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Brinquedo de furar moletom
2018

As histórias do colonialismo na América Latina e seus reflexos traumáticos na contemporaneidade são um dos núcleos de interesse de Jaime Lauriano. Nascido e baseado na cidade de São Paulo, o artista tem desenvolvido diferentes trabalhos em que seu olhar crítico se volta para as narrativas da violência no Brasil, em especial no que diz respeito à população negra em um arco temporal que vai do tráfico negreiro à resistência atual das comunidades quilombolas.



Ao sul do futuro
2018

Em 1941, o escritor austríaco Stefan Zweig publicou o livro “Brasil, país do futuro”. O texto reflete o encantamento com os trópicos durante seu período de exílio devido à Segunda Guerra Mundial. Alguns anos antes da publicação do livro, em 1935, a família Danziger chegava ao Rio de Janeiro também em refúgio devido ao antissemitismo nazista. Uma década antes, em 1923, o artista Lasar Segall fixa residência em São Paulo.


Senhor dos caminhos
2018

A pesquisa de Ayrson Heráclito no campo das artes visuais se desenvolve há mais de três décadas. Baseado em Salvador, na Bahia, não é exagero dizer que o artista é um dos pioneiros na investigação das relações entre as culturas afro-brasileiras e a criação de imagens na contemporaneidade. 



O corte e os recortes
2018

As relações entre a fotografia e a paisagem parecem ser um dos interesses centrais da pesquisa de Julia Kater. Quando observamos seus trabalhos realizados desde 2011, a linguagem fotográfica aparece de forma insistente com um olhar que registra ambientes abertos nos quais a água é muitas vezes predominante.



Anna Bella & Lygia & Mira & Wanda
2018

Tendo em vista que a arquitetura do mezanino tem seções bem definidas, decidimos ocupar cada uma delas de maneira a sugerir pequenas exposições individuais. Optamos, nesse momento, por prestar uma homenagem a quatro das mais importantes artistas visuais ativas no Brasil entre meados do século XX e a contemporaneidade: Anna Bella Geiger, Lygia Clark, Mira Schendel e Wanda Pimentel. 



Axé Bahia: the power of art in an Afro-Brazilian metropolis
2018

No decorrer de sua história, o espaço inicialmente visto como museu de antropologia e etnografia ampliou o seu escopo curatorial e passou também a abrigar exposições de artistas visuais contemporâneos advindos da América Latina, África, Ásia e Oceania, além de organizar exposições coletivas que friccionam obras com diferentes estatutos e geografias. A referida exposição, portanto, responde a esta história recente do Fowler Museum.



Miradouro
2018

Ao se estudar a pesquisa de mais de três décadas de Suzana Queiroga, talvez a linguagem que pareça mais explorada seja a pintura. Mais do que isso, tenho a impressão de que poderíamos discorrer de maneira extensa sobre a habilidade da artista em estudar as variações cromáticas a partir de sua produção. 



Entre falas
2018

A produção recente de Adriana Aranha parece apontar para dois caminhos – um do qual o público já é conhecedor e outro que, pouco a pouco, vem ganhando espaço em sua pesquisa. O primeiro ao qual me refiro diz respeito ao seu enfoque por gestos banais e reconhecidos pelo espectador devido ao seu caráter utilitário: caminhar por uma calçada, observar o dia-a-dia de um prédio, jogar bingo, rabiscar – estes são alguns dos verbos que compuseram a rotina da artista e que se recodificaram em visualidades.



Versão oficial
2017

A tensão entre presente e o passado é um dos interesses centrais do artista Bruno Faria. Nascido em Recife e vivendo em São Paulo, o seu trabalho cria novas narrativas a partir de documentos, de fatos históricos e da apropriação de objetos. O site specific – ou seja, a produção de obras que respondem a contextos arquitetônicos ou exposições específicas – costuma ser o seu campo de experimentação.



Coleção MAC Niterói: arte contemporânea no Brasil

2017

Comemorando os 21 anos do MAC e a chegada de uma nova direção, a presente exposição reúne obras da coleção do MAC – muitas delas nunca foram expostas antes no museu. O MAC é reconhecido por ter em comodato a coleção Sattamini, mas ao longo de sua história também formou sua própria coleção, constituída por quase 600 obras, a maioria delas doada pelos próprios artistas. Nesse sentido, essa exposição foi pensada a partir de uma pequena intervenção curatorial que, mesmo que crie uma narrativa histórica, pretende mais compartilhar com o público parte significativa dessa importante coleção de arte contemporânea no Brasil.



Antonio Manuel

2017

A exposição de Antonio Manuel na Galeria Cássia Bomeny, no Rio de Janeiro, pode ser vista – inevitavelmente – como uma celebração: tanto de seu aniversário de setenta anos, quanto de seus cerca de cinquenta anos de percurso como artista visual. É indiscutível o seu lugar ímpar na história da arte contemporânea no Brasil e seu caráter experimental desde meados dos anos 1960. Ao se estudar a geração de artistas ativos durante a ditadura militar no país, é essencial olharmos tanto suas pinturas em diálogo com a diagramação de jornais, quanto também sua apropriação de flans de impressão. 



Óleo fita carbono

2017

O título desta exposição de Carla Chaim aponta para os três materiais centrais às obras aqui apresentadas; mais do que isso, escolher essas palavras denota também a relação entre sua pesquisa e a fisicalidade das coisas. Consequentemente, o lugar que o corpo da artista e o corpo do espectador ocupa em relação às imagens é, portanto, essencial.



Repartição

2017

O percurso de Mariana Paraízo no campo das artes visuais é recente e, como ela afirma ironicamente em sua minibiografia, conta com uma passagem por uma incompleta graduação em Letras. É interessante lembrar desse detalhe para termos em mente não apenas o lugar importante que a relação entre imagem e texto desempenha na sua pesquisa, mas para nos lembrarmos de sua atividade também na área das histórias em quadrinhos.



“Toda palavra tem uma gruta dentro de si”
2017

O primeiro trabalho apresentado por Mariana Manhães em uma exposição data de 2004 e se intitula “Memorabilia 1”. Mostrado no Parque Lage, se trata de um vídeo em que um jarro é filmado em preto-e-branco e mostrado numa pequena televisão cuja estrutura eletrônica fica aos olhos do público. O protagonista do vídeo advém de um campo semântico central às investigações da artista: o recanto da domesticidade e o uso de objetos utilitários banais que, sob sua batuta, saem do campo da apropriação à la ready-made e se transformam em personagens animados. E se os nossos cacarecos falassem?



Luiza Baldan
2017

Voltando ao referido texto, a artista pintou sobre uma das paredes frases que giram em torno de sua experiência recente em expedições vivenciais e fotográficas pela Baía de Guanabara, elemento paisagístico essencial para a construção de uma identidade e imagem cariocas. Seu texto, porém, não era informativo e, assim como as ondas, tinha um divagar curvilíneo. “Sabe-se lá de onde vem o fascínio pelo mar”, dizia a primeira frase para, mais à frente, outro trecho como “A maré que baixa e o fedor que sobe” quebrar com qualquer apreensão romântica de um espaço natural que é tomado pela poluição e pelo lixo. 



Resenha de “Viagem pitoresca e história ao Brasil”, de Jean-Baptiste Debret (org. Jacques Leendhardt, 2015)
2017

O presente ano de 2016 é um momento de comemorações e lembrança dentro do campo dos estudos da arte e da imagem durante o século XIX no Brasil. Trata-se da celebração dos duzentos anos da vinda de um grupo de artistas franceses para o Rio de Janeiro, em 1816, então capital do Império Luso-Brasileiro. Essa viagem foi posteriormente batizada de “Missão artística francesa” e se trata da soma de dois desejos: a saída do território francês de artistas um dia associados politicamente a um Napoleão em iminente queda política e, por outro lado, o desejo por parte do imperador português D. João VI de haver uma escola de belas-artes em território brasileiro. 


Responder a tod_s
2017

Esse texto (que, prometo, será curto) nasce depois de um dia inteiro na montagem de “Responder a tod_s” – ou seja, é um texto que é fruto do cansaço. Escrever sobre esse projeto, porém, não faz sentido se é feito de outra maneira. Essa curadoria nasce justamente do contato diário, das tentativas de comunicação, da ausência de certeza sobre _s outr_os e, especialmente, do cansaço e delícia das montagens.



Mayana Redin
2017

Entre os meses de novembro e dezembro foi realizada a primeira individual de Mayana Redin na galeria Silvia Cintra, no Rio de Janeiro. Intitulada “Arquivo escuro”, a exposição chamava a atenção inicialmente devido à ambientação escolhida pela artista: no lugar da iluminação hospitalar comum do cubo branco, ela preferiu transformar o espaço numa caixa escura onde a própria luz de algumas obras geralmente dava o tom de iluminação ao todo. Essa opção remetia ao uso da palavra “escuro” no título da exposição e convidava o corpo do espectador a uma particular experiência física. A artista dividia com o público um arquivo de suas experimentações recentes.



Linhas azuis
2017

Podemos afirmar que a pesquisa de Danielle Fonseca se articula essencialmente na relação entre imagem e texto. Além de ser uma criadora dentro das chamadas “artes visuais”, a artista se caracteriza também pela sua produção como escritora.



Reformar
2016

“Reformar” é uma exposição construída a seis mãos pelos artistas Reginaldo Pereira, Renata Cruz e Renato Leal. Mais do que uma exposição coletiva, poderíamos afirmar que se trata do encontro entre três artistas que se transformaram em bons amigos e que pensaram detalhe a detalhe deste projeto, entre ideias mil e cafés.



Mmakgabo Helen Sebidi - 32a Bienal de São Paulo
2016

A artista sul-africana Mmakgabo Mapula Helen Sebidi desenvolve sua pesquisa nas linguagens do desenho, escultura e pintura desde a década de 1960. Nascida na zona rural da África do Sul, logo jovem trabalha como auxiliar doméstica de diferentes famílias que viviam em Johannesburgo. O fazer artístico era algo presente em sua vida devido à sua avó que era pintora de paredes e trabalhava com cerâmica, tendo ensinado a Sebidi algumas técnicas desde sua infância. 



Ebony G. Patterson - 32a Bienal de São Paulo
2016

A pesquisa de Ebony G. Patterson parte da vivência cotidiana em Kingston, e da observação de expressões da cultura popular. Seja em formas bidimensionais, pintura, desenho e colagem, seja em tridimensionais, como esculturas, instalações e performances, sua obra é pautada por uma ampla utilização de cor, ornamentos e grandes escalas, em gestos que prezam pela contundência da acumulação de elementos. A artista se vale inicialmente da fotografia e daí transpõe as imagens capturadas para a tapeçaria. 



