelo coletivo; um olhar mais atento perceberá que, na verdade,
vemos três diferentes cabeças de cobras. Se uma delas traz um padrão geométrico
que joga com as cores preta, amarela e vermelha, uma segunda jiboia joga com as
mesmas cores e com outro padrão, ao passo que a terceira delas se relaciona com
a própria cor branca que uma vez foi o fundo da parede. Nas pinturas feitas
pelo MAHKU, há um interesse por aquilo que na produção de arte no ocidente se
convencionou chamar de excesso. 



Continuando a percorrer a superfície
da pintura, notamos que parte do corpo de uma dessas cobras sugere os contornos
dos arbustos de uma árvore. Em seu topo, pintados sobre um fundo azul, quatro
peixes parecem estar associados a ninhos. Abaixo desse tronco, onde poderíamos
imaginar ver as raízes desta plantação, em uma área pintada de azul vemos
alguns peixes repousando. No canto superior esquerdo da pintura, com asas
extremamente abertas, aquilo que parece ser um beija-flor. 



O MAHKU não sugere hierarquias entre
diferentes esferas da experiência vital; segundo suas pinturas, existimos de
forma indicial em um espaço pictórico onde vida e morte, passado e presente,
vegetal, mineral e animal estão intrinsecamente amalgamados. Não esqueçamos da
origem da pesquisa do coletivo – a relação de Ibã Huni Kuin com os cantos
proferidos por seu pai e reunidos em um livro publicado em 2006.[iv]&#38;nbsp;As figuras que aparecem nas pinturas parecem sempre fragmentadas, como se
tivessem origem em diferentes paisagens que são orquestradas em uma mesma
imagem. Algo semelhante se dá quando escutamos os cantos Huni Kuin – cada verso
traz um elemento que, quando recodificado em português por Ibã, traz a sensação
de narrativas e espaços paralelos que se avizinham.[v]



Em todas as suas pinturas, chama a
atenção a vivacidade das composições e a vibração que essas imagens emanam
sobre o corpo do espectador. No caso específico de Rashuaka, a opção por
pintar parte dos padrões geométricos que compõem as jiboias sobre uma porta
contribui com a impressão de que essas cobras envolveram a solidez modernista
da Haus der Kunst. Opções semelhantes foram feitas em ocupações prévias do
MAHKU em edifícios com histórias e proposições muito diferentes. 



Em 2014, quando foram convidados a
participar da ocupação Made by... feito por brasileiros no antigo
Hospital Matarazzo , em São Paulo, as pinturas murais giravam em torno de uma
jiboia e de um grande jacaré.
Aqui, o coletivo optou por incluir figuras humanas que se espalhavam pelo
espaço fitando o espectador. Em uma pequena sala emoldurada por um arco, o
MAHKU fez a imagem de uma cobra que circundava o corpo de uma mulher. Um ano
depois, para a Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, o coletivo
ocupou um auditório com imagens de animais e pessoas indígenas representadas em
ações cotidianas observadas pelo grupo na Aldeia Chico Curumim, no Alto do Rio
Jordão, no Acre. Em 2017, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, ao desafio de
lidar com uma superfície composta por diversos lados dobrados, uma enorme
jiboia é pintada, ladeada por figuras humanas, reafirmando a superfície
fragmentada da pintura. Por fim, em 2021, novamente em Belo Horizonte, mas a
convite do evento CURA – Circuito Urbano de Arte –, a empena de um prédio é
ocupada.
Aqui, se aproveitando da verticalidade monumental do edifício, cinco animais
são representados de forma mais realista – um tatu, uma capivara, um javali,
uma anta e um veado. No que poderia ser chamado de fundo da composição,
diversos padrões geométricos extremamente coloridos e, como de costume a quase
todos os seus projetos, a jiboia que indica movimento e, em certa medida,
emoldura a composição.



