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Eco eco eco


Augusto Fonseca
[30 de maio de 2019]


Há diversas versões para as narrativas que envolvem Eco e Narciso. Possivelmente a mais conhecida, disseminada pelas “Metamorfoses”, de Ovídio, relata que Eco era uma ninfa grega que, por ciúmes, foi castigada por Hera, esposa de Zeus: ela seria capaz apenas de repetir as últimas palavras ditas por outros. Um dia ela cruza o caminho de Narciso, belo jovem cortejado por todas e todos. Contemplando sua imagem em um lago, ele começa a entoar uma conversa e apenas as últimas palavras de suas frases são repetidas – era a voz de Eco. Seduzido não apenas por suas próprias palavras, mas pela sua imagem, no lago definha hipnotizado.

Augusto Fonseca recodifica essa narrativa greco-romana em sua mais recente exposição individual. Seu interesse é indicado não apenas pelo título “Tudo é eco no universo”, mas especialmente pela série nova de trabalhos chamada de “Homo narcissus”. Seu Narciso, porém, foi dissecado por suas mãos e está pronto para os olhos do público; seu nome surge em latim e adota o formato típico das espécies científicas. Eis o seu “homem narcísico”.

Circundados pelo branco do papel, tal qual a tradição clássica dos desenhos de anatomia, o artista nos apresenta um conjunto de corpos, todos masculinos – reflexo narcísico do próprio autor? As imagens são tanto de ossos, músculos e órgãos, quanto de pele, rosto e superfície dessas figuras. Ao topo das folhas de papel, pequenas identificações textuais dão o tom de catalogação fictícia do conjunto. A riqueza de detalhes das aquarelas é proporcional ao desejo de controle por parte não apenas do artista, mas da humanidade. Aparentemente retiradas de livros históricos de medicina, ao olharmos com atenção notamos que essas composições reúnem aquilo que os corpos humanos tem de mais admirado e temido.



Há algo nessas anatomias que não se encaixa nas concepções cartesianas de corpo humano. Surgem, como detalhes, representações de diversas partes das flores de Narciso que nos lembram a impossibilidade de controlar algo em processo de mutação tão contínua como o corpo humano – há sempre espaço para os corpos estranhos. O olhar do artista se interessa pelos sutis desvios que poderiam configurar que esses corpos estão doentes – mas seriam esses corpos realmente humanos? Quais os limites entre o humano e vegetal, entre o humano e o animal? Faz sentido diferenciarmos tão racionalmente cada uma dessas espécies?

Em diálogo com essa série, outro trabalho do artista se relaciona com uma diferente tradição da cultura visual ocidental - as pinturas históricas que representam Narciso. Ao citar a representação dessa narrativa feita por Caravaggio em 1597-99, ele resolve excluir o reflexo do personagem e substitui-lo por círculos, pinceladas e formas que conversam com a história da abstração pictórica. Talvez, na verdade, o artista esteja comentando que ao olharmos para o Narciso transformado em pintura, mais do que adaptar um texto, ele esteja sempre a comentar o seu estatuto de pintura. Existiria algo mais narcísico do que continuar pintando? Há pintura que não cite e incite a própria pintura?

Aproveitando-se da arquitetura intimista da Casa Fiat de Cultura, o artista estrutura a exposição em um número bem pensado de obras nas paredes e, ao fundo, a utilização de um espelho. O público, portanto, pode ter a sua própria experiência narcísica no espaço e pode ver as obras ao seu redor por meio do reflexo. Há algo nessa opção de desenho expográfico – e também das imagens mostradas – que faz com que a aparência geral da exposição remeta a um pequeno gabinete de curiosidades.



O interesse de Augusto Fonseca pelo corpo humano é visível não apenas aqui, mas em trabalhos anteriores no campo de uma pintura mais pop, como na série “Walk me home” (2015) ou nas fotografias mais recentes e politizadas da série “Capitalismo artista” (2017). Nessa nova exposição, porém, as imagens parecem ter o silêncio e precisão formal dos seus últimos trabalhos, mas envoltos em uma justaposição de elementos dissonantes vistos no começo do seu percurso.

Entre esses dois campos, sua pesquisa recente parece ecoar uma certa potência de memento mori: ao olhar essas imagens nos lembramos da morte. Entretanto, enquanto ela não chega, nos debruçar sobre essas imagens e nos entregar ao ato contemplativo narcísico da pintura não é um pecado. Escutemos o eco dessas imagens.


(texto relativo à exposição “Tudo é eco no universo”, de Augusto Fonseca, na Casa FIAT de Cultura, em Belo Horizonte, entre 30 de maio e 21 de julho)
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