Cecilia Bengolea & Jeremy Deller - 32a Bienal de São Paulo
2016

Cecilia Bengolea é coreógrafa, dançarina e artista performática. Com o intérprete François Chaignaud criou a companhia Vlovajob Pru em 2005. Entre os diversos interesses de sua investigação, chama a atenção o diálogo estabelecido entre uma linguagem institucionalizada como “dança contemporânea” e explorações do corpo oriundas de contextos populares massificados ou de grupos sociais específicos. Para a 32ª Bienal, Bengolea desenvolve com Jeremy Deller – artista com quem colaborou em 2015 – um projeto que parte de diferentes linguagens para pensar de modo crítico e irônico a sociedade contemporânea e suas relações com a economia, as condições de trabalho, os sistemas políticos e as referências à cultura popular.


Le petit musée  
2016

A pesquisa de Ismael Monticelli se desenvolve a partir de diferentes linguagens. Se por um lado podemos perceber que seu olhar se constrói em diálogo com a fotografia e que algumas de suas obras são apresentadas nessa mídia, por outro lado não podemos fazer vista grossa à sua experimentação com a produção de múltiplos, a construção e apropriação de objetos e a apresentação de instalações. Fulcral à sua produção é a relação entre imagem e texto, mas sempre de modo distante da ilustração e da nostalgia do livro impresso; palavras e frases se fazem essenciais na medida em que incentivam a projeção mental de novas imagens. 



Saudade e o que é possível fazer com as mãos  
2016

A palavra “saudade”, a primeira parte do título desta exposição individual de Raquel Versieux, pode ser relacionada de modo amplo à sua pesquisa. Com cerca de dez anos de percurso, a artista investiga a relação entre corpo humano e paisagem em diversas técnicas e operações de construção de imagens. A fotografia e a criação de objetos tridimensionais são alguns dos interesses mais frequentes em seus trabalhos.



A beginner’s guid to Brazilian art 
2016

To only write briefly about the relationship between Brazil and contemporary art is certainly a crime. With a population estimated at more than two hundred million and an area covering more than eight million square meters (the United Kingdom could fit into it 35 times), it’s absolutely impossible to define precisely what “Brazilian culture”, “Brazilian contemporary art” and of course, “Brazilian-ness” could be.



Zimbeta
2016

Ao observar a presente exposição de Rodrigo Martins na Central Galeria, alguns elementos são constantes. É possível destacar, em primeiro lugar, a presença da pintura e da escultura como linguagens norteadoras da sua criação de imagens. Em um segundo momento, no que diz respeito àquilo que poderíamos chamar de “assunto” das suas obras, chama a atenção a recorrência de elementos que remetem à anatomia humana. Essa relação triangular entre escultura-pintura-figuração, porém, não se trata de uma equação de fórmula óbvia e é sobre o seu tensionamento que a produção do artista parece estar concentrada.



Indices: tres operaciones entre imagen y texto en Brasil
2016

Siendo la presente edición de Solemne basada en la relación entre imagen y texto desde la perspectiva de las artes visuales, empecé a pensar sobre cómo hacer una contribución desde Brasil. Si pensamos en una perspectiva histórica, la relación entre cultura visual y texto en Brasil es larga y pasa desde los libros publicados por viajeros extranjeros que exploraran nuestro territorio desde el siglo XVIII hasta las experimentaciones con la poesía concreta principalmente en la década de 1950 por Augusto de Campos, Décio Pignatari y Haroldo de Campos.



I wish I was dead already
2016

Há um quadro de autoria de Ramonn Vieitez que me parece icônico quanto à sua pesquisa como criador de imagens. Intitulado “Teo at Paris”, a pintura apresenta uma figura com traços joviais sentado diante de uma mesa e enquadrado no canto de uma sala. É nesse espaço compositivo asfixiante que somos apresentados aos diversos objetos que acompanham Teo – canecas, copos e taças se avizinham em um espaço em que café e vinho são possivelmente amigos de muito tempo. Que tipo de ambiente é esse onde uma mesa se transforma na base do personagem? Trata-se de um escritório ou de um quarto?



Ganimedes
2016

A presente exposição de Zé Carlos Garcia dialoga com este mito. Com uma trajetória de cerca de dez anos como artista, é possível aproximar sua pesquisa à mutação entre o humano e o animal vivenciada por Zeus. As esculturas e objetos gerados pelo artista se encontram por diversas vezes entre o reconhecimento estrutural de móveis e anatomias animais, e o estranhamento proporcionado pela plasticidade dilacerada dos corpos estranhos que se instauram. De uma antiga cadeira de madeira saem penas de um pássaro e da trama de palha de outro móvel brota um pequeno inseto.



Eduardo Viveiros de Castro
2016

A que se deviam essas opções cromáticas ousadas, mas que certamente injetavam vivacidade na exposição? Tratava-se da reunião de cerca de duzentas e cinquenta fotografias realizadas por Eduardo Viveiros de Castro, reconhecido antropólogo brasileiro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cada vez mais lido tanto no ambiente acadêmico das ciências humanas, quanto por um público interessado nas suas pesquisas em torno de distintos grupos indígenas no Brasil, o autor tem entre suas publicações de mais destaque títulos como “A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia” (2002) e o recentemente publicado “Metafísicas canibais” (2015).



Os 12 filhos da Virgem do Alto do Moura
2016

Como é sabido, as circunstâncias biográficas desse importante artista brasileiro levam a caminhos historiográficos bifurcados. Há aqueles que acreditam que o artista teria sido nascido no estado de Minas Gerais durante a Grande Virada, além de outros que pensam que ele teria produzido essas esculturas apenas no século V depois dessa mesma Virada. Nem mesmo as fontes de seu projeto iconográfico foram localizadas – seriam elas frutos de uma visão divina de um artista contemporâneo à passagem da Virgem ou alguém que se baseou na fonte textual mais referida aos acontecimentos, ou seja, “Os 12 passos da Virgem do Alto do Moura”?


Claudia Andujar
2015

Devido à exposição “No lugar do outro”, de Claudia Andujar, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro entre os meses de setembro e novembro, foi publicado um catálogo com reprodução das imagens expostas e uma entrevista exclusiva da artista. Após responder perguntas sobre sua infância, a fuga do nazismo e o trânsito entre a Europa e os Estados Unidos, a entrevistada comentou sobre o início de sua relação com a fotografia: “Minha mãe tinha uma máquina, ela fotografava, mas era como tanta gente. Para mim era uma maneira de me relacionar com o Brasil, nunca pensei que ia ser fotógrafa. Foi só depois que eu já fotografava e isso me dava um prazer muito grande que conheci gente que me encorajou”.



Cuba - ficción y fantasia 
2015

É difícil visitar a exposição “Cuba – ficción y fantasia”, a última coletiva a ser realizada no prédio, sem que essas informações venham à reflexão. Com curadoria de Hans-Michael Herzog (curador-chefe da Daros Latinamerica Collection) e Katrin Steffen, a exposição não pretende, segundo seu release, “abarcar todas as correntes artísticas de Cuba, mas transmitir uma excelente ideia das facetas mais importantes desta produção nas últimas décadas”. Com mais de uma centena de obras de dezessete artistas e com um arco temporal que vai de 1975 a 2008, a curadoria certamente abarca distintos pontos de vista da triangulação sugerida pelo seu título entre Cuba, ficção e fantasia.



Benvenuto Chavajay
2015

Quando o artista Benvenuto Chavajay intitulou sua primeira exposição individual na Galeria Pilar, em São Paulo, por “Diamante típico”, trazia à nossa memória toda essa carga de significados que a pedra preciosa evoca. Ao circularmos no espaço expositivo e contemplarmos as imagens ali compartilhadas com o público, ficava claro que se tratava de um uso mais sarcástico das palavras e, no lugar da ostentação, éramos confrontados com a precariedade dos materiais utilizados na composição das obras.



Daniel Lannes
2015

“Colônia” era o título da exposição individual do artista carioca Daniel Lannes apresentada nos dois espaços da Baró Galeria, em São Paulo, entre os meses de maio e junho. Essa palavra é capaz de ativar a memória do público de diversos modos, mas se este se trata de alguém que acompanha há algum tempo a trajetória do artista, possivelmente deveria associá-la a um dos seus interesses rotineiros: a História das imagens relativas ao Brasil.



Entre aqui e lá: pontos de fuga
2015

Poderia ser mais uma imagem da internet. Na verdade, não poderia; ela é. Em uma fotografia a cores vemos céu, grama, árvores, um monumento e o corpo humano. Quase ao centro da composição, a Torre Eiffel ultrapassa as margens da imagem. À sua frente, com uma manga de camisa vermelha, alguém aponta o dedo do meio para ela. O gesto agressivo apenas endossa o caráter pouco nobre dessa imagem. Qualquer um de nós poderia ter realizado esta fotografia, assim como ilustramos e alimentamos as linhas do tempo do Facebook com memórias descartáveis de nossas breves passagens.



Leg godt
2015

Mais do que não conhecer anteriormente o trabalho de Joaquín Rodriguez del Paso, era minha primeira viagem a San José, capital da Costa Rica. Logo nesta primeira entrada em uma instituição local – o Museo de Arte y Diseño Contemporáneo –, me deparei com um espaço de mais de dois mil metros quadrados tomados por obras que percorriam os cerca de vinte e cinco anos de produção do artista costarriquenho. 



Osmar Dillon

2015

O Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Centro do Rio de Janeiro, abrigou por dois meses uma reunião de trabalhos de Osmar Dillon. Nascido na cidade de Belém, no norte do Brasil, em 1930 e falecido no Rio de Janeiro em 2013, o artista participou da segunda e terceira edições da Exposição de Arte Neoconcreta, realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Essa revisão de seu trabalho faz jus, portanto, ao artista que dá nome à instituição e às narrativas paralelas à sua obra, visto que Oiticica, além de participar das três exposições do neoconcretismo, também foi um dos autores responsáveis por assinar o Manifesto Neoconcreto, em 1959.



Algumas perguntas para Marina Abramovic

2015

“Lygia Clark é uma grande artista brasileira da performance. Eu respeito o seu trabalho, mas não acho que temos nenhuma similaridade direta no que produzimos. Eu acredito, de todo modo, que ambas estamos interessadas em alguns conceitos similares enquanto ser humanos, como os diferentes estágios de consciência que experimentamos e os limites mentais e físicos que compartilhamos”.


