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Versão oficial


Bruno Faria
[26 de dezembro de 2017]



A tensão entre presente e o passado é um dos interesses centrais do artista Bruno Faria. Nascido em Recife e vivendo em São Paulo, o seu trabalho cria novas narrativas a partir de documentos, de fatos históricos e da apropriação de objetos. O site specific – ou seja, a produção de obras que respondem a contextos arquitetônicos ou exposições específicas – costuma ser o seu campo de experimentação.

“Introdução à história da arte brasileira 1960/90” é o nome de um dos seus projetos aqui apresentado. Conforme seu título indica, esse trabalho traz consigo um dos interesses constantes do artista, ou seja, a revisão de acontecimentos relativos às narrativas sobre as artes visuais no Brasil. Na versão apresentada no MAC Niterói são reunidos 88 vinis cujas capas foram feitas por artistas brasileiros entre as décadas de 1960 e 1990. A relação entre design, artes visuais e censura (visto que muitos dos vinis foram censurados durante a ditadura) se faz presente. Dessa maneira, no lugar de se contar uma “história da arte brasileira” a partir dos livros de história da arte, o artista escreve uma outra narrativa a partir do colecionismo de música. E não seria essa uma maneira mais inventiva de se pensar a história?




Em diálogo com a exposição de Regina Vater, o artista propõe um novo trabalho chamado “Versão oficial” – também título da exposição – e que parte de um fato inusitado: em 1968, Regina Vater foi convidada para realizar a capa do disco “Tropicália ou Panis et circenses”, de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, entre outros. Esta capa, porém, não foi publicada e a versão de Rubens Gerchman é a que veio a público. Para o desenvolvimento dessa proposta, portanto, o artista solicitou a colaboração de Vater que recriou o desenho, já que o mesmo se perdeu nesse espaço de tempo.

Bruno Faria apresenta, então, a capa que poderia ser a versão oficial e indiretamente lança a pergunta: e se? Qual seria a recepção do vinil se a capa fosse assinada por uma artista e tivesse em sua imagem a insinuação do corpo feminino? Na ausência de respostas – já que não é possível voltar no tempo –, ficamos com as suposições, as ficções e, claro, a música.


(texto curatorial escrito com Pablo León de la Barra e relativo à exposição "Versão oficial", de Bruno Faria, realizada no MAC Niterói entre 21 de outubro e 08 de fevereiro)
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