expos      txts      e-books     bio

Molt bé!


[20 de setembro de 2018]



Já se tornou uma tradição: após a participação da Portas Vilaseca Galeria em feiras de arte, uma foto é feita do espaço em desmontagem e se lê a frase catalã “Molt bé!” escrita. Em algumas oportunidades se escreve usando uma caneta, enquanto em outros eventos se utiliza fita adesiva – o importante é afirmar esse “muito bem!” e estar preparado para a próxima vez. Para além da celebração, a opção por escrever em catalão não é um detalhe; ela é uma maneira de não esquecer das histórias de recomeço da sua família paterna que imigrou de Barcelona para o Brasil há muitas décadas.

Para a exposição que inaugura esse novo espaço no bairro de Botafogo, pensamos que a frase seria igualmente bem-vinda. Com a energia positiva que ela carrega, está dado o início ao tão esperado momento em que as atividades migram da pequena sala situada no Leblon para uma casa de três andares dedicada exclusivamente à galeria. Muda-se o espaço, mas não se freia o desejo de experimentação que é parte constituinte dos artistas que compõem o time da Portas Vilaseca e também de seu aventureiro diretor.



Cada andar da exposição sugere diálogos entre as pesquisas dos artistas representados. No térreo, Pedro Victor Brandão, Claudia Hersz e Mano Penalva mostram trabalhos em que a repetição é essencial. Enquanto Hersz está interessada nas semelhanças entre as formas de um crânio e os contornos do mapa da América do Sul, Penalva repete texturas de palhas e lança um olhar sobre as questões raciais no Brasil. Brandão e sua coleção de composições com celulares obsoletos, por sua vez, conversa com a maneira como Felipe Seixas também se usa do aparelho para criar um estudo sobre a cor e a água. Já Ana Hupe e Ayrson Heráclito se encontram em seu interesse nas relações entre a memória, a espiritualidade e as narrativas que podem ser acionadas pelo uso da fotografia.

No segundo andar, Jorge Soledar apresenta um trabalho site specific feito a partir de um espaço estreito localizado antes do escritório. Busca-se abrigo, mas sua existência é incerta. Logo na sequência, vemos o encontro entre os desenhos de Lin Lima e Ramonn Vieitez. A importância das mãos e a forma como elas estão associadas a diversas ações em relação à natureza é um dos motores das imagens de Lima. No caso de Vieitez, observamos desenhos que fogem de seu interesse na anatomia humana. Ao lado deles, suas novas experiências com cerâmica trazem algo da fragilidade e fragmentação humana constante à sua pintura.



Antes de adentrarmos a sala do último andar, sobre a escada, Ismael Monticelli dá continuidade aos objetos que criou com as molduras da fábrica da família Vilaseca. Instaladas assim como vistas na carpintaria, são objetos que nos levam a perguntar sobre seus usos anteriores e as razões por trás de seus tamanhos.

O terceiro piso é aquele que concentra mais trabalhos devido à sua amplitude – um antigo terraço usado como espaço para se estender roupas em um varal, é ele que melhor recebe os objetos tridimensionais e que, certamente, se configura como um desafio para os artistas que realizarem futuras exposições individuais. Bom exemplo é a intervenção proposta por Carolina Martinez que reafirma o encontro entre parede e rodapé retirando grande parte do piso vermelho e deslocando seu uso tradicional. O espaço se apresenta como um espaço em reformas e se transforma em uma ambiência bem diferente do primeiro andar.



Dialogando com essa estética, os objetos fotográficos de Iris Helena remetem ao ambiente da construção civil e à imigração de nordestinos que ergueram Brasília. Saindo da parede, é uma das primeiras experiências da artista com a criação de um corpo que se torna presente no espaço como o humano. Por outro lado, o objeto de Deborah Engel também se utiliza da fotografia, mas com outra perspectiva. Duas imagens trazem a linha do horizonte e ambas se encaixam justamente nesse ponto que separa céu e terra. Se Helena está interessada no urbanismo e na força de trabalho, Engel observa a paisagem, a ausência do corpo e a movimentação do oceano.

Nas paredes dessa sala temos os trabalhos de Gabriel Secchin, Raquel Nava e Solange Escosteguy. A proliferação de imagens no mundo contemporâneo, o nonsense e um certo diálogo com o surrealismo são algumas das forças-motoras das pesquisas de Secchin e Nava. O primeiro, ao trabalhar com pintura e vídeo, sobrepõe imagens, escalas e diferentes maneiras de exercer a pintura. O glitché o seu lugar seguro. Já Nava recentemente tem ampliado seu interesse em fotografar naturezas-mortas com anatomias de animais para chegar a ambientes permeados por detalhes e por uma certa perversão. A dessacralização da animália é um de seus maiores interesses – especialmente quando conectada aos momentos em que a indústria emula aquilo que é orgânico.



Por fim, Escosteguy debuta no time da galeria nessa exposição. Com larga experiência como artista visual, ela desenvolve uma pesquisa nos campos da pintura e escultura desde os anos 1960. A geometria, o vestuário e suas relações com o corpo foram seu ponto de partida. Uma escultura em madeira, datada dos anos 1970, traz um contraste de cores e um interesse no corte da forma comuns às suas pinturas da década posterior.

Como se pode notar, o grupo de dezesseis artistas representados pela Portas Vilaseca Galeria aponta para direções variadas – desde artistas que trabalham quase que exclusivamente com site specific aos que pensam sobre a especificidade de uma linguagem tão tradicional como a pintura. Parece ser digna de atenção a amplitude geográfica dessas trajetórias; mesmo sendo uma galeria situada no Rio de Janeiro, de nenhuma maneira se trata de um grupo baseado exclusivamente na região Sudeste; Porto Alegre, Recife, Salvador, Brasília e até Berlim também estão presentes.

Essa exposição é uma ocupação espacial que se configura como um open house – aberta está essa nova casa com suas potencialidades, especificidades e problemas, mas sempre em um espírito colaborativo que dialoga com o tom exclamativo daqueles “Molt bé!” escritos. Caberá a esse grupo de artistas cobrir, destruir, quebrar e remontar esses três andares, suas paredes e suas possíveis histórias.


(texto curatorial da exposição coletiva "Molt bé!", na Portas Vilaseca Galeria, no Rio de Janeiro, entre 20 de setembro e 20 de dezembro)
© 2020, Raphael Fonseca | Todos os direitos reservados.