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Adelina Gomes


[04 de março de 2021]



Conheci o trabalho de Adelina Gomes pelo cinema – precisamente com o filme “Imagens do Inconsciente”, obra-prima de Leon Hirszman filmada entre 1983 e 1986 no Centro Psiquiátrico Pedro II e lançada em 1988, após sua morte. Nesta trilogia de Hirszman, o episódio relativo à artista é o segundo e seu título aponta para as análises feitas por Nise da Silveira: “No mundo das mães” – a pesquisadora associa sua produção àsrelações com figuras femininas no decorrer de sua biografia.

Há uma sutileza no começo do filme que dialoga com a produção da artista: a primeira sequência traz Adelina andando por uma ala do hospital segurando uma bolsa. Corta-se para ela saindo pelo portão do hospital e, na próxima sequência, ela é vista colhendo flores. Por fim, antes da narração do texto de Nise, há outro corte para a artista dentro do ateliê do hospital. Adelina sai do enquadramento segurando a mesma bolsa e a câmera focaliza em uma flor – uma daquelas coletadas – dentro da sala. De forma muito sutil, Hirszman sugere uma fusão entre o corpo da artista e a flor.



Parte das pinturas mostradas nessa exposição do Museu de Imagens do Inconsciente aponta para essa direção – a aniquilação de diferenças entre aquilo que é visto como humano e aquilo que poderia ser visto como vegetal. Isso se faz perceptível na forma como as imagens de Adelina costumam trazem um desejo em representar a fisicalidade do corpo e, mais precisamente, a importância do rosto. Seja grande e de perfil, seja em uma composição que pareça mais teatral, suas pinturas remetem ao corpo como elemento central - mesmo quando integrado a imagens que por vezes dialogam com aquilo que convencionamos chamar de paisagem ou natureza-morta.

É a maneira como a artista pinta esse corpo, porém, que irá dar esse tom de metamorfose: é difícil olhar para essa série de imagens e não percebermos a inteligência como ela aplica e experimenta a cor. Mesmo que em grande parte desses trabalhos seus habituais verdes e azuis predominem, há uma constância no uso de cores fortes que causam um contraste desconcertante pelos vermelhos, amarelos, laranjas e rosas. A pintura e pesquisa de Adelina são permeadas pela sugestão de movimentos dados por esse cromatismo.

Gosto de olhar para a produção da artista e para sua famosa frase, citada por Nise da Silveira neste documentário – “Eu queria ser flor” – de maneira ampla e trans-histórica: que as metamorfoses de Adelina se cruzem tanto com aquelas escritas por Ovídio, quanto com as transformações sugeridas por Hayao Miyazaki. Sugerindo uma conversa com uma produção mais recente de arte no Brasil, que seus ecos da busca pelo “corpo-flor” possam ser escutados nas poéticas de Castiel Vitorino Brasileiro e Tadaskia.

Não nos prendamos a uma forma – entreguemo-nos ao movimento e à incerteza das transformações, assim como Adelina nos ensina até hoje.


(texto relativo feito para a exposição virtual “3 artistas de Engenho de Dentro”, com curadoria de Marco Antonio Teobaldo e organizado pelo Museu de Imagens do Incosciente, no Rio de Janeiro, em 2021)
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