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Trabalhar cansa


André Arçari
[27 de setembro de 2019]



Quando André Arçari elege “Trabalhar cansa” como título desta exposição, o faz consciente não apenas de seu aspecto enquanto citação, mas também de sua carga simbólica. As palavras “trabalho” e “cansaço” podem ser facilmente relacionadas; quando colocadas lado a lado enquanto verbos se tornam indissociáveis. Em tempos de olhos hiperestimulados não apenas por atividades profissionais, mas pela nossa constante exposição a informações e imagens, se tornam um convite inevitável à reflexão.

A mesma frase está contida no título do primeiro livro publicado em 1936 pelo escritor italiano Cesare Pavese, e cuja tradução no Brasil veio a público em 2010. “Trabalhar cansa” se configura como um de seus poucos trabalhos em poesia. Os versos do poema que intitula a publicação descrevem não exatamente um ambiente de trabalho, mas o que seria uma cena em um centro urbano. O autor pergunta “Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?” e descreve uma paisagem tomada mais por sombras do que por luzes onde os humanos parecem mais vagar do que caminhar; uma imagem de Goeldi certamente faria boa companhia às suas frases.

O olhar impresso por Arçari nesta exposição se desvia de sua pesquisa recorrente sobre a metalinguagem, a edição e a apropriação de material fílmico e se aproxima de algumas questões vistas na exposição “Wabi-Sabi” (2014): a matéria, a memória e o tempo. Mais do que uma reflexão sobre o trabalho humano, as imagens aqui reunidas giram em torno da equação entre indivíduo e natureza, entre ação do corpo e reação do campo – a domesticação e apropriação da natureza por meio do estudo detalhado de uma fazenda de café.



Não cabe me deter aqui sobre sua história, mas é importante lembrar que o café é fruto e produto essencial para a constituição do que poderíamos chamar de uma identidade brasileira. Responsável por lucros e crises econômicas, migrações e diásporas, o líquido preto que vem de seu contato com a água é essencial para qualquer classe econômica no país. Arçari se deteve no processo de trabalho físico e industrial por trás da feitura desse alimento que, devido ao seu caráter quimicamente estimulante, é consumido como uma espécie de tônico energizante que prepara para jornadas de trabalho. Em outras palavras, qual o trabalho por trás do líquido que impulsiona mais trabalho?

Há um contraste entre as atividades braçais que são a base da indústria cafeeira e as mídias com as quais o artista tem experimentado de forma sistemática nos últimos anos – a fotografia e o vídeo. Se essas técnicas apontam para a aceleração digital das relações humanas, o plantio do café ainda dá prosseguimento à relação ancestral entre humanidade e terra. Os registros realizados pelo artista não têm cunho sociológico; seu interesse não está nas relações de trabalho, mas na possibilidade de congelar imagens de seu entorno. O corpo humano, portanto, não é o elemento central de suas imagens, mas um dos componentes. Sua atenção é distribuída entre os diversos elementos que compõem o ciclo e o espaço da produção do café – dos frutos aos grãos, do fogo de sua torra à fumaça das chaminés, do verde das folhas às secas que tem abatido o estado do Espírito Santo nos últimos anos.



Estas fotografias de Arçari são uma espécie de decupagem do ambiente de trabalho cafeeiro. São fragmentos de atividades que se repetem diariamente e que são regidas não apenas pelo desejo humano, mas pelos próprios limites oferecidos pela natureza. Algo semelhante pode ser percebido nos seus vídeos também apresentados. “Terra dura” (2017) traz um olhar dirigido para o campo e tem sua estrutura narrativa pautada na leitura de trechos de poemas de Cesare Pavese. Já em “O homem é uma máquina na mão da terra” – que estreia na exposição – três televisores instalados em paredes diferentes trazem fragmentos do processo de uma pequena indústria de extração do café. Se o espaço une esses trabalhos, suas narrativas são abertas; a sequência temporal entre as imagens não se apresenta de maneira óbvia e estas imagens de diferentes escalas, durações e impressões convidam o público a ligar os seus pontos.



No centro do espaço expositivo, o trabalho “A luta soterrada”: uma casa de madeira repousa numa base que é forrada por um pó marrom – o solo desse lar é o café. Da terra vem o café e o trabalho e é para essa mesma terra que irão os corpos cansados. De forma análoga, na pesquisa de André Arçari, visitar a temática do café é olhar para a narrativa de sua própria família – histórias de imigração, histórias de trabalho e, claro, histórias de cansaço. “Trabalhar cansa”, mas esta exposição versa mais sobre certa melancolia latente nos versos de Pavese: eis imagens que nascem da repetição, das sombras e da incerteza quanto ao que a natureza nos reserva.

Trabalhar cansa – viver também.


(texto curatorial da exposição "Trabalhar cansa", de André Arçari, realizada na Galeria de Arte Espaço Universitário, em Vitória, entre os 27 de setembro e 08 de novembro)
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