Cada um destes exemplos foi executado
por diferentes integrantes do MAHKU e, portanto, possuem suas peculiaridades
formais. Constante a eles – além do protagonismo da jiboia, animal e entidade
que possui papel central na cosmovisão Huni Kuin – está a importância da cor e
das noções de geometria, repetição e padronagem. Podemos relacionar essa
cultura visual com a cultura ancestral dos kene, tradição essencial para
os Huni Kuin e que informa a produção de imagens do coletivo. Esses são
grafismos utilizados em pinturas corporais, cestaria, cerâmica, tapeçaria e
diversos outros fins. Com múltiplos nomes e interpretações, podem ser
enxergados como uma maneira de se relacionar com o mundo a partir de formas
que, para uma pessoa não iniciada nas culturas Huni Kuin, rapidamente poderiam
ser aproximados da ideia de abstração.



Esta análise das obras do MAHKU nos
leva a outros dois pontos essenciais para se discutir sua pesquisa: a escala e
a efemeridade. Quando comparamos esses trabalhos com aqueles realizados em
papel ou em tela, suas peculiaridades aos poucos se fazem perceptíveis. No que
diz respeito aos trabalhos em papel – como aqueles que fazem parte do acervo do
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) –, as narrativas
sugeridas pelo MAHKU se dão de forma concentrada e ditada pelo uso dos lápis de
cor e das canetas hidrográficas. As muitas mãos que compuseram esses desenhos e
telas estão constantemente interessadas pela simultaneidade narrativa – tal qual
uma história em quadrinhos – e pela transformação. Assim como nos trabalhos de
larga escala, algumas das visões transpostas para o papel carregam a
centralidade da metamorfose. Condicionadas, porém, pelos quatro cantos das
folhas de papel ou pelas margens das telas de algodão, há algo das pinturas
murais que se perde neste outro formato.



Voltando à fala de Ibã Huni Kuin
sobre o “sopro” – e, consequentemente, sobre a efemeridade de seu ato –, quando
essas imagens são supostamente eternizadas sobre superfícies tão devedoras de
diferentes tradições ocidentais das belas-artes, há uma camada de vitalidade e
corporeidade que se esvai. Os gestos vistos nas pinceladas não estão aqui,
assim como o apelo que as narrativas têm para o corpo humano devido à sua
escala. Mais do que isso, quando o MAHKU se propõe a pintar sobre a superfície
de prédios com usos tão diversos – e em sua enorme maioria, até agora, prédios
coordenados pelo capitalismo ocidental branco –, há uma poética da ocupação
espacial no melhor sentido do “tomar para si” que os trabalhos em escala menor –
feitos, muitas vezes, para a comercialização e participação em exposições
rotativas – não carregam.[vi]



Por fim, devido às agendas impostas
pela indústria cultural, infelizmente esses trabalhos são destruídos ou, como
diria Marisa Monte em célebre música sobre os murais do Profeta Gentileza,
“apagaram tudo/ pintaram tudo de cinza/ só ficou no muro tristeza e tinta
fresca”.[vii] Mas
essa efemeridade nos murais não nos remeteria à fugacidade do sopro que,
metaforicamente, podemos relacionar com a própria efemeridade da vida? Ou,
redirecionando as comparações, com o caráter temporário dos kenepintados sobre diferentes corpos Huni Kuin devido a ritos e rituais
específicos?



As pinturas do MAHKU – assim como
qualquer imagem produzida por um ser humano – vêm de um contexto cultural
específico que, devido ao seu caráter polissêmico, possibilita infindas
relações com outras culturas visuais e temporalidades diversas. Sabendo que parte
considerável da produção de arte do MAHKU foi realizada em espaços
historicamente dedicados à arte ocidental, por que também não relacionar alguns
de seus murais às largas discussões em torno das ideias de abstração, decoração
e suas relações com arquitetura moderna e contemporânea? Como não aproximar
suas pinturas murais no espaço público de muitos artistas do graffiti? O
quão interessante não poderia criar diálogos extremamente discrepantes entre as
suas imagens com um contexto como o austríaco onde, durante a passagem do
século 19 para o século 20, tantos artistas como Gustav Klimt (1862-1918)
questionaram a noção de arte total e suas relações com a música, a arquitetura,
a natureza e a sociedade? E o diálogo entre o coletivo e a produção de artistas
modernistas como Chico da Silva (1910-1985) ou contemporâneos como Abel
Rodríguez? O fato destes nomes serem indígenas (ou de ascendência indígena)
permite que a sua comparação com a produção de imagens do MAHKU seja vista de
maneira mais orgânica? Ou ainda há muitos abismos entre suas imagens,
interesses e diferentes histórias de institucionalização na história da arte
ocidental?



