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Abdias Nascimento: um espírito libertador


[13 de abril de 2019]



Nossa arte negra é aquela comprometida na luta pela humanização da existência humana, pois assumimos com Paulo Freire ser esta ‘a grande tarefa humanística e histórica do oprimido – libertar a si mesmo e aos opressores’.

Em 1976, Abdias Nascimento foi convidado a escrever a respeito da participação do Brasil na segunda edição Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana, realizado em Lagos, na Nigéria. A citação acima e o título dessa exposição vem de um desses textos, “Arte afro-brasileira: um espírito libertador”. O autor discorre sobre o constante apagamento de artistas negros nas narrativas sobre uma “arte brasileira”. Abdias a todo momento reafirma sua filiação ao candomblé e traz diversos nomes de artistas afro-brasileiros que mereciam ser conhecidos também enquanto agentes das artes visuais. Desde um artista do século XVIII como Aleijadinho à artista baiana Yêdamaria (falecida em 2016), o autor nos ensina não apenas sobre racismo estrutural, mas também sobre a importância de proposições construtivas – algo comum a todo o seu percurso como ativista.

Essa exposição partilha dessa perspectiva proposta por Abdias Nascimento e traz ao público do MAC Niterói um aspecto de seu próprio “espírito libertador”. Professor, político, ator e teatrólogo, Abdias é um dos nomes mais importantes para o estabelecimento do movimento negro no Brasil e no mundo. Como uma das diversas atividades que compunham sua personalidade inquieta, essa mostra chama a atenção para a sua produção como pintor e designer. Ocupando as cinco paredes do salão central, são visíveis tanto os interesses variados do artista no que diz respeito aos temas pintados, quanto também uma constância relativa às suas opções formais.



As pinturas de Abdias se caracterizam, majoritariamente, pelas suas relações com as narrativas religiosas afro-brasileiras. Como afirmado por ele no texto supracitado, “os Orixás são a fundação da minha pintura”. Na exposição vemos, portanto, diversos quadros dedicados à representação de Exú, Iemanjá, Ogum, Oxossi e Xangô. Orixás tão diferentes são apresentados ao espectador a partir do uso da forma humana e, cada uma à sua maneira, trazem suas singularidades. Oxumaré, por exemplo, surge diversas vezes como uma sereia, mas cada uma delas terá um cromatismo e iconografia distintas – uma dela chega mesmo a ser dedicada a Léa Garcia, grande atriz e também uma das pioneiras do teatro negro no Brasil. É interessante notar, então, que para Abdias as divindades, assim como a vida, estão em constante transformação.

As pinturas aqui mostradas estão em um arco temporal que vai de 1968 – ano de sua primeira obra – a 1996. Por ter recebido uma bolsa da Fairfield Foundation nesse mesmo ano, o artista se muda para os Estados Unidos e estende sua residência no país até 1981. Sua produção pictórica, portanto, se confunde tanto com o estranhamento de uma cultura diferente da sua, quanto também com a instauração do governo militar no Brasil. Desse período de autoexílio surgem pinturas que se comunicam com sua vivência em um país estrangeiro e se relacionam com as causas do movimento negro e hippie nos Estados Unidos. O uso de bandeiras como ícones das nações, os três punhos cerrados característicos do movimento das panteras negras e o símbolo de paz e amor chamam a atenção e conferem outra camada interessante à sua produção.


Por fim, uma outra série de pinturas – em sua maioria posteriores a 1980 – traz a experimentação do artista com símbolos, grafismos e aquilo que a tradição moderna ocidental chamou por abstração. Formas geométricas, linhas pretas e cores variadas sugerem composições que bebem de diferentes fontes africanas. Os pontos riscados tradicionalmente com giz (as pembas) na Umbanda e Candomblé aqui são transformados em tinta acrílica e a óleo sobre tela e se misturam com elementos dos hieróglifos egípcios antigos, com os veve do vodu haitiano e com os adinkras dos povos Akan, da África Ocidental. Essas imagens convidam o público a uma fruição que está entre a contemplação do caráter plástico e comunicacional de elementos que advém de culturas ancestrais e a experimentação da linguagem abstrata na pintura conforme visto na cultura ocidental nesse mesmo período.



Esta exposição pode ser encarada como uma introdução da produção pictórica de Abdias Nascimento para as gerações mais jovens e sua primeira exposição individual dentro de um museu de arte contemporânea no Brasil. Os pouco mais de trinta trabalhos aqui mostrados são apenas parte de um acervo de obras que ultrapassa uma centena e meia e que garante que sua pesquisa como artista visual – junto a outros artistas negros, como desejado em seu texto – esteja inserida nas narrativas acerca da história da arte contemporânea no Brasil.


(texto curatorial escrito com Pablo León de La Barra sobre a exposição "Abdias Nascimento: um espírito libertador", realizada no MAC Niterói entre os dias 13 de abril e 04 de agosto)
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