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Mulambö todo de ouro


Mulambö
[23 de março de 2021]



Criado entre as cidades de Saquarema e São Gonçalo – entre a praia e o asfalto -, Mulambö experimenta com as artes visuais desde a adolescência. Estudando seu Ensino Médio no Colégio Pedro II, ali mesmo ele já fazia histórias em quadrinhos e ilustrações. Seu interesse girava em torno das possibilidades de criar narrativas a partir da imagem estática e, pouco a pouco, migrar do fazer manual para as possibilidades que a fotografia digital e a manipulação da imagem trazem.

Após estudar História por dois anos, o artista resolve migrar para o curso de Artes Visuais, mas sem deixar de lado aquilo que aprendeu: a pesquisa historiográfica, a capacidade de levantar documentos e pinçar fatos e figuras eclipsadas pelas narrativas hegemônicas no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. Enquanto isso, no âmbito de sua própria micro-história, Mulambö é parte de uma família que se dedica às escolas de samba – sua avó, Helma Dias, foi uma das diretoras do Acadêmicos do Sossego, escola de samba criada em 1969. Como ele próprio escreveu recentemente, “Eu não vivi o Sossego com minha vó do jeito que minha mãe, meus tios e primos viveram, mas foi com minha vó, que está tatuada no meu corpo, que aprendi a amar a escola que também está tatuada no meu corpo”. Vida e samba, portanto, se tornam um.



Em "Mulambö todo de ouro", o artista joga com o fato desta ser sua primeira exposição em uma galeria comercial; com uma trajetória institucional muito recente – sua primeira participação em exposição foi apenas há três anos -, o que significa o crescente interesse do mercado de arte em suas imagens? Quem compra essas obras? Qual o peso desse ouro que pinta o seu corpo e, logo, fará com que alguns de seus trabalhos saiam de sua posse e entrem no espaço privado de alguém que ele desconhece? Em quais coleções serão resguardadas? Quando surgirão em um leilão?

Essas questões são lançadas no ar, mas não explicitamente enquanto imagem ou mecanismo conceitual nos trabalhos mostrados. O ouro que vem desde o título da exposição surge aos nossos olhos por meio do uso constante em sua pesquisa de dourado e amarelo. No primeiro andar da exposição são reunidos diversos trabalhos onde ele dá prosseguimento a algo que já se tornou uma espécie de assinatura: o uso do papelão como suporte para a pintura. Pintadas em diferentes tamanhos, as imagens de Mulambö trazem algo de frágil e de apropriação que vai de encontro ao seu próprio nome artístico: a palavra “mulambo”, vinda de Angola durante o período colonial de escravidão negra e apropriada pelo português falado no Brasil, remete a alguém que usa roupas velhas e/ou é visto como sujo, maltrapilho. A partir do próprio nome com o qual resolveu se apropriar, Mulambö demonstra seu interesse pela produção de imagens que, de forma muito econômica quanto aos materiais, ecoam múltiplas camadas de histórias.





As figuras pinçadas por esses trabalhos trazem diferentes esferas daquilo que convencionamos considerar ser a “cultura carioca” ou, talvez, mais precisamente, as culturas do “subúrbio carioca” – o Carnaval, o candomblé, a vassoura de piaçava, as vértebras que compõem as relações familiares, os cordões e anéis dourados, o futebol e o samba. Ao jogar com esses ícones, Mulambö também joga com as múltiplas histórias que constituem não apenas a cidade, mas o Brasil. Eis uma matéria essencial para sua pesquisa: o tempo e sua capacidade de possibilitar ao público diferentes exercícios de imaginação.

No último andar da galeria, o tom da exposição é outro devido à escolha de materiais e à iluminação – se abaixo temos um ambiente solar, acima os pontos de luz lançados em apenas dois trabalhos contribuem com sua dramaticidade. O papelão sai de cena e Mulambö se arrisca a pintar sobre outras superfícies: uma pilha de pneus se transforma em um São Sebastião e um pedaço assimétrico de couro é o fundo para um agrupamento de corpos negros contornados por dourado.




Tal qual uma igreja, essas imagens nos convidam a uma contemplação mais silenciosa e meditativa, mas nunca despregada do presente – quem são esses homens que parecem marchar coletivamente? Uma manifestação, um desfile de escola de samba ou uma torcida de futebol? O que atingiu o corpo desse Sebastião? Balas de armas ou aquelas mesmas flechas tão presentes na iconografia cristã? Olhando por outro lado, até que ponto essa pilha de pneus também não remete à forma como algumas comunidades cariocas bloqueiam ruas e se defendem de ataques violentos da polícia militar? Ou então, não seria essa pilha de pneus uma lembrança de uma forma de tortura onde se queima uma pessoa viva presa a essa estrutura, o chamado “micro-ondas”?



É nesse jogo entre imagens e leituras possíveis que se movimenta o trabalho de Mulambö. Com um olhar extremamente afiado – e apenas no início de suas pesquisas e experimentações -, ele parece afirmar nessa exposição que pode estar pintado todo de ouro, mas que está longe de ser um tolo.


(texto relativo à exposição “Mulambö todo de ouro”, de Mulambö, na Portas Vilaseca Galeria, no Rio de Janeiro, entre 25 de março e 22 de maio)
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