Crônicas e intervenções
2015

de onde advém o título da exposição? Trata-se de uma referência a um trabalho apresentado em 1984 – ou seja, trinta anos da abertura da presente exposição – pelo Group Material, sediado em Nova Iorque. Organizado em 1979 e visando a criação de trabalhos com reflexões sociais dadas de forma coletiva, o grupo apresentou dentro de uma proposição de outro grupo, o Artists’ Call Against US Intervention in Central America, um trabalho acerca das intervenções feitas pelos Estados Unidos nos territórios da América Central e da América Latina como um todo. 



“Não temo quebrantos”
2015

No que diz respeito às novas pinturas e desenhos apresentados no Santander Cultural, o primeiro dado que me chama a atenção diz respeito à monumentalidade da forma que não está contida exclusivamente na escala das telas, mas no modo como os corpos as preenchem. Felipe dá destaque às figuras centrais a essas composições e, mais que isso, proporciona um entorno para suas carnes que faz com as que as imagens respirem e as vejamos com clareza. Ainda há espaço para experimentação dos materiais e das pinceladas rápidas, mas esses elementos não se sobrepõem aos corpos, e sim contribuem com seu destaque.



Ouro de tolo
2015

Ao se observar o percurso de Zé Carlos Garcia, temos à nossa frente uma pequena Arca de Noé; basta passar os olhos pelas imagens de seus trabalhos e somos enfrentados por porcos, pássaros, abelhas e pragas. Nenhum deles, porém, se apresenta por um duplo tridimensional ou através de uma representação mimética dada a partir de um modelo vivo. De vivo, em verdade, seus animais têm muito pouco, já que parece interessar ao artista justamente a fragmentação dos corpos e os resquícios de uma mutilada arca.



Histórias mestiças
2015

O projeto curatorial, portanto, me parece se debruçar justamente em torno de uma arqueologia desse “cunho muito particular” do Brasil - de que modo um extenso conjunto de narrativas colonialistas que enxergava a cultura brasileira como fruto de uma mistura nada pura entre diversas etnias apareceu e insiste em aparecer através de imagens de temporalidades e geografias distintas? No lugar de uma repetição do enunciado de von Martius, Pedrosa e Schwarcz me parecem mais preocupados em, através de uma pesquisa louvável, tentar desconstruir essa leitura simplista e já senso comum do que seria a origem do “povo brasileiro”.



Curta de quebra-demanda
2015

A palavra “demanda” me parece bem apropriada no que diz respeito a uma aproximação ao trabalho da Associação Massa Falida. Inicialmente, demandar pode significar a necessidade de presença ou atividade nossa e dos outros. Um trabalho como “Vending machine”, de 2012, demanda tanto do corpo dos artistas – os homens que fazem o lugar de máquina dentro de uma caixa –, quanto do público que se interessa pelo consumo a fim de que esses corpos sirvam a eles.




Figura humana
2014

Esta exposição parte desse fascínio, talvez instintivo, entre humanidade e imagem para refletir a partir das possibilidades que o corpo humano ainda é capaz de proporcionar na cultura contemporânea. Pretende-se, porém, mais do que fazer um inventário de figuras humanas, reuni-las através de uma linguagem artística portadora de uma história específica – a pintura. Tema de debates na teoria da arte desde o Renascimento, o lugar da figura humana já foi tanto pensado por um viés matemático, numa busca por uma simetria perfeita entre as partes (como escrevia Alberti), quanto através de um embate direto entre artista e suporte, sem a necessidade de uma mediação pelo viés do desenho, como pregavam artistas e pensadores da pintura veneziana. 



Erro de desenho
2014

Desenhar é um exercício de se colocar entre o controle e o erro deliberado, entre o esboço para um projeto posterior (o desenho como projeto mental) e o espaço de experimentação dado a partir do encontro entre instrumento e superfície. No meio do processo de atualização da versão de 2011 de seu portfolio, Daniela Seixas recebe um aviso de erro do software que utilizava – “a drawing error occurred”. Entre a surpresa e o estímulo que essa mensagem traz à sua pesquisa como artista, resolver salvar a tela de seu computador do modo como estava. 



Modernidade acocorada: Monteiro Lobato, Almeida Junior e Césareo Bernaldo de Quirós
2014

Nessa segunda publicação, o autor descreve um personagem arquetípico do interior de São Paulo, a saber, a figura do “caipira”, ou seja, o homem do campo que trabalhava na lavoura com agricultura. Batizando-o por Jeca Tatu, Lobato faz um texto em que realiza uma descrição ácida da indolente figura do trabalhador de certa região do Brasil, fruto da miscigenação entre o homem branco e o índio, e destinado ao fracasso, à miséria e à preguiça.



Entre o céu e a terra
2014

Algumas de suas séries em serigrafia e xilogravura que versam sobre o céu estavam reunidas em uma parede presas somente com grampos nos lados superiores. O papel se movimentava e mudava a sua forma do mesmo modo que as nuvens nunca se apresentam iguais. Os entalhes da madeira são proporcionais ao seu encontro com os buris. Estes, mesmo nas mãos mais treinadas, oferecem surpresas e criam linhas que nunca irão de encontro literal ao que foi projetado mentalmente.



Engenharia alquímica
2014

Através destas chaves de leitura, as proposições de Steenbock ganham camadas interessantes. A maior parte dos objetos encontrados nesta exposição foram produzidos a partir da articulação de apropriações. Em um deles víamos um martelo preso a um vidro através de uma linha. Seu próprio peso o mantinha em pé, ao passo que a linha ganhava a importância de uma corda que sustenta um alpinista em uma escalada. Poderíamos enxergar certa precariedade aqui; não num sentido da arte povera, ou seja, de um uso de objetos que às vezes eram mesmo resquícios da indústria ou da natureza.



Palco
2014

Ao olhar com calma para “Palco”, um trabalho que não excede os trinta centímetros de extensão, há elementos formais que seguem potentes na sua produção de imagens. A tensão entre figura e fundo aqui se faz presente – um objeto, uma escada, sugere um espaço trancafiado devido à sua escala. As linhas gravadas na madeira reforçam e ao mesmo tempo combatem o preto que toma conta da obra – este sugere uma imensidão pelo viés da cor, mas nos faz lembrar seu caráter solitário quando recorremos a uma percepção matemática do espaço.



Sala de estar
2014

Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Assim lemos nos livros, mas não aprendemos outro verbo importante: voltar. Mesmo cosmopolitas, nossos lugares de crescimento dificilmente são apagados da memória. Jorge Soledar se recordou, então, da oficina de carpintaria que rodeava sua adolescência em Porto Alegre.



O sonho
2014

Nessa exposição individual de Jonas Arrabal há, como seu título anuncia, o desdobrar de uma história próxima ao mito fundador do primeiro grupo ao qual um indivíduo está inserido: a família. A mola propulsora dos trabalhos reunidos é autobiográfica e fala sobre uma “fundação” possível através de outra concepção da palavra que diz respeito ao ato de se erguer uma construção. Enquanto a estrutura familiar, mesmo se assimétrica, já existe anteriormente ao nosso nascimento, o edifício que abrigaria a família Arrabal Aragutti se tratava de um projeto.



Entre o francês e o português
2014

Ao buscar por referências rápidas no que diz respeito à fala de Mestre Vitalino (1909-1963) sobre sua vida e produção artística, muitas vezes me deparei com parte dessa primeira frase, ou seja, “criei-me trancado vivo”. Trata-se de parte de um texto escrito a partir do seu encontro com o intelectual René Ribeiro, antropólogo e professor da UFPE. 


Estômago
2014

Seis pinturas compunham a exposição, sendo que a menor delas tinha 360 centímetros de altura e a maior, cinco metros e vinte. Partindo da minha própria altura como medida, é possível dizer que essas duas de tamanho maior eram pouco mais que três vezes mais altas do que eu. Andar pelo espaço e tentar apreender a monumentalidade dessas pinturas foi, portanto, uma tarefa nada fácil. Como dar conta dos detalhes que não alcançava na verticalidade proposta por Thiago Martins de Melo? 



Casas
2014

O primeiro dado que saltava aos olhos era a expografia. Rennó se coloca distante da tentativa de transformar um espaço que foi de habitação em cubo branco. Um segundo olhar, porém, perceberá que ela se apropria de uma tessitura típica dos museus, a saber, a utilização de um adesivo que acompanha o espectador até a última das salas e traz informações quanto à cronologia do edifício – uma grande linha do tempo. Esse dado causava uma confusão interessante aos olhos do espectador – seria essa sala uma proposição informativa da direção do museu ou uma proposição artística?



Um texto por dia 
2014

Qual não foi, portanto, minha surpresa e felicidade a aceitar um novo convite e refletir um pouco sobre a produção recente e a trajetória de Gonçalo Ivo. Se fui orientado para escrever diariamente, tenho a impressão que esse artista também o foi, porém no que diz respeito à sua capacidade de ser um produtor de imagens. Sendo sua primeira participação em exposição coletiva em 1978, podemos afirmar que seu percurso institucional já abarca mais de 35 anos. 



Entrevista com Charles Boltanski
2014

“Primeiro, se você faz uma coleção, ela nunca é concluída. Colecionadores estão sempre insatisfeitos porque há algo faltando, e aí está a beleza de colecionar. Mas, para mim, não se trata de uma coleção, é mais um arquivo, e um arquivo também nunca se conclui. No entanto, é algo mais útil. Não é uma coleção de modo algum! Se o arquivo é sobre pessoas que usam jaquetas brancas no Brasil, é algo útil para a sociologia, para o design de moda. Algo como suíços mortos ou bebês poloneses, por exemplo, são matéria-prima para criar uma obra. Eu não coleciono fotos”.



Anticlássico
2014

Escrevo essa nota introdutória historiográfica, pois, ao entrar na exposição “Pulso alterado”, realizada no Museu Universitario de Arte Contemporáneo (MUAC), na Cidade do México, me veio imediatamente a vontade anticlássica das imagens selecionadas e, porque não colocar assim, a potência de pathos da curadoria. Como os próprios textos dos curadores Miguel A. López e Sol Henaro colocam, a proposta inicial da exposição era de lançar um olhar específico para a coleção do museu; coleção essa, importante frisar, um tanto quanto impressionante para um museu universitário.



Desconforto
2014

Dentro do espaço expositivo, o público pode realizar o seu percurso entre diferentes trabalhos e respostas à tridimensionalidade propostos por Frida Baranek. Um trabalho novo, de 2013, intitulado “Armadilha” recebe o público ao lado de uma de suas imagens mais icônicas e sem título, de 1985. Um inflável vermelho repousa sobre o chão e tem como ameaça uma pedra presa ao teto da sala. Há aqui uma interessante intercessão de elementos da estatuária clássica e das proposições possíveis para uma geração posterior às experimentações de Marcel Duchamp.



