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Televisão


Luiz Roque
[15 de dezembro de 2018]


Olhar para telas é algo que perpassa a experiência humana desde a Antiguidade. Os meios de fruição foram alterados tecnologicamente – por séculos a teoria da arte se referiu à pintura como uma janela do mundo para, posteriormente, esses espelhos do real estarem fundamentados na fotografia e no cinema. Na década de 1940 surge o aparelho que populariza as imagens em movimento e as trazem para o espaço doméstico: a televisão. Nos últimos setenta anos desde a sua criação, a humanidade observa diferentes formas para a transmissão do audiovisual - da pintura aos smartphones, as narrativas são constantes, mas as experiências sinestésicas sempre em transformação.

A pesquisa do artista gaúcho Luiz Roque (Cachoeira do Sul, 1979) vem justamente desse campo do audiovisual e, nos últimos quinze anos, transita das salas de cinema para os espaços dedicados às artes visuais. Apresentamos uma seleção de trabalhos de diferentes momentos desse percurso e que trazem alguns de seus constantes interesses: a elasticidade do tempo histórico, a citação a outras obras de arte e a construção de narrativas sensoriais de curta duração.




A maneira como os trabalhos de outros artistas surgem em suas narrativas nunca é anunciada como uma homenagem formal. Uma obra do escultor inglês Henry Moore e outra do artista brasileiro Amílcar de Castro são inseridas em suas sequências como personagens silenciosos. Não conhecer essas referências exatas não retira tanto a estranheza de suas narrativas, quanto o olhar de estranhamento lançado pelo artista para o corpo humano. Seus personagens resistem às tentativas de serem enquadrados por um olhar que deseja conservar tudo na simetria – da mesma maneira que Moore e   Amílcar resistiram a certas noções de belas-artes, os corpos filmados por Luiz Roque dançam e agem perante uma distopia que parece futurista, mas que já está plantada no presente.

Nesse sentido, chama a atenção a forma como o artista lida com o tempo de diferentes formas em suas obras. Enquanto “Rio de Janeiro” versa sobre o  incêndio sucedido no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1978, um filme como “Ano branco” tem sua narrativa desenvolvida no futuro, na década de 2030. Já outros trabalhos como “O novo monumento” e “Modern” apresentam uma indefinição temporal e de localização que apelam mais a seus aspectos sensoriais. É possível rebobinar e avançar no tempo com alguma facilidade já que, em sua pesquisa, as noções de passado e futuro são artificiais. Diferentes texturas, edição de som e trilha sonora cuidadosas, a pouca necessidade de palavras e as imagens que aparecem por poucos segundos e já levam a outras são os elementos estruturais de seus trabalhos que poderiam ser relacionados com a linguagem vista na história recente dos videoclipes.




O MAC Niterói é famoso por sua arquitetura circular projetada por Oscar Niemeyer e seu requinte futurista – nesse sentido, se trata de um lugar apropriado para receber essa série de trabalhos. Além do mais, o artista também tem realizado parte de seus trabalhos em relação com outros marcos da arquitetura moderna e contemporânea no Brasil, como o prédio de Affonso Reidy para o MAM Rio (1952) e o prédio de Ruy Ohtake que abriga o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (2001). Todas essas construções se caracterizam por serem cartões postais de concreto que parecem estar prestes a decolar rumo a algum lugar desconhecido. De maneira semelhante, os personagens criados por Luiz Roque também nos deixam em dúvida quanto ao seu futuro. Nosso encontro com eles é efêmero, preso dentro de um loop.



É feito o convite para que o público do museu percorra o mezanino e as diferentes tele-visões propostas por Luiz Roque. Cada uma dessas sequências apontará uma diferente expectativa quanto ao futuro – não apenas das narrativas criadas pelo artista, mas também quanto à nossa própria existência. Só o tempo responderá.


(texto curatorial escrito com Pablo León de La Barra relativo à exposição "Tele-visão", de Luiz Roque, no MAC Niterói, aberta entre 15 de dezembro de 2018 e 17 de março de 2019)
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