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Tunga


[06 de novembro de 2018]


O artista visual Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga, faleceu em junho de 2016. Sua primeira exposição individual, “Museu da masturbação infantil”, foi realizada em 1974, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, quando tinha apenas vinte e dois anos. De lá para cá, foram centenas de participações em projetos organizados em diversos lugares do mundo.

Tunga participou ainda muito jovem do Pavilhão Brasiileiro na Bienal de Veneza (1982), da Bienal de Havana (1994), da Documenta de Kassel (1997) e teve sua primeira individual no MoMA em 2007. Ele foi o primeiro artista contemporâneo convidado a dialogar com a arquitetura do Louvre, em 2005. Com uma pesquisa extremamente peculiar na arte contemporânea no Brasil – capaz de cruzar elementos escultóricos, grandes escalas e um universo poético que pende entre o sonho e a fantasia –, sua obra foi admirada por agentes muito diferentes do sistema das artes visuais. Sua presença no cenário artístico brasileiro tinha um peso diferenciado devido a esse reconhecimento tanto interno, quanto internacional – aspecto raro quando comparamos o trânsito de outras artistas de sua própria geração.

Desde o seu falecimento, algumas instituições organizaram homenagens ao artista. Em 2016, por exemplo, o MAM Rio realizou uma grande coletiva de sua coleção intitulada “Em polvorosa”, parte do nome dos “Desenhos em polvorosa”, obra de Tunga dos anos 1990. Uma semana de homenagens também foi organizada por Inhotim, instituição que abriga grande número de suas obras e que tem um pavilhão dedicado inteiramente a ele. Já o Museu de Arte de São Paulo foi o primeiro museu do mundo a realizar uma retrospectiva de seus trabalhos em diálogo com o ciclo de exposições “Histórias da sexualidade”. Intitulada “O corpo em obras”, a mostra trazia diferentes trabalhos do artista para pensar a sua corporeidade.




Finalmente as homenagens e revisões da produção de Tunga chegam ao Rio de Janeiro por meio da primeira exposição antológica de sua obra após o seu falecimento. “O rigor da distração”, curadoria assinada por Evandro Salles e Luísa Duarte, abriu no último mês de junho, no Museu de Arte do Rio. Ocupando o espaço considerável do primeiro andar da instituição – com seus cerca de oitocentos metros quadrados -, se trata de um projeto que lançava luz sobre aspectos poucos explorados ou mesmo vistos dentro da produção do artista. Em outras palavras, no lugar de mostrar obras de grande escala e dramaticidade onde o tão estudado “barroco” das imagens de Tunga se vê de maneira explícita, os curadores optaram por selecionar obras mais silenciosas em que as dobras de sua pesquisa são observadas nos detalhes.

Esse interesse pelas sutilezas nos ajuda a compreender tanto a presença essencial dos desenhos na exposição, quanto o próprio discurso curatorial a respeito deles. Por mais que a mostra tenha sido anunciada como uma exposição que gire em torno dos desenhos feitos por Tunga – seja enquanto projetos para esculturas, seja enquanto experimentação gráfica – ao caminhar pelas duas salas se percebia a presença de diferentes linguagens e escalas. Porém, mesmo quando as obras tridimensionais possuíam escalas próximas ao grande, estas não eram monumentais e sempre traziam em si um desejo de minuciosidade semelhante ao percebido em seus desenhos sobre papel.

A expografia proposta pelos curadores endossava o espaço vazio entre as obras e contribuía com seu caráter silencioso. Desenhos dispostos em molduras de madeira, trabalhos feitos com tecido colocados diretamente na parede e, especialmente, vitrines para abrigar alguns de seus objetos escultóricos dão o suporte necessário para que as obras falem por contra própria. Interessante notar como essa maneira de expor os trabalhos vai em uma direção pouco habitual dentro da história das exposições do mesmo museu que por vezes pecam pelo excesso de informações textuais, obras e se aproximam de um horror vacui. Para nos aproximarmos desse aspecto da obra de Tunga, é preciso de tempo, de olhar mais de uma vez e de que os avizinhamentos de imagens sejam um pouco mais distantes, tal qual proposto com precisão nessa curadoria.



Plasticamente era interessante notar algumas constâncias por parte das mãos do artista – sejam os seus círculos e um diálogo de parte de sua produção com uma certa abstração orgânica e com um tom ligeiramente transcendental, sejam as imagens que se relacionam com o corpo humano geralmente dilacerado. Dentes, formas que lembram membros humanos ou o sexo representado em desenhos vermelhos – as imagens de Tunga conseguem apresentar visceralidade mesmo quando estão contidas em uma folha A4. Estamos perante os elementos fulcrais de sua pesquisa e nos cabe enquanto público estabelecer suas conexões.

Por fim, após observarmos as obras gráficas e escultóricas na mostra, as produções em fotografia e vídeo se apresentavam essenciais para perceber pontos de contato entre diferentes linguagens. Interessante notar como, após circular pela exposição, observamos o registro da ação “Xipófagas capilares” (1984) – possivelmente uma das obras mais conhecidas de Tunga – fotografadas por Wilton Montenegro, de outra maneira. A junção do cabelo dessas irmãs gêmeas é vista também como desenho e pode ser conectada facilmente a junções vistas em obras gráficas, em vídeos e mesmo, mais literalmente, nos objetos-tranças.



“O rigor da distração” foi uma oportunidade ímpar de de se ver tantas obras de Tunga no mesmo espaço expositivo. Devido à sua projeção internacional e seu crescente valor de mercado, certamente essas obras irão se distribuir por coleções em diferentes pontos do mundo. Quando teremos a oportunidade de vermos essas séries em um mesmo espaço institucional no Rio de Janeiro? Talvez nunca mais. Perdemos nós enquanto público – especialmente nesse momento histórico em que combinar rigor com distração se faz essencial.


(publicado originalmente na edição de dezembro-fevereiro da revista ArtNexus)

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