Infinitivo
2014

Desdobrar, embolar, costurar, encaixar; poderíamos dizer que a pesquisa artística que Leandra Espírito Santo vem desenvolvendo diz respeito à exploração dos verbos no infinitivo. De diferentes configurações do ambiente e dos modos de registro, seu trabalho tem se configurado como uma “poética do fazer”, ou seja, são imagens que demandam tanto um esforço da artista para construí-las, quanto do público para apreendê-las.



Deslize
2014

Surfe e skate são o norte e o sul desta exposição. Ambos os esportes são vistos em uma perspectiva histórica, mas sem a pretensão do esgotamento. Informações e imagens foram selecionadas a partir de um arco temporal que vai de 1778, quando são feitos os primeiros desenhos dos habitantes do Havaí a surfar, até discussões públicas sobre o lugar dessas atividades no Brasil. Coube refletir sobre a dimensão artística suscitada por essas diferentes formas de explorar o espaço. Seria possível afirmar que alguns artistas têm uma relação existencial tão forte com o surfe ou o skate a ponto de os eleger como elementos centrais de sua linguagem? Parece que sim.



Entrevista com Frederick Wiseman
2013

“Se você se interessa pela maneira como as pessoas se comportam, tem de olhar para elas e ouvi-las. Parece evidente. Nesse sentido, até mesmo os filmes de ficção são observacionais, porque você tem de criar personagens, julgar o que dizem, o que fazem e como agem. Qualquer pessoa que tenha olhos é a todo instante observacional”.



Araucária no chão
2013

Colocado esse ponto, enfrentemos esse desafio de se comentar a Bienal de Curitiba. A edição de 2013 é responsável por fazer o evento chegar aos seus vinte anos e lembrar ao espectador uma trajetória que se iniciava em 1993 com o nome de Mostra VentoSul de Artes Visuais. Nas edições futuras, houve esforço por parte das curadorias a fim de reunir artistas do chamado Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai) somados à representação de artistas do Brasil e Paraguai. Desde 2009 o evento ganhou o nome “bienal” agregado ao seu título, se tornando, em 2011, oficialmente na Bienal Internacional de Curitiba. 



O céu de antes
2013

Os trabalhos de autoria de Tales Bedeschi, aqui reunidos, podem ser fruídos através de duas chaves que aparecem indicadas desde o título de sua exposição individual: espaço (“céu”) e tempo (“antes”). De prima, poderia ser dito que as imagens, aqui reunidas, lidam com o tópico da paisagem muito problematizado pela história da arte. Um segundo olhar, porém, incentiva o espectador partir dessa questão e circunscrevê-la melhor - mais precisamente do que a paisagem, se trata de um ensaio sobre o céu.



Ciclo, alma e imagem: sobre a composteira de arte
2013

“Isso parece interessante. Da mesma forma que o artista é que diz se é arte ou não. Para a composteira, foram os artistas que disseram o que devia ser jogado fora. Recebi desde obras perfeitas, que poderiam estar em qualquer galeria, até restos, sobras de ateliê, passando por obras mofadas ou com pequenos defeitos e ready-mades. Jogar fora é sempre um exercício. Para algumas pessoas é muito difícil; para outras, menos”.



Ir
2013

A presente reunião de trabalhos deseja, primeiramente, questionar esta costumeira concepção da sala de exposição como um cubo branco dotado de uma narrativa linear. No lugar de usarmos a figura de uma ponte para o espaço entre as imagens aqui reunidas, talvez fosse mais interessante pensar na ideia de contaminação. Nosso olhar vai de encontro a um trabalho e, de diferentes modos, é direcionado a outra proposição visual. Cada visitante jogará os dados, obterá um resultado e realizará um trajeto espacial singular.



Banco Nacional
2013

A maior parte dos discursos feitos a partir de sua obra dizem respeito, claro, primeiramente, ao desenvolvimento do cinema documentário. Wiseman costuma ser celebrado como uma grande potência no que diz respeito a um chamado “cinema de observação”, ou seja, uma utilização da câmera em que as pessoas filmadas não falam diretamente com a lente, mas são capturadas em recortes de seus cotidianos. O olhar do diretor, portanto, não é tanto o de uma segunda pessoa do singular, mas se aproxima mais de uma terceira do plural.



Moça com brinco de pérola
2013

As pérolas nascem de ostras. Para minha surpresa, esse nascimento se sucede quando o molusco aciona seu mecanismo de defesa, ou seja, é preciso que ele seja estimulado e que seu organismo inflame através do contato com corpos estranhos para que seu manto produza camadas de néctar sobre o elemento externo e surjam as pérolas. Perguntei-me: e não seria o processo artístico de Berna Reale um tanto quanto parecido? 



Passaic: o museu desordenado de Robert Smithson
2013

Como o próprio título indica nas entrelinhas, “Um passeio pelos monumentos de Passaic”, escrito pelo artista americano Robert Smithson, trata-se de um relato de experiência. Publicado na Artforum em dezembro de 1967, o texto está baseado num retorno do artista à sua cidade natal. Sua narrativa é construída por intermédio de duas mídias. Pela linguagem literária o autor recodifica sua experiência de percorrer um espaço urbano abandonado e transformado em subúrbio.



Rio sem fumaça
2013

"Rio sem fumaça" se trata da primeira experiência expositiva do Programa de Residências Internacionais do Barracão Maravilha. Seu título vem das placas de incentivo espalhadas pelo Rio de Janeiro para se evitar o hábito do fumo em lugares fechados. O leitor poderia, dependendo de seu conhecimento do português, pensar a frase como uma chamada para a cidade sem cigarros ou entende-la como uma estranha conjugação do verbo “rir” colocada na primeira pessoa da singular, ou seja, eu, o sujeito, rio sem fumaça. Parece que esse jogo de interpretações e palavras é algo que pode ser visto nas formas dos trabalhos produzidos e selecionados por Flurin Busig e Manu Engelen nesse mês que habitaram o solo carioca.



Erros
2013

O trabalho de André Renaud me parece também problematizar a ideia de mimese. Ao dispor sobre o chão dois montes de objetos organizados de modos aparentemente aleatórios, primeiramente poderíamos pensar sobre a relação entre original e cópia. O problema aqui, porém, é que por serem ambos construídos de modo idêntico, formal e cromaticamente, esses termos perdem o sentido. Qual imagem surge primeiro? Qual é o ovo e qual é a galinha?



Uma viagem sem volta
2013

Há cerca de 44 anos, exatamente no dia 21 de julho de 1969, era publicada na capa da Folha de São Paulo uma matéria intitulada “A lua no bolso”. Com uma escrita nitidamente encantada com os avanços tecnológicos, o repórter relatava o contato de Neil Armstrong com a lua a partir do que era observado pela televisão. O homem não apenas entra em contato físico com o astro, mas também estava “recolhendo com uma espécie de longas pinças, as primeiras amostras do solo lunar”. Sim, a lua existia e a ansiedade humana por desbravar novos espaços e demonstrar um “vim, vi e venci” se estendia para além do planeta Terra. 



Esculturas
2013

Tive a oportunidade de estar na abertura da exposição "Como me tornei insensível", de Jorge Soledar, na Galeria IBEU, em 15 de maio. Compartilhando o todo com Paula Huven e tornando o espaço uma casa para duas exposições individuais, de imediato chamava a atenção uma comprida estrutura de gesso colocada sobre o chão. Intitulada por "Atravessamento", formalmente, esta imagem cortava o espaço expositivo do modo já anunciado em seu nome, ou seja, atravessado. Estabelecia-se, então, uma diagonal que apontava para uma das paredes do cubo branco, logo ao lado de um dos cantos da sala.



Artesanato
2013

Anna Maria Maiolino foi uma das vencedoras do recém-criado Prêmio MASP Mercedes Benz e, como parte do resultado, teve a oportunidade de realizar uma exposição no museu. Com uma trajetória iniciada na década de 1950, quando ainda residia na Venezuela, a artista ganhou bastante atenção da crítica especializada devido à sua participação na última edição da Documenta, no ano passado. Ao realizar uma grande instalação com argila dentro de uma residência no parque Karlsaue, em Kassel, a artista deu prosseguimento à sua pesquisa iniciada nos anos 90 com sua série “Objetos escultóricos”. Se o público esperava ver trabalhos semelhantes ou adaptações nesta nova exposição no MASP, muito se enganou.



Dois vivas à primeira pessoa do singular
2013

“O que acontece é que na maioria das vezes as obras são para mim um “gatilho” para as coisas que quero discutir. E no fundo gosto de fazer assim, mesmo porque não sei fazer de outro modo. Sou apaixonada por filosofia, pelo trabalho do Panofsky, não tenho muito gosto pela chamada “análise formal”.  Na verdade, o que eu queria mesmo, é ser o Danto... (risos)”.



Sobre o livro “Menos-valia [leilão]”
2013

Além de imagens da instalação e de sua venda na bienal, o livro contém textos escritos por quatro diferentes autores. Partindo de diferentes trilhas, estas escritas acabam por tangenciar um mesmo grupo de referências teóricas. Nomes como o de Benjamin e Baudelaire aparecem nas argumentações. O ato de se leiloar e conseguir se atingir, por exemplo, 30488% de lucro em um dos objetos (seja pelo peso do nome de Rennó no mercado de arte atualmente, seja pela referência explícita a uma obra de Lygia Clark) endossam as reflexões sobre a economia da arte contemporânea.



Ministro do tempo
2013

Roberto Magalhães, enquanto isso, adapta o título do quadro de Gauguin para um pastel sobre papel em que uma figura humana é protagonista. Inexiste aqui, porém, a frontalidade da face. A solidão de um homem que traja, aparentemente, um terno é delineada pela economia cromática. Após vermos suas costas, temos a bifurcação de seu rosto; metade para a esquerda, metade para a direita. Não existe uma linha reta e o campo da certeza na produção de imagens de Magalhães, mas, antes disso, um convite à dúvida e apreciação mais curvilínea de sua poética.



Lar, estranho lar
2013

Lar, estranho lar. Estranhar o corriqueiro me parece ser também um elemento chave dentro da pesquisa artística de Renato Pera. Podemos partir da apropriação da estranha espacialidade da imagem “infraganti”. Se uma mulher chora e é retirada de dentro de um armário-esconderijo, enquanto seu possível amante é imobilizado por policiais, uma cadeira repousa sobre o chão. Este elemento visual parece ter um caráter mais alegórico do que utilitário; o punctum desta narrativa diz respeito à queda e fracasso de uma relação humana.



