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Suturas


Raquel Nava
[15 de maio de 2017]


Desde que a exposição de Raquel Nava teve sua montagem finalizada, um elemento me surpreendeu: a presença da cor nas suas composições. Mesmo com suas imagens perante os olhos nos últimos meses, nada se comparou ao efeito de ver estas fotografias impressas em tamanhos diferentes e em diálogo espacial com os objetos apresentados. Saímos do campo da projeção virtual e entramos na esfera do embate entre seus trabalhos e o corpo do espectador.

Ao caminhar pela galeria são perceptíveis alguns rebatimentos de cores entre as imagens bidimensionais e as esculturas. Os fundos de algumas fotografias encontram parentesco com elementos de suas “Pezuñas” logo na entrada, assim como os fundos mais próximos ao branco dialogam com as manchas na obra ao centro. Essa escolha de cores está longe de ser aleatória e responde ao desejo da artista de estabelecer associações com elementos da cultura visual kitsch.

Seus tons de amarelo, azul e verde são mais próximos da fluorescência das tintas industriais dos carros e objetos de plástico do que da imitação do cromatismo dos fenômenos naturais. Encontramos um eco desse uso da cor em suas investigações no campo da pintura; basta olharmos para suas telas – talvez a linguagem mais explorada por Raquel antes de suas experiências com as mídias aqui apresentadas – para voltarmos a olhar suas fotografias e percebermos detalhes compositivos que confirmam sua inteligência cromática e capacidade de criar imagens potentes a partir de elementos precisos.




Este círculo cromático leva a outro elemento importante para a sua pesquisa: a utilização de objetos e materiais orgânicos como a materialidade de seus trabalhos. Poderíamos recorrer rapidamente ao cancioneiro popular brasileiro e dizer que “as flores de plástico não morrem”; elas não deixam de perecer por uma imortalidade transcendental, mas por serem feitas desse material, o plástico, e, portanto, na verdade nunca terem vivido. Em outras palavras, creio que sua pesquisa se caracteriza por um olhar generoso perante a morte, a inércia dos corpos e, talvez mais importante do que esses elementos, um elogio à própria ausência de sentido (o nonsense) com a qual a experiência da vida é embebida.

Raquel, portanto, opera (literalmente) a partir desses pedaços de animais de diferentes espécies, em especial aqueles que se encontram na barreira entre o doméstico e o silvestre. Macacos, coelhos, jacarés, ratos e vacas são recodificados e, ladeados nas fotografias ou costurados junto a outras peças, geram novos corpos estranhos. Do mesmo modo que a humanidade foi capaz de criar objetos de encaixe com finalidades utilitárias, a artista cria novas disposições com as finalidades únicas da contemplação e reflexão filosófica.

Quando fotografados, esses objetos se apresentam ao olhar do público de modo sedutor. Geralmente colocados sobre mesas, parecem peças publicitárias que incentivam ao consumo de algo que não sabemos exatamente o que é. Um olhar atento notará, porém, pequenas oposições semânticas nesses mostruários. Em uma fotografia, dois crânios de roedores estão ao lado de plantas de plástico. Logo abaixo, uma superfície metálica nos deixa entrever a toalha que cobre a mesa. As rosas que estampam essa toalha são as mesmas que aparecem na imagem em que um pote plástico é fechado com um casco de tartaruga, assim como outra foto em que a cabeça de um jacaré recebe a sobreposição de uma fita métrica.



Em todo momento há uma oposição entre elementos extraídos da natureza e convertidos em objetos de contemplação (como troféus de caça), e, por outro lado, objetos industriais que imitam algo orgânico ou possuem parte de sua estrutura também retirada da natureza. O mesmo pode ser observado nas “Pezuñas”, pequenos objetos da artista que tem como base as patas de vaca. Pequenas colunas feitas com recipientes de madeira e metal dão o desenho linear dessas formas e, ao serem mostradas em número quatro, levam os observadores mais fantasiosos à lembrança do animal que um dia vivo foi a origem de cada uma dessas peças. Nesses trabalhos, portanto, assim como nas fotografias, a artista sugere uma justaposição de diferenças que faz com que as imagens portem esse encontro entre mistério e humor, reforçando sua banalidade, mas ao mesmo tempo sendo um receptáculo de narrativas por parte do público.

Por fim, a obra que se encontra ao centro da sala, a instalação “Pausa”, apresenta uma narrativa a partir da sugestão de pequenas ações e traz ao público uma faceta complementar de sua produção. Sobre uma velha poltrona, uma cobra parece observar atenta algo à sua frente. Acima de um tapete de pele de vaca, um rato parece tomar leite de modo despreocupado. Trata-se da imagem do momento anterior a um assassinato, já que tudo parece indicar que a cobra se moverá e abocanhará aquele pobre rato – porém todos já estão mortos e fadados à sua inércia.



Novamente a rede de relações orgânicas e culturais entre os materiais é dada: a vaca aparece como um tapete, mas poderíamos afirmar que o leite e a manteiga que também estão na obra e consumimos diariamente são efetivamente extraídos de matéria animal? Quais os limites para a relação entre a indústria e a ordem própria da natureza na contemporaneidade? Até que ponto as contaminações entre ambos os lados são reversíveis?

Enquanto lanço essas questões e tento circundar imagens que são mais desafiadoras do que minha escrita, tenho certeza de que a artista está a pensar em outras maneiras de suturar objetos e lança-los ao olhar e imaginação do público. Ao passo que minha construção de sentido se dá através de um esforço linear textual, a da artista se estabelece do encontro muitas vezes abrupto com materiais, cores e carcaças.

Lembrando de outra peça do cancioneiro popular brasileiro, eis Raquel Nava em seu lugar a fiar novas imagens e à espera de que o público “faça mal” a elas – ou seja, busque, assim como fiz aqui, divagações que encontrem sentido em algo cuja potência está exatamente na ausência de uma única leitura. Continuemos atentos às suas costuras e aguardemos as futuras visitas a outros gabinetes de curiosidades propostos pela artista.


(texto curatorial relativo à exposição "Suturas", realizada na Portas Vilaseca Galeria, no Rio de Janeiro, entre os dias 5 de março e 28 de abril de 2017)
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