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Tempo aberto


Federico Herrero
[31 de agosto de 2019]



Ao observamos as duas décadas de trajetória do artista costarriquenho Federico Herrero (San José, 1978), parece natural associá-lo à prática da pintura. Recebedor do Prêmio Especial para Jovens Artistas na Bienal de Veneza, em 2001, o artista tem uma pesquisa baseada na experimentação com a cor em telas, prédios e o espaço público por meio do uso de manchas. Um olhar atento, porém, pode aprofundar esse primeiro olhar em outros elementos discutidos pelo artista.

Como lidar com o espaço monumental e circular do salão central do museu? No lugar de pendurar diferentes telas sobre as paredes, Herrero opta por realizar uma grande instalação site specific– ou seja, pensada precisamente para o espaço. As cores são planejadas previamente à chegada ao espaço, mas uma vez aqui dentro, o corpo do artista e das pessoas que dão assistência no processo de pintura estão abertos a alterações de tamanhos, volumes e cromatismos. Seu processo de concepção se encontra, portanto, entre o esboço anterior e a relação presencial entre corpo humano e o espaço construído por Oscar Niemeyer. Nosso olhar se move pelas paredes do museu que são convertidas não apenas em pintura, mas em uma sugestão temporária de projeto arquitetônico.

As formas orgânicas de suas manchas podem ser relacionadas não apenas às curvas desse museu, mas à paisagem que o rodeia. Não à toa, nos últimos anos o artista tem realizado uma série de pinturas em homenagem ao monumento natural que podemos ver da varanda do museu: o Pão de Açúcar. A forma protuberante da montanha que chama a atenção para si na topografia do Rio de Janeiro é evocada nas formas coloridas que às vezes se encaixam e outras vezes se sobrepõem nessa sala. Se observarmos a pintura de Herrero por essa perspectiva, rapidamente ela pode deixar de ser enxergada como “abstrata” e nos evocar aos muitos panoramas de cidades feitos nos trópicos. Estaríamos, portanto, perante sugestões de paisagens?




No centro da sala, uma série de objetos é instalado e convida o público a sair de seu lugar de contemplação frontal das paredes. Inspirados nos mobiliários tanto das salas dos museus como aqueles encontrados nas praias ao redor do MAC Niterói, essas peças pedem que os visitantes as ocupem com seus corpos. Essa proposição de Herrero nos faz lembrar que tudo no campo das artes visuais parte do corpo e é destinado também a ele – mesmo a visão de sua intervenção nos murais do museu são um convite ao deslocamento de cada um de nós e serão vivenciadas de maneira específica de acordo com a maneira como lidamos com nossos próprios corpos.

Como diz o título da exposição, temos, portanto um “tempo aberto” – essa abertura pode ser relacionada tanto à indefinição do tempo que cada visitante ficará dentro da exposição a experimentar com seu próprio corpo, quanto também uma referência ao desejo de que o tempo, o clima, fora do museu esteja aberto para que possamos experimentar a paisagem. É nesse jogo entre o dentro e o fora que a pesquisa de Federico Herrero está baseada.





Em tempos em que fantasmas repressivos se fazem presentes no mundo, certamente é essencial darmos tempo ao tempo e abertura para o corpo ser capaz de vivenciar os espaços de liberdade sugeridos por essa exposição.


(texto curatorial escrito com Pablo León de La Barra a respeito de “Tempo abertu”, exposição do Federico Herrero no MAC Niterói, aberta entre 31 de agosto a 08 de dezembro)

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