36 poses
2013

Fotografa-se para recordar – este aparente lugar comum na abordagem crítica e teórica das imagens, não deixa de ser uma tentativa de compreensão dos objetos fotográficos e, por consequência, dizer respeito à pesquisa artística de Iris Helena. As técnicas de registro visual se alteraram com o tempo, mas o desejo de se criar uma biografia através de imagens permanece – se ontem economizávamos as trinta e seis poses do filme fotográfico (que nunca eram trinta e seis), agora pedimos aos nossos parentes que, por favor, ao menos tenham o trabalho de marcar nossos rostos e clicar na opção “compartilhar”.



A vida renasce, sempre
2018

A trajetória de Sonia Gomes como artista visual está centrada na noção de recomeço. Atualmente baseada em São Paulo, a sua obra lida com a experimentação e apropriação de materiais que anteriormente poderiam ser vistos como pouco importantes. Nas suas mãos, porém, eles se transformam na superfície e estrutura de objetos de formas orgânicas que brotam da mesa e paredes de sua casa-ateliê e, posteriormente, ocupam as diferentes arquiteturas de museus e galerias.


Copydesk
2018

Na primeira vez em que estive no ateliê de Eloá Carvalho, em 2014, uma frase me chamou a atenção. Conversando sobre a sua pesquisa com a pintura, questionei se ela se intitulava “pintora”. Sua resposta foi “Eu trabalho também com pintura” – ou seja, a técnica se trata de um de seus interesses dentre outros. Após estar ao seu lado durante o processo que culminou nessa exposição individual, sua afirmação ecoava em nossas conversas.


Água parada
2018

As palavras que compõem o título da exposição de Vivian Caccuri – “Água parada” – possivelmente ecoarão no público uma das maiores preocupações da saúde pública no Brasil: a dengue. Ao pensarmos nessa doença tropical, é inevitável que uma imagem venha à nossa mente: a temerosa figura do mosquito que a transmite.


 De fuera hacía adentro
2018

Los trabajos recientes de Esvin Alarcón Lam - que tuve el placer de acompañar durante una corta temporada por Guatemala - apuntan a otros deseos en su investigación. Una mirada atenta, sin embargo, percibirá elementos comunes entre eses resultados y sus experiencias anteriores.



Enredos para um corpo

2018

Paulo da Mata e Tales Frey desenvolvem suas pesquisas em parceria há cerca de uma década. Mais do que cocriadores, os dois também são parceiros no campo dos afetos e possuem uma relação em que amor e trabalho se conectam. Desse encontro nasce a Cia. Excessos e essa mistura possibilita a experimentação entre as artes visuais e performativas. 



Laura Aguilar
2018


Uma das mais impactantes era, certamente, a retrospectiva de Laura Aguilar realizada no Vincent Price Art Museum, em East Los Angeles – região extremamente interessante por ser aquela com maior concentração de latinos em Los Angeles. Aguilar também tem ascendência latino-americana; mais precisamente mexicana, o que faz com que sua identidade e sua produção artística muitas vezes seja chamada de “chicana”.  


Anna Maria Maiolino
2018


Ocupando as salas do museu dedicadas às exposições temporárias, a mostra chamava a atenção inicialmente pelo seu título: “Anna Maria Maiolino”. Não se fez necessário, nessa opção tomada pelos curadores Helen Molesworth e Bryan Barcena, dar um subtítulo para tentar circunscrever a produção da artista – algo visto em muitas das outras exposições individuais organizadas para essa mesma temporada de projetos. 


Don’t you (forget about me)
2017


Rafael Alonso possui uma pesquisa de mais de dez anos como artista visual e explora especificamente a pintura e a cor. Nascido e criado em Niterói, seu trabalho dialoga com diferentes tradições do que se convencionou chamar de “pintura abstrata”. Além de experimentar diversas maneiras de abordar a planaridade da pintura e sua relação com o corpo humano – chegando mesmo a obras tridimensionais e à apropriação de objetos utilitários que recebem cores -, o artista também utiliza diferentes recortes e materiais para aplicar faixas de cor que nos últimos anos saltam aos olhos devido ao seu alto contraste. 



Oxalá que dê bom tempo
2017


Esta exposição é uma celebração aos mais de cinquenta anos de percurso da artista visual Regina Vater. Nascida no Rio de Janeiro, ela pôde viver por curtos períodos - devido a prêmios e bolsas – em lugares tão diferentes como São Paulo, Nova Iorque, Paris e a cidade de Austin, capital do estado norte-americano do Texas, onde residiu a partir de 1986. Em 2012, ao lar retornou e, desde então vive na Região dos Lagos.




Eu só vendo a vista
2017


Com esse interesse em mente, convidamos o artista carioca Marcos Chaves para realizar a primeira dessa série de intervenções nesse sinuoso espaço. Com uma carreira de quase três décadas, sua pesquisa como artista visual se dá por mídias tão diferentes como a fotografia, a escultura, o vídeo e a instalação. Constante à sua produção, porém, há o interesse pela relação entre imagem e texto, geralmente através de uma ótica em que o humor é bem-vindo.

Antonio Pichillá
2017


Em viagem recente para a Guatemala, tive o prazer de ver a exposição do artista guatemalteco Antonio Pichillá na recém-aberta Galeria Extra. O espaço de tamanho modesto faz coro a outras galerias da Ciudad de Guatemala dedicados à arte contemporânea – como Proyectos Ultravioleta, The 9.99 e Sol del Río. O desejo de compartilhar com o público a produção de artistas vivos – assim como qualquer iniciativa semelhante em território latino-americano – é certamente bem-vindo.



Randolpho Lamonier

2017

Esta exposição é a primeira vez em que o artista Randolpho Lamonier reúne uma grande quantidade de trabalhos em um único espaço. Em seu percurso institucionalizado por meio de - em sua maioria - exposições coletivas nos últimos cinco anos, chama a atenção a sua constante prática da fotografia; por vezes vemos o registro de diferentes aspectos da metrópole e, em outros momentos, seu olhar se esbarra com outros corpos capturados em aparentes momentos de intimidade.



Gustavo Speridião
2017

“A gente surge da sombra” era o título da exposição individual do artista carioca Gustavo Speridião aberta entre os meses de maio e junho na Mercedes Viegas Galeria, no Rio de Janeiro. O título da reunião de obras vinha de um dos trabalhos ali expostos: um longo recorte vertical de tela onde a frase, descentralizada, aparecia em vermelho. 



Vera Chaves Barcellos
2017

Em entrevista publicada no catálogo “Imagens em migração”, de 2009, Vera Chaves Barcellos responde a uma série de perguntas feitas pela curadora Glória Ferreira. Entre questões sobre sua trajetória, uma de suas falas parece interessante como introdução: “a gravura e a fotografia tem em comum a possibilidade de se tirar cópias e isso também é um vício quase, se torna um vício quando se faz gravura, de ter aquela possibilidade das cópias. A minha resistência à pintura, por essa ser uma peça única, também tem relação com essa possibilidade de multiplicação”.



Falso histórico
2017

O conceito que dá título à exposição do duo Lecuona y Hernandéz perpassa a sua trajetória de mais de vinte anos como criadores a quatro mãos. Baseados em Tenerife, nas Ilhas Canárias, sua pesquisa é mais baseada na criação de imagens dotadas de mistério do que em uma verborragia panfletária. Se inicialmente a dupla realizava pequenas ações performáticas perante o público ou a câmera, nos últimos dez anos seu trabalho se apresenta de forma mais tridimensional e com uma necessidade de dialogar com o espaço arquitetônico que o abriga.



Coros
2017

A exposição "Pintura (diálogo de artistas)" apresenta desde o título os seus parâmetros. Trata-se, em primeiro lugar, de uma reunião de trabalhos relativos a uma mesma linguagem, a pintura. Seus suportes tradicionais - penso aqui na equação clássica da aplicação de tinta diretamente sobre a parede ou sobre tela - são problematizados por alguns dos doze artistas convidados para compor o projeto: Zalinda Cartaxo realiza uma instalação que ocupa uma sala, Hugo Houayek mostra objetos feitos com gesso e Willian Santos contribui com um trabalho entre a pintura e a escultura, dividido entre a parede e o chão.


Suturas
2017

Desde que a exposição de Raquel Nava teve sua montagem finalizada, um elemento me surpreendeu: a presença da cor nas suas composições. Mesmo com suas imagens perante os olhos nos últimos meses, nada se comparou ao efeito de ver estas fotografias impressas em tamanhos diferentes e em diálogo espacial com os objetos apresentados. Saímos do campo da projeção virtual e entramos na esfera do embate entre seus trabalhos e o corpo do espectador.



Alair Gomes
2017

Após passar com importante repercussão pela cidade de São Paulo, a exposição “Alair Gomes: percursos” pousou sobre a cidade-natal do fotógrafo: o Rio de Janeiro. Com curadoria de Eder Chiodetto, a exposição trouxe à Caixa Cultural quase trezentas fotografias realizadas pelo artista em um arco temporal que se estende da década de 1960 ao final de 1980.



Jamaican pulse
2016

Realizada entre os dias 25 de junho e 11 de setembro, a exposição “Jamaican pulse: art and politics from Jamaica and the diaspora” foi realizada no Royal West of England Academy, na cidade de Bristol, na Inglaterra. Conforme os textos compartilhados com o público afirmavam, se tratava da maior exposição já feita em solo inglês a respeito da produção de arte na Jamaica e em uma cidade que concentra o terceiro maior número de jamaicanos no Reino Unido.



My body is a cage
2016

“My body is a cage” retira seu título da música homônima da banda canadense Arcade Fire. Conforme dizem seus versos, “My body is a cage that keeps me / from dancing with the one I love / but my mind holds the key” (“Meu corpo é uma jaula que não me deixa / dançar com o meu amor / mas a chave está na minha mente”), ou seja, se trata de uma música que reflete sobre a inevitável prisão à qual todos os humanos estão condicionados biologicamente: o seu próprio corpo. 



Ursula Biemann & Paulo Tavares - 32a Bienal de São Paulo
2016

“Forest law” [Selva jurídica] (2014) é um projeto da artista suíça Ursula Biemann e do arquiteto brasileiro Paulo Tavares. O trabalho de Biemann se baseia nas relações entre meio ambiente, território e modos de representação. Os resultados de sua imersão em distintos contextos sociopolíticos são apresentados por meio de documentos, livros e vídeos. Desde 1999, a artista realiza projetos que tratam da relação entre corpos individuais e fronteiras geográficas, culturais e de gênero.



Misheck Masamvu - 32a Bienal de São Paulo
2016

Mischeck Masamvu tem sua pesquisa artística baseada nas linguagens do desenho, da escultura e da pintura. Geralmente trabalhando com escalas médias ou grandes, a fisicalidade de suas pinturas a óleo cria um apelo que parece desafiar o corpo do espectador. As imagens de Masamvu podem ser vivenciadas a distância, mas também convidam a uma contemplação detalhada de suas proposições narrativas e formais. 



