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Oxalá que dê bom tempo


Regina Vater
[26 de dezembro de 2017]


Esta exposição é uma celebração aos mais de cinquenta anos de percurso da artista visual Regina Vater. Nascida no Rio de Janeiro, ela pôde viver por curtos períodos - devido a prêmios e bolsas – em lugares tão diferentes como São Paulo, Nova Iorque, Paris e a cidade de Austin, capital do estado norte-americano do Texas, onde residiu a partir de 1986. Em 2012, ao lar retornou e, desde então vive na Região dos Lagos.

Cinquenta anos não são cinquenta dias – tentar resumir a pesquisa de Regina Vater em um texto curto ou em uma única exposição se trata de tarefa impossível. De toda maneira, essa reunião de seus trabalhos se trata de uma oportunidade ímpar de trazer ao público do MAC-Niterói obras que, em sua maioria, nunca foram mostradas no Brasil.

Foram selecionados trabalhos de diferentes momentos de seu percurso – desde os anos 1960 e suas primeiras imagens no campo da pintura e da serigrafia com tons tropicalistas até fotografias recentes que denotam seu crescente interesse na criação de narrativas com séries de imagens. O vídeo, tecnologia explorada de diferentes maneiras em sua trajetória, também se faz presente, assim como um conjunto de instalações e objetos que são exemplos de seu interesse na tridimensionalidade e na utilização de materiais orgânicos.




Constantes são os seus interesses na relação entre a humanidade e a natureza através da equação entre o seu corpo, a paisagem e os espaços sociais que a circundam. Daí advém, por exemplo, algumas de suas reflexões sobre as construções culturais em torno do corpo feminino. Não podemos nos esquecer de seu protagonismo junto a toda uma geração de artistas mulheres brasileiras que conquistou o seu espaço institucional, viajou, debateu e perseverou em um circuito ainda tão dominado por homens.

O modo como Regina Vater pesquisa esses tópicos e os desenvolve visualmente nunca se construiu de maneira panfletária ou por meio de imagens monocórdicas. É parte importante na sua criação a presença de visualidades que mais sugerem do que afirmam categoricamente algo. Mais do que isso, parece percorrer a sua produção uma inquietude espiritual e existencial que é afeita a uma busca por vezes solitária da harmonia entre ser humano, a vida e a passagem do tempo.




Devido a esse aspecto de sua obra, optamos por intitular a exposição por “Oxalá que dê bom tempo”, nome de uma instalação montada na década de 1990 e que ganhou nova forma nessa curadoria. A palavra “oxalá”, advinda do árabe, significa “se Deus quiser” – ou seja, “se Deus quiser, que dê bom tempo”.

Cremos que a abertura de interpretações dessa frase é bem-vinda – cada espectador pode pensar numa divindade diferente. Independentemente de sua crença, fica o convite, junto a Regina Vater, para que bons tempos de diálogo, escuta e harmonia possam chegar logo não apenas para nós e nossos entes próximos, mas também em uma esfera global.


(texto curatorial escrito com Pablo León de la Barra e relativo à exposição "Oxalá que dê bom tempo", de Regina Vater, realizada no MAC-Niterói entre 21 de outubro e 08 de fevereiro)
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