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Dan Coopey
[09 de novembro de 2019]



Em entrevista realizada em 2017, Dan Coopey conversa com Fernanda Brenner a respeito de seus trabalhos recentes e admite a importância da passagem do tempo em sua produção: “Eu fico muito impaciente para ver meus trabalhos no período de dez anos, pois sou muito consciente sobre como o vime que uso envelhecerá e sua cor se aprofundará com o tempo”.1 Gosto de refletir sobre a pesquisa do artista a partir dessa equação entre a materialidade e o peso do tempo.

Quando observamos alguns de seus trabalhos do começo dos anos 2010 esse interesse se faz presente pelo uso de diferentes materiais e formas de exibição. Uma série de trabalhos de 2013 parte de moedas milenares e explora seus diferentes padrões de textura por meio da fotografia. Há aí uma interessante conexão entre um objeto antigo com valor comercial e as maneiras como a tecnologia fotográfica pode não apenas documentar, mas criar imagens ficcionais a partir de sua superfície. Já em 2014, chapas de cobre oxidadas são gravadas pelo artista e emolduradas. As formas impressas na matéria se misturam com manchas da oxidação que geram formas abstratas onde não há separação entre figura e fundo. Não precisamos esperar dez anos para notar a ação do tempo nesses trabalhos; essa parece a condição primeira para a sua existência – do estranhamento de um objeto arqueológico à associação entre matéria e reação química, do metal funcional das moedas ao metal planificado minimalista.

Desde 2015, Dan Coopey trabalha com a tecnologia da cestaria; com a experimentação, novas lições sobre o tempo são tanto aprendidas pelo artista quanto compartilhadas com o público. Na exposição Lalahalaha, na Belmacz Gallery, em Londres, seus objetos são apoiados em pinos de madeira na parede e se diferenciam do caráter utilitário tradicional da prática ancestral da cestaria; sua trama não está tecida para ser a base de transporte de outros objetos. De toda maneira, dentro de cada uma dessas peças havia um objeto escondido – uma provocação ao uso habitual das cestas? Para descobri-los seria necessário destruir a estrutura tecida por Coopey. Ao evitarmos a sua destruição, lemos a identificação de seu conteúdo e acreditamos na palavra do artista. Mostrados um ao lado do outro e de forma irregular, esses objetos possuem pontas, orifícios e encaixes que rapidamente podem ser vistos tanto em relação ao corpo humano quanto em uma chave mais abstrata. Na ausência de uma mensagem explícita por parte do artista, nosso olhar pousa sobre a maneira como as cores se disseminam pela sua superfície e nos levam a um fantasma de arco-íris.




Já em Dry – sua exposição individual de 2017 na Kubikgallery, no Porto, em Portugal – seis cestos são mostrados lado a lado de forma mais simétrica. A aplicação de cores é deixada de lado e nosso olhar se detém sobre as cores que emanam naturalmente do tipo de vime escolhido. Esse exercício de observação é essencial: dependendo de como as tramas são executadas na cestaria, a presença da cor se difere no contraste com o branco da parede ao fundo. Dessa maneira, uma característica central ao trabalho de Coopey é notada: um objeto nunca será igual a outro. Mesmo que esses seis trabalhos remetam a uma forma cilíndrica, cada um de seus formatos será diferente e trará ao público sutilezas específicas. Esse me parece um aspecto importante da relação entre o artista, o artesanato e o tempo: cada fazer é um fazer, cada objeto é um objeto, cada entrelaçar de material é uma experiência única. Quando Dan Cooper dá tempo ao tempo, seu corpo se abre aos acasos do ato de trançar – o que poderia ser um erro para uma cesta com uso utilitário, na pesquisa do artista se transforma em desenhos e texturas dignos de atenção.

No mesmo ano, no Pivô, em São Paulo, o artista continua e expande essa pesquisa na individual Interiors. Aqui os cestos são mostrados em forma de cacho, presos por linhas diretamente na parede e dando espaço a uma montagem mais informal. Diferentes materiais são misturados na mesma peça; o vime é acompanhado por materiais orgânicos e industriais encontrados em diferentes regiões do Brasil. Ao lado desses objetos, um outro trabalho já indicava outra linha de pesquisa: vários recipientes plásticos são simplesmente empilhados. O caráter industrial do plástico faz um contraste não apenas material com os cestos, mas também da cor – essa paleta de cores artificiais de alguma maneira se irmana com os tons naturais entre o bege e a terra dos cestos. Há uma ironia nessa torre de plásticos: o último deles traz uma etiqueta onde se lê “made in Brazil”.

Na mesma entrevista realizada com Brenner, o artista comenta um pouco a respeito de parte do público que associa o seu trabalho à produção de arte contemporânea de artistas brasileiros.2 A que se deve essa associação? Poderíamos, me parece, facilmente aproximar sua pesquisa ao trabalho de artistas brasileiros muito interessados, cada um à sua maneira, nos atos de compor e decompor a partir de formas industriais ou artesanais – Sonia Gomes, Alexandre da Cunha, Felipe Barbosa, Mano Penalva, Marepe e Marcone Moreira seriam apenas alguns desses nomes. O que chama atenção no caso de Coopey é que de nenhuma maneira seus trabalhos criam relações explícitas com o Brasil – seja por seus títulos, seja pela maneira como se apresentam formalmente. Trata-se de uma trajetória que certamente se interessou em pesquisar fazeres e materiais encontrados no país, mas que tanto recusa o discurso de um pertencimento identitário ao Brasil quanto, também, nega um olhar estrangeiro exotizante a respeito do país.