***



Mais de um ano depois de seu acontecimento, a pergunta
feita por aquela jornalista alemã ainda me deixa intrigado. Posso imaginar
absolutamente que o público alemão não esteja acostumado com a cultura visual e
as questões trazidas pela produção de arte nem do MAHKU, nem de outros artistas
e coletivos indígenas, mas será que a pergunta proferida por ela foi construída
de forma generosa? Haveria abertura na sua expectativa de resposta ou se
tratava de uma oratória preparada para se transformar em uma armadilha
discursiva? 



Na certeza de que essa resposta
objetiva e certeira nunca chegará até mim, prefiro seguir com o movimento
sinuoso dos sopros que o MAHKU tem proferido. Se, para eles, pintar é soprar,
isso também denota que nem todos os corpos e existências serão movimentados
pelo vento produzido por seus corpos e suas imagens – sejam elas monumentais e
arquitetônicas, sejam elas portáteis e feitas na escala de suas mãos. 



Se as imagens do MAHKU não produziram
nenhum vento sobre o corpo daquela jornalista – ou se o ar movimentado a levou apenas
a ler suas imagens por uma chave geográfica que endossa o seu eurocentrismo –,
tudo bem; enquanto isso, ao passo que escrevo este texto, o sopro proporcionado
por suas imagens possibilitou não apenas que minhas mãos se movimentassem rapidamente
sobre as teclas do meu computador, mas também que minha memória tentasse
estabelecer conexões entre diferentes obras do coletivo, outras autorias e
temporalidades.



De sopro em sopro, de vento em vento, de ventania em
ventania se cria uma tempestade – e o MAHKU está apenas começando a cantar e a
pintar.







[i] Além
do MAHKU, a exposição também contava com obras de Kaylene Whiskey, artista
Pitjantjatjara, do território atualmente conhecido como Austrália.
[ii] A Haus der Deutschen
Kunst foi construída entre 1933 e 1937, tendo como arquiteto Paul Ludwig Troost
(1878-1934). Sua inauguração foi em 18 de julho de 1937 com uma grande
exposição intitulada Große
Deutsche Kunstausstellung[Grande exposição de arte alemã] e, a alguns passos dela, foi aberta no
dia seguinte a exposição Entartete Kunst (Arte Degenerada), no
Hofgarten.
[iii] Conversa telefônica
realizada com Ibã Huni Kuin em 19 de setembro de 2022.
[iv] Isaías Sales Ibã
Kaxinawá, Nixi pae: o espírito da floresta. Rio Branco: CPI-AC, 2006.
[v] Em um
dos vários cantos reunidos por Ibã Huni Kuin, gostaria de trazer como exemplo
um intitulado “Hawẽrautibuya”. Cito aqui os seus
primeiros quatro versos: “Hawẽ
rautibuya haya ee haya ee haya ee/ Yube baũrauti haya ee haya ee haya ee/ Yube iskuhinari haya ee haya ee haya ee/ Naitxã
txãbururi haya ee haya ee haya
ee”. Como se pode perceber, na segunda parte de cada um
dos versos há a repetição de uma série de sons e palavras. Ao conversar com Ibã
a respeito do canto, ele o recodificou em português como: “Esse é um canto
sobre as visões que se tem durante o uso da ayahuasca. As palavras descrevem as
muitas cores e uma jiboia – você vê a jiboia de dentro e ela tem muitas, muitas
curvas. Há o céu e muitas diferentes tipos de tronco que se transformam em uma
jiboia”. Como se pode perceber não apenas pelas repetições no canto, mas também
pela explicação de Ibã, estamos diante de cantos que, a partir da repetição de
seus fragmentos sugerem sensações, sentidos e imagens para aqueles que os
escutam – assim como em suas pinturas.
[vi] Essas comparações de
nenhuma forma diminuem a pesquisa que também se dá nesses desenhos e pinturas
sobre tela, nem desconsidera as frases ditas por Ibã Huni Kuin em uma de suas
entrevistas mais conhecidas. Nela, ele disse a frase: “Vendo tela e compro terra”.
Entendidos os lugares artístico, econômico e mesmo político desta circulação de
imagens, eu particularmente ainda considero as pinturas murais mais ricas em
questões, leituras, experiências e interpretações.
[vii] Douglas Vieira, “O
jeito é comprar”. In: Revista Trip, edição 271. São Paulo, 2018. Disponível
em https://revistatrip.uol.com.br/trip/coletivo-de-artistas-indigenas-mahku-da-etnia-huni-kuin-vende-telas-para-poder-comprar-mata-virgem.
Acesso em 19.09.2022.






