Ivens Machado

2016

Ivens Machado, artista brasileiro nascido na cidade de Florianópolis, em 1942, faleceu em maio de 2015. Vivendo no Rio de Janeiro desde 1964, começou a expor com regularidade e ganhar a atenção da crítica durante a década de 1970. Sem realizar exposições individuais desde 2011 – quando desenvolveu um grande projeto na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro –, o artista faleceu sem ter o reconhecimento internacional de parceiros geracionais como, por exemplo, Cildo Meireles. Conforme percebido de modo perspicaz pela galerista Marcia Fortes em texto de 2015, ele e o artista estadunidense Chris Burden faleceram na mesma semana e possuíam pesquisas claramente dialógicas. 


Saber contar

2016

O título da recente exposição individual de Rochelle Costi na Anita Schwartz Galeria, no Rio de Janeiro, dá um norte duplo para as imagens ali organizadas pela artista. Se por um lado a palavra “contabilidade” remete, segundo um dicionário, à “ciência de caráter teórico e prático que se dedica ao estudo dos métodos de cálculo”, por outro lado ela também pode ser vista como a junção entre as palavras “contar” e “habilidade”. É nessa segunda concepção menos científica e mais aglutinadora do título da exposição que me


Reply all
2016

“Reply all” comes from a daily experience – being part of the Manchester School of Art for the last three months as a PhD student. More focused in the All Saints Library and in the process of finishing my own thesis, I still got very curious to understand how the university structured the graduation and master degree art courses. The curiosity and inevitable comparison with the relation between art and education in Brazil led me to the seed of this exhibition: why not work together with artists that are students from the MSA?




Fé na Atlântida
2016

A Virgem do Alto do Moura, pesquisa artística e divindade criada por Nadam Guerra, caminha para o seu segundo aniversário oficial. Inicialmente apresentada na primeira edição da Bienal do Barro, realizada em Caruaru (Pernambuco), em 2014, a proposição ia de encontro com as histórias da cidade e da região. Na parte alta da cidade, precisamente no Alto do Moura, habitava o Mestre Vitalino, escultor de imagens feitas com barro que se popularizou entre as décadas de 1940 e 1960, falecendo em 1963.


Campo de dispersão
2016

Ao se observar a trajetória de Juliana Kase, é notável o importante lugar ocupado pelo desenho e suas possibilidades de articulação. Se em algumas vezes a técnica foi exercida através de uma perspectiva mais tradicional, ou seja, a partir do contato entre lápis e papel, em outras oportunidades a artista pensou a linguagem através de seus diálogos com o espaço público, a arquitetura e a instalação. Parte da pesquisa que a artista desenvolve nos últimos anos gira em torno da utilização da fotografia e da materialização de fotogramas que geram narrativas sequenciais a partir da apropriação de objetos.


many-splendoured thing
2016

Essa exposição é também sobre a história de Thomspon Vitor, estudante brasileiro. Tudo começou com o encontro entre Gê Orthof e a notícia sobre um jovem nascido em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, que havia sido aprovado em primeiro lugar para o concorrido concurso do Instituto Federal de Educação. O que chamava a atenção na narrativa é que o rapaz estudou a partir de uma série de livros que sua mãe, catadora de lixo, encontrou em seus percursos pela cidade.



A grande honra ao mérito
2016

Do alto das prateleiras para o chão – este é um dos deslocamentos feitos por Elen Gruber no projeto “A grande honra ao mérito”. A base onde as condecorações estão reunidas frisa sua repetição e esvazia temporariamente os seus contextos específicos. Os objetos que então convidavam a uma apreciação ascendente do corpo, remetendo a idolatria e respeito intocáveis, na organização proposta pela artista são integrantes de uma massa dourada que realça a planaridade do chão e a materialidad e das peças.



Composições
2016

O trabalho de Darío Escobar não deriva exatamente dessas duas rápidas aproximações, mas certamente é dialógico ao desejo de compor imagens a partir da geometria, tal qual observado não só na pesquisa de Kandinsky, como também em diversos outros artistas modernistas e contemporâneos. As composições de Escobar se desenvolvem, geralmente, a partir da apropriação de objetos industriais que possibilitam atos escultóricos e instalativos. 



Esse coqueiro que (até) dá coco
2016

Em "Boi neon", longa-metragem dirigido por Gabriel Mascaro e lançado recentemente, os personagens são mostrados diversas vezes a travar diálogos relativamente longos. A direção não enquadra seus corpos nem através de planos muito abertos, que os colocariam como parte da paisagem, nem também através de imagens muito próximas e detalhadas. A câmera observa, então, algo que acontece ali, nem perto, nem longe do público, mas geralmente apresentado através de um movimento muito sutil de zoom in.



“Sonhei que eu acordei e começava a gravar o sonho”
2016

Após a última grande exposição dedicada à memória de Leonilson, realizada na Estação Pinacoteca, em São Paulo, e que viajou posteriormente ao CCBB de Belo Horizonte, o nome do artista volta à tona devido ao lançamento de um documentário dirigido por Carlos Nader. “A paixão de JL”, ou seja, de José Leonilson, baseia a maior parte de suas imagens em gravações feitas em fitas K-7 pelo artista em um percurso de 1990 a 1993. 



Francisco de Holanda e o retrato em Portugal 
2016

Este artigo tem como ponto de partida os textos de Francisco de Holanda, artista português ativo entre o segundo quarto e o final do século XVI. Esta análise tem como objeto os seus escritos no que diz respeito ao elogio de artistas portugueses no campo do retrato, como Nuno Gonçalves e seu pai, Antônio de Holanda, lidos nos seus textos “Da pintura antiga” (1548) e “Do tirar pelo natural” (1549). Junto a essas afirmações, se fez necessário um cotejamento em conjunto com a produção de retratos em Portugal durante o Renascimento, além das obras da própria autoria de Francisco de Holanda. 



Alla prima 
2015

O que Tiago Cadete propõe com “Alla prima” vem de uma inquietude também perante o silêncio e imobilidade das imagens. O corpo humano, essa espécie de unidade fundamental da produção de imagens no Ocidente, é tanto o enfoque de sua pesquisa enquanto colecionador de imagens, como o instrumento através do qual o próprio corpo do intérprete se colocará perante o público. O seu olhar diz respeito à construção e invenção do Brasil – quais seriam os movimentos e vozes do grande número de imagens que em mais de cinco séculos foram capazes de criar certas ideias sobre o que seria o Brasil, os brasileiros e a brasilidade?


Entrevista com Aracy Amaral 
2015

“Repito sempre: o Brasil são muitos países e a incomunicabilidade é nossa marca justamente por nossa extensão e riqueza de diversidade. Se uma pessoa do Rio não vem a São Paulo não sabe o que se passa aqui, e vice-versa. E São Paulo possui uma alavanca que são os centros SESC por toda a parte. Por outro lado, vemos grandes cidades do Brasil se autonomizando em artes visuais, como Belém. No Nordeste uma forte vinculação com a Europa, há poucos anos, existia em função das atividades do Instituto Goethe...”



Damián Ortega
2015

Entre os meses de abril e junho, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebeu a exposição “O fim da matéria”, do artista mexicano Damián Ortega. Pude experimentar a fruição do trabalho pensado especialmente para o museu em dois momentos bem distintos. O primeiro se deu na véspera de sua abertura, ao visitar outras exposições da instituição. O pólo oposto foi quando retornei ao espaço na última semana do projeto e pude acompanhar as diversas alterações do seu estado inicial.



Marcadores
2015

Ao acompanhar o processo de criação e pensamento espacial de Iris Helena para essa exposição, é possível aproximá-la conceitualmente daquele mesmo costume de marcação de páginas. Sem livros dentro do espaço expositivo, são as paredes da galeria que são marcadas por suas mãos. Os papéis aqui não atribuem importância a um objeto impresso, mas são eles próprios a superfície da impressão. Atribui-se a eles, então, uma importância dialógica aos nomes próprios, conceitos e imagens encontrados nos livros outrora marcados.



Katú Kama-rãh: amizade, imagem e texto segundo Algot Lange
2015


Em 28 de setembro de 1912, é publicada no New York Times uma matéria sobre o engenheiro naval e então almirante da marinha brasileira José Carlos de Carvalho. Intitulada “Calls America a great school”, o texto versa sobre seu encontro com o jovem explorador e escritor sueco Algot Lange, durante a Terceira Feira Internacional da Borracha realizada em Nova Iorque e da qual o brasileiro era vice-presidente da comissão organizadora. Segundo a escrita, Lange faria uma expedição na região abaixo do rio Amazonas com financiamento da Universidade da Pensilvânia e com interesse do governo brasileiro no que diz respeito ao registro biológico e etnográfico de uma área supostamente “não explorada pelo homem branco” até então. 



Matías Duville
2015

“Mutações” era o título da exposição individual do artista argentino Matías Duville no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Aberta entre os meses de março e maio, se tratava de uma boa oportunidade para ver reunidas em um mesmo espaço obras realizadas desde 2000, representativas dos mais de quinze anos de sua pesquisa. Logo na entrada do espaço expositivo, em um corredor, o público era convidado a repousar o olhar sobre “Field”, obra de mais de seis metros de largura e realizada com carvão sobre papel.



Soy un perdedor, I am a god

2015

Quando Alvaro Seixas me convidou para escrever esse texto, veio com o nome da presente exposição definido: “Paintbrush”. Conversamos em seu ateliê e pude ver alguns dos trabalhos aqui apresentados. Modernismo, pintura, abstração e História foram algumas das palavras-chave que rondaram a nossa conversa. De todo modo, elas não me pareciam dar conta da irreverência que o título “Paintbrush” pode conter.

Nelson Leirner
2015

Nelson Leirner possui um percurso de mais de cinquenta anos de produção, desde sua primeira exposição individual de 1961. Sua produção é extensa e multifacetada, baseada tanto em obras em pintura e desenho, quanto em alguns trabalhos que tinham uma dimensão de inserção em vias públicas e, mais recentemente, em instalações e esculturas que mostravam sua fome de colecionador de objetos. Sua atuação perpassa distintos momentos da História do Brasil – da censura da ditadura militar ao crescimento do mercado de arte na última década.



Rachaduras
2015

Ao observar com calma as pinturas reunidas para a exposição “Jardim Cético”, de Rodrigo Cunha, as teorias de Alberti vieram à lembrança. Quinhentos anos separam os dois, sem falar na distância geográfica entre Florença e Florianópolis, mas enxergo esse diálogo através da indicação do autor a respeito do “vidro translúcido” que a
s boas pinturas deveriam emular. Seria possível enxergar essa construção cênica, tal qual um teatro de palco italiano, nas imagens de Rodrigo Cunha?



