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Garganta


[01 de maio de 2022]




Esta exposição tem um ponto de partida que diz respeito às muitas histórias da cidade de Guimarães: uma das gárgulas da Igreja de Nossa Senhora de Oliveira, no seu centro histórico. Construído entre os séculos X e XIV, este edifício religioso foi um importante lugar de peregrinação em Portugal e a sua arquitetura chama a atenção devido à “curiosa” presença de uma gárgula em autofelação. As gárgulas têm uma função que aponta para a etimologia do seu nome: a palavra francesa “gargouille” e a palavra latina “gurgulio” apontam para significados que giram em torno da noção de garganta; esses seres fantásticos são importantes meios de se escoar as águas pluviais e, portanto, também escoam as gargantas desses edifícios sagrados.

Olhando para esses elementos arquitetónicos e escultóricos por outra perspetiva, chama a atenção a sua constituição física, muitas vezes trazendo a imagem de monstros e/ou de corpos humanos em atividades vistas como indecorosas. As gárgulas emitem mensagens que são lidas até hoje como moralizantes; elas performam tudo aquilo que deveria ser evitado pelos fiéis cristãos. A sua vulgaridade, portanto, tem um aspeto admoestador.

A partir dos muitos ecos interpretativos ocasionados pela figura da gárgula, esta exposição reúne artistas que trazem ao público os avessos das normas – assim como uma gárgula no espaço público de Guimarães gera, há séculos, interpretações, discussões e conhecimento. Algumas das suas pesquisas estão voltadas para a criação de figuras que se apresentam ao público como algo na fronteira entre a normatividade e a “monstruosidade”; com quantas cabeças se faz uma quimera? Quais grupos sociais e atividades humanas são associadas a atitudes desviantes e, portanto, encaradas fobicamente como monstruosas e escatológicas, levando a perseguições e ao cerceamento da liberdade?

Outros trabalhos aqui reunidos trazem investigações voltadas para o campo do som, da música e do ruído; não nos esqueçamos dos sons guturais que parecem indecifráveis e são produzidos pelas gargantas dos mais diversos seres. Estes ruídos são o oposto daqueles que derivam da escrita e da leitura, interesses de outros artistas que se aproximam não apenas no seu olhar arquivístico para as imagens, mas também no que diz respeito a uma escrita disruptiva. Com quantas palavras se faz uma quimera?


(texto relativo à exposição “Garganta”, no Centro Internacional de Arte José de Guimarães, em Guimarães, Portugal, aberta entre 07 de maio e 18 de setembro de 2022)
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