(texto feito para o catálogo relativo à exposição “MAHKU: Mirações”, com curadoria de Guilherme Giufriada, no Museu de Arte de São Paulo, em 2022)</description>
		
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		<title>Lúcido devaneio curadoria</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/Lucido-devaneio-curadoria</link>

		<pubDate>Sun, 31 Aug 2025 01:29:36 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://raphaelfonseca.net/Lucido-devaneio-curadoria</guid>

		<description>Lúcido devaneioAna Vidigal, André Sousa, Andreia Santana, Belén Uriel, Dayana Lucas, Francisco Trêpa, Gonçalo Sena, Ilídio Candja, Joana Escoval, João Gabriel, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Mané Pacheco, Mariana Caló &#38;amp; Francisco Queimadela, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Silvestre Pestana, Sofia Borges, Teresa Murta, Tiago Madaleno, Tiago Mestre













co-curadoria de Hiuwai Chu
Galeria Municipal do Porto, Portugal
12 de julho a 12 de outubro de 2025















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		<title>The show is over, say goodbye</title>
				
		<link>https://raphaelfonseca.net/The-show-is-over-say-goodbye</link>

		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 00:06:09 +0000</pubDate>

		<dc:creator>RF</dc:creator>

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		<description>The show is over, say goodbyeVictor Arruda
[18 de julho de 2024]

A primeira vez que vi o
trabalho de Victor Arruda foi em uma exposição que visitei durante o meu primeiro semestre como
aluno do curso de Artes, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fui ao
Centro Cultural Banco do Brasil e ali vi a exposição Onde está
você, Geração 80?, com curadoria de Marcus de Lontra Costa, em 2004. Não
foi pouca a minha surpresa quando me deparei com a série de trabalhos do
artista selecionada pela curadoria. Enfocando majoritariamente obras dos anos
1980, a seleção trazia um considerável tom não apenas erótico, mas que chamava
a atenção pela forma como o artista se utilizava de palavras escritas para
sustentar suas narrativas e – direta ou indiretamente –, tecia comentários
sobre o machismo, o classismo e mesmo o racismo da sociedade carioca que, por
sua vez, vivia os seus últimos anos de Ditadura Militar.



Convidado a escrever um texto
sobre Victor Arruda para essa publicação, me pareceu interessante seguir um
caminho não muito comentado na recepção crítica a sua obra. Pensando sobre qual
poderia ser o ponto de partida, encontrei um quadro que possibilita outro
trajeto interpretativo, com elementos que perpassam a sua pesquisa de forma
ampla. Refiro-me à pintura Assunto
proibido, de 1989.


















A obra vai na esteira de
outras séries produzidas desde o início de sua carreira durante os anos 1970,
nas quais opta por uma economia cromática baseada nas variações entre o branco
e o preto. Essas pinturas se caracterizam por serem mais escorridas em comparação
com outros trabalhos. Um olhar rápido sobre essa imagem nos dá a impressão de
que foi produzida em um curto tempo devido a tudo aquilo que vaza de seus
contornos – o branco do corpo à esquerda está para além de suas linhas pretas,
assim como os limites entre figura e fundo da cadeira à direita estão todos
confundidos.