Perspectiva

2015

Uma grande formação rochosa ocupa mais da metade das imagens em movimento de “The conquest of the useless”, de Daniel Beerstecher. Observo a assimetria que as extremidades dessas rochas aqui capturadas entre tons de branco e cinza proporcionam no seu contato com o céu, formando um desenho na paisagem. Enquanto isso, na parte de baixo do vídeo, o vento que passava por este momento no espaço e no tempo cria ondas na estrada que é a base da imagem.

Ocupar
2015

O acampamento organizado por Tiago Cadete substitui o corpo humano de seus interiores por luz. Observados durante a noite, tal qual uma pequena rua de subúrbio, estes pontos iluminam o chafariz e podem ser vistos como ecos desses fatos recentes. Na ausência de um embate entre territórios diferentes (gregos e troianos), a cidade foi palco de um choque entre governantes e povo, entre o Estado e os habitantes.



Imitation of life
2015

Parece-me possível relacionar a sua produção a algumas palavras muito repetidas quando se aborda a criação contemporânea de arte - memória, autobiografia, História e escrita seriam apenas algumas delas que deveriam vir acompanhadas de citações bibliográficas e discussões conceituais mais destrinchadas. Prefiro dizer outra frase um tanto quanto cliché no que diz respeito à abordagem da arte contemporânea, mas que me parece adequada para o que conheço dele enquanto ser humano: Jonas Arrabal é um grande apaixonado pela vida.



Leonilson
2014

Pelo período de três meses esteve aberta na Pinacoteca de São Paulo a exposição “Truth, fiction”, um recorte dentro da produção do artista brasileiro Leonilson e com curadoria de Adriano Pedrosa. Nascido em Fortaleza, em 1957, o artista já habitava São Paulo desde os quatro anos de idade. Posteriormente estudante de artes plásticas, é na década de 1980 que sua produção desponta o levando a, por exemplo, participar da célebre exposição realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1984, “Como vai você, geração 80?”e da edição de 1985 da Bienal de São Paulo.



Cor de burro quando foge
2014

Fabio tem realizado nos últimos anos uma investigação pictórica a partir de protagonistas geralmente chamados por matutos, caipiras ou capiaus, arquétipos construídos no Brasil desde o século XVIII, mas melhor sistematizados por intelectuais durante o século XIX. Interessante lembrar, por exemplo, que em texto publicado em 1917, o crítico de arte Monteiro Lobato comenta a obra do então falecido pintor Almeida Junior, célebre por suas imagens de homens interioranos do estado de São Paulo. 



A casa dos pais
2014

Após conversar com os dez artistas presentes nessa exposição nos últimos meses e explicar um pouco o lugar de origem desse anseio curatorial, eis que percebo estarmos sentados durante a montagem compartilhando nossas biografias em torno dos trabalhos a serem alçados para as paredes. O fato de parte desse grupo de pessoas ter se conhecido durante as rápidas horas de montagem e problematizarem a relação entre produção de arte/imagem e autobiografia de modo tão transparente e informal, mas igualmente capaz de pensarem esses dados também sobre uma perspectiva crítica quanto às suas trajetórias como artistas, me fez crer que esse encontro foi especial.



Água mole, pedra dura
2014

O barro, como o próprio nome do evento indica, não poderia ser deixado de lado. Seja ele enquanto matéria bruta, advindo diretamente do solo e depois moldado pela mão humana, seja ele enquanto possibilidade da cerâmica que fez Caruaru se tornar num pólo de produção importante e famoso por figuras como Mestre Galdino e Mestre Vitalino; aqui ele está novamente presente e recodificado por mãos que se apropriam de diferentes modos de sua potência.


Xeque
2014

A ideia de ruína é um dado que se faz presente na produção de Daniel Murgel há algum tempo. Ao observarmos seus trabalhos, é possível detectar tanto alguns títulos que apontam para isso (como “A casa arruinada nas pedras”, de 2008/2009), quanto imagens que potencializam esse lugar da transformação da matéria em pó. A verticalidade e clareza do bronze proporcionadas pela estatuária clássica são recodificada e vertida em obras que partem do contato direto com o chão e a esse lugar parecem destinadas.


Inútil paisagem
2014

Diferente de uma exposição individual onde o cubo branco é todo ocupado por objetos facilmente vendidos na tradição das belas-artes (como pinturas, esculturas e desenhos), Schipper opta por dilacerar o espaço sacralizado da galeria comercial. Não se trata de uma atitude inusitada, visto que esta também possui sua trilha do site-specific já percorrida, por exemplo, por projetos recentes de Renata Lucas. De todo modo, em um presente onde feiras de arte e a projeção internacional otimista de um Brasil multicultural deixam muitos artistas num estado histérico, é de se admirar uma proposta que lida com a galeria, essa vitrine para compra, através de outra perspectiva.


“Os trópicos parecem conspirar contra a memória”
2014

Iniciar um texto sobre a experiência de se visitar a terceira edição da Bienal da Bahia, no Brasil, definitivamente não é uma tarefa fácil. O projeto expositivo se espalhou por este que é o quinto maior estado brasileiro quanto a território e o quarto no que diz respeito ao número de habitantes. Cachoeira, Feira de Santana, Itaparica, Vitória da Conquista, Salvador e diversas outras cidades tiveram espaços ocupados por exposições, performances, projeções de filmes e conversas que tinham o evento como ponto de partida.



A bioarte como ponto de partida
2014

Porém, ao se usar a palavra “bioarte”, geralmente não estamos nos referindo aos diversos momentos da história da arte em que imagem e biologia se cruzaram. Por mais que, diferente dos movimentos de vanguarda, inexista um manifesto que tente circunscrever as diretrizes dessa produção, parece ser costumeiro enxergar esse campo como relativo aos artistas que se utilizam de processos típicos das ciências biológicas para a criação de imagens.



Romy Pocztaruk
2014

Após pesquisar sobre o trabalho de Romy Pocztaruk, seria possível nos guiarmos por uma palavra: História. As narrativas que podemos encontrar nos seus trabalhos dizem respeito a uma amplitude geográfica – Nova Iorque, Berlim e Inglaterra ladeiam sua busca pelas ruínas da Transamazônica e de Fordlândia. A fotografia é uma das linguagens mais presentes na sua produção e proporciona ao espectador, como diria Jacques Le Goff, documentos/monumentos.



Sem receitas
2014

Estive na casa de Jorge Soledar há cerca de um mês. Marcamos de conversar pessoalmente sobre o que ele pensava para sua próxima individual na Fundação Ecarta, em Porto Alegre. Não que nosso contato não seja quase que diário (seja pelas ruas do Rio, seja pelas janelas do facebook), mas era preciso dedicar um tempo específico para tratarmos da exposição. No meio da conversa, em vez de seguirmos a projetar e discutir ideias futuras, Jorge comentou que estava no meio do processo de organização de algumas imagens de seus trabalhos anteriores, justamente para pensar em como estruturar o presente livro.



“Sou diplomado em matéria de sofrer”
2014

A exposição de Nuno Ramos na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, tinha como estopim a referência para qual seu próprio título aponta, ou seja, a canção “Hora da razão”, composta e interpretada por Batatinha e lançada em 1976. O musicista se tornou mais conhecido devido a regravações de composições suas feitas nessa mesma década que possibilitaram, por exemplo, que o artista tenha escutado essa canção pela voz de Caetano Veloso.



Estrelas de plástico
2014

A pergunta que Mayana Redin nos lança aqui é: e se conseguíssemos fruir esses corpos celestes a partir de sua atual localização geográfica pela cidade? E se esses nomes não fossem distribuídos de modo aleatório na malha urbana, mas constituíssem um projeto de constelações arquitetônicas? Seriam esses prédios próximos historicamente e frutos de um boom posterior à suposta pisada do homem na Lua? Poderíamos falar em um projeto futurista pautado na implementação da arquitetura moderna em diferentes áreas do Rio de Janeiro?

Mancha, risco e o que está por vir
2014

Enquanto isso, Héloïse Delègue apresenta uma série de imagens que apresentam outra exploração formal. No lugar das linhas e de uma construção visual que a aproximaria da gravura, o espectador é convidado a ingressar em labirintos de cor. A dar prosseguimento às suas pesquisas com a pintura, a artista buscou formas que fossem consideradas seminais para uma cultura visual do Brasil. Após pesquisar por imagens daquilo que comumente é chamado por “arte popular”, Heloïse encontrou formas que representavam animais possíveis de serem recodificados em sua pesquisa cromática.


Pão e cultura
2014

Tendo visitado a exposição "Abre alas", realizada na galeria A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro, entre 22 de fevereiro e 15 de março, a escrita de Charles Baudelaire me veio à mente por dois motivos. Em primeiro lugar, é um evento que se dá dentro de uma galeria comercial que tem como maior parte de seus diretores artistas com carreiras institucionalizadas. 



Didgeridoo
2014

Os novos trabalhos de Renata Cruz apresentados na exposição “Proposta para a atualização de uma enciclopédia” trazem, como seu título denuncia, essa lembrança do conhecer o mundo através da paginação, da imagem e do texto. A partir de seu encontro com um livro chamado “O mundo em que vivemos”, a artista se pergunta: por que não tomar esse mesmo título e refletir sobre aquilo que nos rodeia e nos invade diariamente?



Os meios do caminho
2014

Pode-se começar esse texto com uma citação advinda da cultura brasileira: “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Seria possível articular a poesia de Carlos Drummond de Andrade com a residência artística de Renata De Bonis na cidade de Skagaströnd, na Islândia? De quais modos o “poeta das sete faces”, um dos pais da poesia do século XX no Brasil, poderia ir de encontro a esse país por vezes visto como ícone de tudo aquilo – gélido, pequenino e com montes brancos de neve – que seria destoante da imagem da brasilidade? Três são algumas das vias que podem conectar ambos na sua distância geográfica e histórica através dos mais recentes trabalhos da artista.



Cubo mágico
2014

Creio ser possível aproximar este objeto artístico da proposta da Sala A Contemporânea, onde também temos um cubo branco arquitetônico que foi ocupado por diferentes artistas que levaram ao público carioca pensamentos artísticos, linguagens e, por consequência, visões de mundo bem diversas. Um dado deve ser frisado aqui: nesta edição, o projeto ganhou um complemento de peso ao lado do nome da sala, a saber, “Brasil 2012/2013”. Não se trata, portanto, de tornar acessível nessa sala uma produção contemporânea qualquer, mas sim aquela que tem relação com essa palavra-chave de múltiplos significados, o Brasil.