Essas breves reflexões sobre o percurso de Dan Coopey me parecem importantes para estabelecer conexões com o projeto que o artista apresenta de maneira inédita na Galeria Estação. Esta exposição está baseada em três grandes séries de trabalhos: uma que dá continuidade ao seu fazer com a cestaria; e outras duas onde o artista se apropria de objetos já fabricados – séries de lápis e caixas de fósforos.




Quando vemos as imagens dos cestos montados no espaço, dois elementos chamam atenção. As formas orgânicas e fechadas dos objetos produzidos anteriormente dão espaço a um caráter mais indefinido. Voltando à relação entre o tempo e o fazer, é como se o artista convidasse o público a completar as tramas que pendem ainda como fios desses objetos. Por outra leitura, também podemos encará-los assumindo que essas peças não possuem mais segredos dentro de si; elas são o que são, fios parcialmente trançados como estrutura e parcialmente apresentados enquanto matéria. Suas estruturas não são rígidas; trançados em materiais tão diferentes como o sisal, o papel, fibra de banana e os cordões de plástico, seus tamanhos, cores e curvas se movimentam de acordo com os limites da matéria. Quando adentramos o espaço da galeria, notamos essa dança silenciosa das formas. Esse aspecto da fruição dessa nova série de trabalhos é corroborado pelo segundo elemento contrastante com suas montagens anteriores: a saída da parede para o centro. Içados de um carretel de corda, esses objetos pendem no ar e irão se mover lentamente de acordo com o movimento do público.

Enquanto isso, as outras duas séries de trabalhos aqui mostradas dão continuidade tanto ao uso de objetos industriais por parte do artista quanto, também, a uma apreensão do tempo semelhante à deseus primeiros trabalhos. Após circular por diversas feiras de objetos usados em São Paulo, Coopey adquiriu uma série de lápis e caixas de fósforos produzidos durante os anos 1930 e 1940 no Brasil. O que une essas séries de objetos é algo que pode soar inusitado para um olhar contemporâneo: nos lápis e nas caixas de fósforos havia um espaço publicitário que poderia ser comprado e nele diferentes empresas imprimiam suas publicidades e logomarcas.

Dispostos na parede e em diálogo com os cestos no centro do espaço, um primeiro olhar poderá se deter sobre o cromatismo desses lápis. Quando nosso corpo se aproxima desses trabalhos, múltiplas narrativas se apresentam devido à relação entre os textos ali impressos e as imagens mentais que podem ser criadas. Casa Aliança Bancária, Transportadora Mayer, Bar Restaurante e Sorveteria Rodoviário e Armazém Elite, por exemplo, estão um acima do outro e nos levam para uma temporalidade em que a tipografia e a impressão em papel eram os principais meios de divulgação de um produto ou estabelecimento. Um dos trabalhos mostra uma série de lápis com a divulgação da Passoquinha Paulista. Logo abaixo a frase que poderia ter sido extraída de um meme contemporâneo: “sempre invejada nunca igualada”.




Possuir orçamento para investir em marketing nesse período da história era, certamente, algo digno de inveja entre empresários. É irônico e ao mesmo tempo perverso percebermos que o objeto utilizado para fazer propaganda de um produto era justamente o lápis, ferramenta essencial não apenas da escrita, mas também do desenho e disseminada não só entre os trabalhadores, mas especialmente no ambiente escolar. Desde pequena, portanto, uma criança poderia estar rodeada por mensagens alusivas ao consumo – algo distante, mas certamente dialógico com as múltiplas abas e imagens que nos deixam hiperestimulados nos nossos pequenos computadores com espelhos pretos.

Algo semelhante pode ser afirmado sobre os trabalhos feitos com caixas de fósforos, mas estas narrativas estão para além dos nomes das marcas. Coopey abre esses objetos e os coloca lado a lado fazendo uma colagem de suas imagens publicitárias. Desejos de boas festas, promoções, tipografias das mais variadas e imagens de corpos humanos ficam um ao lado do outro, levemente sobrepostos. Encostados na parede, os fósforos de diversas cores formam uma espécie de círculo cromático incompleto. Esses novos trabalhos do artista, portanto, não deixam de também fazer um comentário sobre a própria história de São Paulo e sua posição central na história do capitalismo e da industrialização no Brasil.

Esta exposição me parece tornar possível perceber o lugar central que o tempo ocupa na produção de Dan Coopey. Isso se dá não apenas no seu interesse pelo fazer ancestral da cestaria, mas também na maneira como o artista discretamente cria tramas com objetos e imagens de diferentes temporalidades. Um olho explora os mistérios da organicidade de um material frágil e efêmero, ao passo que o outro manipula objetos que desejavam a vida eterna e que já podem ser vistos como ruínas.

Entre um e outro olhar, algo em comum: uma indagação a respeito da permanência.


(texto escrito para a exposição “Sunday”, de Dan Coopey, na Galeria Estação, em São Paulo, entre 09 de novembro e 14 de dezembro)
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