Há outra economia de elementos presentes na
composição. Um relógio de parede, uma cadeira e aquilo que parece ser a
silhueta de uma escada. Estaríamos lidando com um espaço doméstico, algo comum
à parte da produção de Arruda? Talvez sim. À esquerda, um corpo branquicento
sem rosto parece emergir do fundo da imagem e contrasta com essa figura
peculiar que aparenta brotar de algo em sua base que não conseguimos ver. Com
contornos que remetem a galhos ou raízes de uma árvore, essa figura cinzenta se
transforma em uma cabeça humana também sem expressão. Permeada de pequenos
círculos sobre sua superfície, seus tons e textura parecem feitos para gerar
uma proposital diferença em relação à figura à esquerda.






























Qual narrativa é sugerida por
Victor Arruda nessa imagem? Talvez valha a pena voltarmos ao seu título: Assunto proibido. Me pergunto se não
poderíamos observar essa imagem como uma reflexão sobre a passagem do tempo. Se
aquele relógio à direita tenta dar sentido para as diferenças de luz
proporcionadas pela passagem do sol sobre a terra, a cadeira é um objeto feito
para o corpo humano e que pode ser associado simbolicamente à espera – basta
nos lembrarmos, seguindo um pensamento histórico-artístico mais amplo, das
célebres cadeiras pintadas por Gauguin e por Van Gogh, estudos sobre o tempo e
a tortuosa amizade entre ambos. 



Mas o que esta pintura versa
sobre a noção de proibição? Seria o encontro entre essas duas figuras ao centro
– uma que reluz e outra que parece ter marcas sobre seu corpo – algo proibido?
Qual a razão para tal? Faria sentido ler essa imagem por uma chave mórbida e
pensar que quiçá a morte seja esse assunto proibido? Ou talvez a proibição gire
em torno do afeto entre essas duas figuras?

No panorama das cerca de cinco décadas de
produção de Victor Arruda, essa imagem chama a atenção pelo convite a uma
contemplação mais silenciosa. Comumente associado às noções de pastiche, de
humor rasgado ou, como diria Paulo Sérgio Duarte, de um “escárnio só”,[1] o
artista possui outras imagens que convidam o espectador a se debruçar em um
ritmo menos acelerado do que as obras que remetem aos quadrinhos, ao desbunde
da informalidade da língua portuguesa e ao seu olhar certeiro para os
contrastes inusitados de cores. Há algo noirnestes trabalhos que, tal qual o gênero cinematográfico, nos apresenta uma
cortina de mistério e aquele gosto na boca de um cigarro fumado atrás do outro.
É curioso observarmos a
primeira fala do artista publicada em um jornal de 1975: “Minha pintura se
propõe antes de mais nada a expressar situações humanas, situações geradoras de
angústia e de confusão. (...) ‘Kitsch’ entra no meu trabalho, justamente, por
estas características: a do humor e a do patético”.[2]&#38;nbsp;Tomemos, então, a rota do patetismo em sua pesquisa.
 