“French fucking idiots” ou chocolate com castanhas de caju
2014

Essa espécie de ansiedade por marcos identitários faz com que exista em Bruges, na região falante do flamenco, um museu chamado “Frietmuseum”, o Museu das Fritas. O “French”, então, da língua inglesa, parece ser justificado através de uma utilização do termo pelos exércitos estadunidenses que chegaram à Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial. Ao provar a iguaria local, por estarem baseados na região francófona do país, eles teriam associado a culinária à língua francesa e, voilà, “the French fries”. 


Complexo/simples
2013

Talvez um bom modo de começar esse texto seja a partir do trabalho de Marcos Chaves, artista convidado da exposição “Travessias”, realizada entre 13 de abril e 23 de junho, no Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro. O artista se utilizou da nona passarela da Avenida Brasil, uma das rodovias mais movimentadas e engarrafadas da cidade, além de uma das responsáveis por unir o centro do Rio de Janeiro ao subúrbio. Foram pendurados dois grandes tecidos com frases: de um lado se lia “Amarécomplexo”, enquanto do outro lado, no nosso suposto retorno, se podia ler “Amarésimples”.


Entre a areia e o mar
2013

Adultos, crianças, mortes, nascimentos, mulheres vestindo hijabs, sinagogas, viagens, natureza, produtos de consumo, guerras; diversas temáticas são cortadas e harmonizadas audiovisualmente pelas mãos da artista. Trata-se de um registro, de um arquivo do jornal que, em sua essência, também arquiva fatos e fotos de um dado momento da História de uma nação, uma cidade ou mesmo, com agá minúsculo, da história de um indivíduo. Vídeo-arquivo não só do estático, mas também do cinema e da televisão, visto que em alguns momentos Leila Danziger volta sua lente para telas com imagens em movimento.



Histórias circulares
2013

Do mesmo modo que mapas se modificam de acordo com as expansões geográficas e novas técnicas de rastreamento e criação de imagem, as apreensões sobre espaços que não são tidos como as raízes de narradores, ou seja, o lugar do “outro”, ganham diferentes tons. Daniel de Roo em seu trabalho “Detour” se apropria de parte da literatura de Hans Staden, famoso viajante do século XVI que, longe de se encaixar na imagem dos naturalistas que posteriormente chegam ao Brasil, vem em busca de fortuna e, por que não, aventura.


Jaguar preto
2013

Há também aqueles felinos que, talvez como Narciso, desejam um autoconhecimento através de uma abertura a uma ideia de “inesperado” talvez não encontrada no Brasil. Mais próximos da figura emblemática de um marinheiro, viajam para rever seus próprios traumas e fazem de suas frágeis âncoras seus divãs. Suas vidas não tem roteiro, mas, como qualquer biografia, é impossível apagar o passado – seja a falta de uma irmã em “Elena”, a saudade da mãe em “Terra estrangeira” ou a entrega quase juvenil à letargia em “Paraísos artificiais”.



Raízes
2013

Um dos trabalhos produzidos por Alice Quaresma durante seu período de residência no Barracão Maravilha é intitulado "Meu canto no mundo". Através de sua lente fotográfica, responsável pela aproximação e distanciamento daquilo que nos cerca, um objeto sem cantos, circular, a artista se pôs a revisitar lugares e interiores que marcaram sua biografia no Rio de Janeiro.


Entrevista com Berna Reale
2013

“Eu penso que arte não necessariamente tenha que ter um compromisso com a verdade. Temos artistas maravilhosos que abordam outro viés, penso sim que o artista tem que ser sincero com o que faz, verdadeiro, isso sim, penso que só comprometido com seu objetivo o artista é capaz de alcançar as pessoas, quer seja falando do passado, presente ou tecendo relações ficcionais”.

Temporão
2013

O movimento parece ser um dos motes da presente exposição de Nena Balthar. Em torno das paredes da galeria, numa ocupação do espaço que toma das bordas do teto até, literalmente, o chão (numa dobradura fictícia do branco desse cubo), está ladeada uma extensa série de desenhos. Como seu próprio título, “Um desenho para cada dia” diz respeito a uma produção de imagens que tem relação com aquilo que já se sucedeu, a saber, o ano de 2012.


Cinzas
2013

Na série “Rua Belgrado”, que o artista realiza desde 2000, o espectador é enfrentado por telas de grandes dimensões, ultrapassando os dois metros de extensão. Utilizando matérias como o óleo aplicado diretamente sobre a tela, betume e carvão, temos construções formais que poderiam ser rapidamente rotuladas por “abstracionismo geométrico”, mas cujo dado mais importante para ser a sutil pesquisa cromática. Tal qual em Beckett, Climachauska parece preocupado com os limites entre o preto e o cinza, ou seja, qual o lugar do supracitado “preto claro”?



Usos da fotografia
2013

Logo na entrada das salas, o trabalho de Pedro Motta recebia o espectador. Sabendo que ele foi o vencedor dessa edição do prêmio, o público tinha um contato já mediado por uma coroa de louros e se debruçava sobre as obras de modo mais crítico. Nascido no Brasil, as imagens criadas por Motta versam sobre a apreensão da paisagem. Não se trata, curiosamente, de um trabalho em que a linguagem fotográfica se coloca no lugar de uma mera documentação do mundo; pelo contrário, me parece que seu trabalho ganha na dimensão em que é capaz de se utilizar de fotografia somada ao desenho e apropriação daquilo que ele registra com sua lente.



Pianinho
2013

Essa exposição é, portanto, um convite ao público para, adaptando as palavras da cantora Tulipa Ruiz, “martelar o tempo para se ficar mais pianinho”. Em diálogo com o próprio título dessa composição (“Efêmera”), é possível dizer que os trabalhos de autoria de Bete Esteves e Leandra Espírito Santo reunidos aqui versam sobre a passagem do tempo através de diferentes pontos de vista. Não creio se tratar de uma consciência do andar da carruagem da vida permeado por um tenebrismo propulsionado por uma culpa cristã; parece mais adequado se olhar para a areia de uma ampulheta (ou para o derreter de uma pedra de gelo) pela ótica da ironia, da nostalgia ou mesmo de uma certa potência de perversão típica da infância.

Redes de dormir
2013

Entre as imagens da alteridade e o assumir da vida através da potência da adversidade, a cultura brasileira vai balançando, em um eterno gerúndio, de cá para lá. Cultua-se o sono e a preguiça, do mesmo modo que são associados de modo pejorativo a algumas regiões do Brasil, especialmente aquelas próximas ao litoral, à vadiagem e malandragem do corpo sensual. Para o bem ou para o mal, é inegável seu lugar de destaque na construção de uma memória coletiva em que o banal gesto de fechar os olhos e se entregar a Morfeu é matéria-prima para a produção de imagens desde o momento do eurocêntrico ato de se destruir o manto que protegia as muitas redes que ocupavam essa extensão geográfica que ainda não se chamava Brasil.


Fita de contenção
2013

Entra-se no MAR pela cobertura. Antes de vermos qualquer exposição, somos convidados a fruir uma vista para a Baía de Guanabara. Visitantes anseiam por fotografias e armam seus sorrisos de cinco segundos. Enquanto isso, na outra ponta da cobertura, vemos um espaço esvaziado que, ao menos nos diversos dias em que visitei o museu, uma fita de contenção proibia de percorrê-lo em sua integridade. Chegando mais perto desta separação, temos o horizonte de um Rio de Janeiro desmatado e com resquícios de uma arquitetura abandonada sobre um morro.


Perpetuum mobile
2013

A proposta conceitual para a exposição "Sete" partiu do próprio convite feito pela Casamata, ou seja, ocupar este espaço por um período de sete dias. Inicialmente, o convite parecia contradizer os habituais prazos de duração de uma exposição, constituídos por algumas semanas em tentativa de prolongar a brevidade de qualquer evento desse tipo. Num segundo momento, a carga simbólica do n úmero de dias serviu como mote justamente para o oposto, a saber, uma celebração do efêmero.


Separar a cabeça do corpo
2013

A refletir sobre esse novo enquadramento urbanístico, o coletivo de artistas Opavivará!, sediado também no Rio de Janeiro, realizou uma intervenção na Praça Tiradentes em 2009. Intitulada “Pulacerca”, esta experiência artística se utilizava de objetos simples, mas com carga simbólica: escadas. Acorrentadas às grades de ferro que rodeavam a praça e pintadas de verde, elas permitiam que qualquer pessoa pudesse atravessar esse muro de ferro que impunha um limite entre ambiente de possível lazer e espaço de correria.



Amar olhar
2013

Talvez mais do que o amor pela arte e pela pintura (capaz de ecoar as referências aqui apontadas, mas ainda devedoras do rótulo “arte”), o trabalho de Luiz Zerbini fale sobre o amor pelo próprio olhar. Em um movimento pendular entre a ordem e o caos, entre o desenho e a cor, sua produção artística nos faz lembrar que a possibilidade da visão em si já é devedora de nosso amor.



Caspar Davir Friedrich e Edward Hopper: a melancolia na relação entre homem e natureza
2013

Não há mais espaço para a experiência. O homem está em um lugar, entronizado como as figuras de sua pintura acima analisada, Os observadores do mar e o que resta da natureza está em outro plano. A melancolia provém dessa solidão do homem. Já não há mais lugar para que ele consiga se recostar. Reconciliar-se não é possível nem mesmo no contato com o outro, que já não existe mais de forma sincera, pairando sobre todos a artificialidade, visível na construção dos corpos das figuras de Hopper, que mais parecem manequins, seja pela sua frieza física, seja pelos seus rostos meramente rascunhados e generalizantes.



Et in Iugoslavia ego
2013

Durante o processo de curadoria e programação da mostra “Cinema pós-iugoslavo”, poucas vezes pude me desviar da lembrança desses conceitos extraídos da história da arte clássica. Ao se partir do princípio de que aqui consideramos as produções feitas em territórios um dia considerados como Iugoslávia, ou seja, posteriores, no mínimo, à Guerra de Independência da Eslovênia, em 1991, é crível que a morte através do próprio conflito surja como tópico comum à maior parte destes filmes.



Sobre o livro “O ano do dragão”
2013

Essas são algumas das palavras escritas por Flavio-Shiró e compartilhadas em livro recém-publicado pela editora Contra Capa. Intitulado “O ano do dragão”, se trata de uma espécie de caderno de uma recente viagem de retorno realizada para seu país de origem, o Japão. Nascido em 1928, o artista chega ao Brasil, no estado do Pará, aos quatro anos de idade. Como diz o texto de orelha escrito por José Eduardo Meira de Vasconcellos, este se trata do quarto retorno feito pelo artista ao seu lugar de origem em uma trajetória que excede os oitenta anos.



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