Durante os anos 1970, algumas de suas pinturas
em preto e branco representam cadeiras elétricas. Em plena ditadura militar,
Arruda nos mostra cenários onde
as cadeiras parecem ter vida própria, ativas perante o vazio de seus
assentos. Esses objetos se perpetuam até a década de 1980, quando começam a
surgir outras pinturas nas quais é possível ver diferentes corpos humanos
escorridos. Em uma delas, No banheiro do
navio (1988), aquilo que parece um corpo masculino se desfragmenta perante
nosso olhar. Já em Composição com três
figuras sorrindo (1989), três anatomias humanas se apresentam também em
decomposição para o espectador. Em uma obra sem título do mesmo período, um
corpo que possivelmente indica uma ereção masculina é contraposto ao que parece
ser o céu de uma cidade com um astro não identificável que brilha ao fundo –
discos voadores? Fenômenos naturais? Algum eixo de comunicação entre a vida e a
morte?
Fatura pictórica semelhante
se percebe em trabalhos como Armadilha,Obrigado e Para sempre e ainda depois, todos da década de 1990. Entre o corpo
humano e indicações de elementos como, outra vez, uma escada e a silhueta da
cidade, o vigor sexual que muitas vezes é sugerido pelo artista dá lugar a um
corpo que é sempre esfacelado – dois corpos masculinos se fundem e Victor Arruda opta por intitular a
pintura por Armadilha. É nas
armadilhas da sedução e no silêncio das noites solitárias que essas imagens
parecem se mover, trazendo ao espectador uma faceta diferente do aspecto solar
de outra parte de sua pesquisa.
Essas pinturas possuem algo
da movimentação rápida dos pincéis em suas mãos; sempre há algo na forma como a
cor preta se apresenta que faz com que a aproximemos de um rascunho desenhado.
Durante a mesma década de 1990, essa forma de pintar abre espaço para uma
experimentação em grande escala que assume de forma indireta a presença da mão
do artista na superfície da tela. Trata-se de imagens que trazem as mesmas
silhuetas de um corpo masculino – sapatos, calça comprida, camisa polo e
óculos. Eis um corpo humano que pode ser lido como um arquétipo a ser
replicado.
Day
and night, de 1990, traz essa silhueta que se coloca
perante um abismo: a figura em questão estaria prestes a pular ou estaria
contemplando o vazio? Neste caso, em tom irreverente, Victor completa seu
díptico com outra imagem que traz em cores a silhueta de um homem urinando. Se
essa pintura pode trazer algum sorriso ao espectador, as outras dessa série de
abismos, que se expande até a primeira década dos anos 2000, nos convidam a
reações mais enigmáticas. O pintor,
de 1994, coloca a figura perante um grande monocromo cinzento, ao passo que O sedutor, um ano antes deste, joga com
as cores azul e vermelho e denota a escala diminuta deste corpo em relação ao
seu entorno. Em Hierarquia e O esteta, ambos de 2000, a figura parece
ter subido ou descido longas escadas apenas para contemplar essa espécie de
vazio universal. Na primeira delas, assim como em outros trabalhos como A conversação e A confabulação, ambos de 1998, dois corpos idênticos se contemplam
silenciosamente ao centro da composição. Seriam estas imagens pequenos estudos
sobre a solidão? Poderíamos enxergar nelas um certo existencialismo? Como diria
outra de suas pinturas dos anos 2000, A
ironia é apenas um álibi.


















Assim como em Assunto proibido, vemos diversos
relógios representados ou mesmo apropriados como ready-made em outros momentos da carreira de Victor Arruda, em
especial durante os anos 1980. De toda forma, tenho a impressão de que é longe
das literalidades de sua iconografia que o tempo é codificado de forma mais
severa e pesada em sua trajetória. Estar em pé diante de um desses abismos que
costumam ultrapassar um metro e meio de largura é uma experiência ímpar. Olhar
para essas figuras que observam o suposto vazio pictórico é olharmos para os
nossos próprios abismos.








Voltando para Assunto proibido, onde já há um certo
vazio que será aprofundado nesses trabalhos posteriores, ainda permanece uma
dúvida sobre a que o artista se refere no título. Sendo um trabalho de 1989, e
tendo em mente a forma como Victor há décadas pensa uma sexualidade queer em sua obra, faria sentido
aproximar esse conjunto melancólico – de sua paleta mais monocromática ao
silêncio proporcionado pela vigília das horas – à epidemia do HIV, um dos
assuntos mais polêmicos e alçado a tabu no decorrer da década de 1980? Quanto
tempo resta a essas silhuetas aqui rascunhadas?[3]&#38;nbsp;Ou quanto tempo nós, espectadores, precisamos contemplar essa imagem estática e
nos questionarmos a respeito de seu enigma? Ou, citando Susan Sontag,[4]&#38;nbsp;deveríamos refutar qualquer excesso interpretativo de nossa parte? Tudo tem uma
interpretação?
Qual a velocidade do
tique-taque desse pequeno relógio?***

Em quatro de maio de 2024,
Madonna realizou aquele que pode ser considerado o maior concerto da sua
carreira na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro – mesmo bairro onde Arruda
vive há décadas. Com estimativa de mais de um milhão e meio de pessoas ali presentes,
o show trouxe uma onda de nostalgia. Comemorando os quarenta anos do seu
primeiro álbum lançado em 1983, a cantora se apresentou pela primeira vez no
Brasil em 1993. Realizar esse show remetendo a ciclos de aniversário fez com
que diferentes gerações refletissem sobre o tempo.
Após cerca de uma hora do
início do show, Madonna cantou “Hung up”, faixa lançada em 2005, em seu álbum Confessions on a dance floor. A canção é
famosa por seus versos iniciais que são repetidos em diversos momentos: “Time
goes by, so slowly” (“O tempo passa, tão devagar”). Gritadas a plenos pulmões
pela multidão presente no show, essas palavras ganhavam outro contexto nas
celebrações do evento – como mensurar a velocidade do tempo em uma carreira tão
profícua? Como a geração de Madonna lidava com o tempo em comparação com a
aceleração das gerações millennial, Z
e Alpha? “Hung up” é uma música sobre uma ligação telefônica; como repensar o
tempo e trazer os versos da canção para experiências de comunicação à distância
que hoje em dia apelam mais aos textos rapidamente escritos com apenas uma mão,
às mensagens soltas de voz e ao uso do vídeo pelos nossos smartphones?



Se perguntássemos a Victor
Arruda sobre a velocidade do tempo, será que ele concordaria com Madonna quanto
à sua lentidão? Se as pequenas violências e suposta “bruteza” de suas primeiras
pinturas apontam para uma cultura visual que se aproxima em certa medida até
mesmo do cinema de chanchada, me parece que há algo em parte de sua produção,
desde os anos 1980, que definitivamente sugere uma medição do tempo mais
plúmbica. Talvez sim, em certos momentos de sua vida e de sua produção como pintor, algumas de
suas telas passem mais devagar perante os nossos corpos do que outras.
 
Caio Fernando Abreu, ao escrever sobre o
concerto de Madonna no Estado de São Paulo em 1993, reflete sobre os efeitos
sobre o seu corpo e sobre o espaço público do pós-show: “Pelas ladeiras do
Morumbi, a noite tinha ficado fria, guardas tentavam organizar um trânsito
histérico, os ônibus não vinham, as ruas pareciam sujas, as calçadas
destruídas. Fugaz, o sonho passara. Ninguém era mais Madonna. Nem ela, de volta
ao hotel, enjaulada lá no alto, enquanto cá embaixo o povo só queria receber
uma espécie de autorização – a de que se pode também, mesmo em tempos sombrios
e sem graça, ser meio Madonna na vida”.[5]
Tenho a impressão de que
essas imagens aqui pinçadas fazem coro a essa sensação de fim de festa apontada
por Caio Fernando Abreu; quase como uma Quarta-Feira de Cinzas sem Carnaval
anunciado. Seguindo com Madonna, e me lembrando de seu álbum Bedtime stories, de 1994, talvez valha a
pena olhar mais uma vez para Assunto
proibido e cantarolar repetidas vezes os últimos versos de “Take a bow”: “The show is over, say goodbye”.







[1] DUARTE, Paulo Sérgio. “Tudo desvia”. In: NAVAS, Adolfo Montejo. (Org.). Victor Arruda. São Paulo: Casa da Palavra, 2011, p. 41.[2] Op. Cit., pp. 272-273.[3] “O conflito que o mundo tem institucionalizado com outras formas da
sexualidade não heterodoxa deixa todas as suas marcas aqui, nesta tensão que
percorre toda sua obra pictórica – e outros registros, vídeos, fotos –, em que
o corpo é um verdadeiro campo de batalha, não só do prazer. E talvez
manifestando outra coisa – a contribuição à questão sexual do movimento gay: a
conquista do próprio corpo” (NAVAS, Adolfo Montejo. “Uma pintura crítica”. In:
NAVAS, Adolfo Montejo. (Org.). Victor
Arruda. São Paulo: Casa da Palavra, 2011, p. 25.)
[4] SONTAG, Susan. Contra
a interpretação e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.[5] ABREU, Caio Fernando. “Na cama
por causa de Madonna”. In: O Estado de São
Paulo, 14 nov. 1993.


(texto feito para o livro “Victor Arruda”, editado pela Espaço.CC em 2024)</description>
		
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