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Electric dreams


[29 de maio de 2021]



Nos últimos meses, muitas pessoas próximas me relataram que, durante o sono, tem sonhado constantemente – viagens, imagens e falas de pessoas que já faleceram, ciência, vacinas e situações surrealistas foram alguns dos elementos que me foram descritos. Vivendo durante uma pandemia que se perpetua com diferentes ondas no Brasil e assolados por um governo extremamente irresponsável quanto ao cuidar da população, as tragédias se perpetuam e parecemos viver um pesadelo diário.

Poderia esse excesso de sonhos, portanto, ser interpretado como uma válvula de escape perante quinze meses de um redemoinho de sensações nunca sentidas pela grande maioria da população não apenas brasileira, mas mundial? Sonhar poderia ser enxergado como uma forma de tentarmos fazer alguma manutenção de nossa saúde mental? As artistas aqui reunidas parecem responder afirmativamente a essa questão.





As palavras "Electric dreams" ("Sonhos elétricos", em português) vem de duas fontes diretamente relacionadas: o filme de mesmo título, dirigido por Steve Barron e lançado em 1984, e a música "Together in electric dreams", parte de sua trilha sonor, composta e performada por Philip Oakey (vocalista do The Human League) e Giorgio Moroder. A narrativa cinematográfica gira em torno de um computador que, estimulado pela sua capacidade de gravar áudio e controlar todos os aparelhos da casa de seu proprietário, experimenta o amor quando começa a escutar sua vizinha praticar música. Da escuta e das tentativas de se comunicar com ela, surge um dilema: como uma máquina poderia experimentar o amor, o prazer e o sexo se ela não possui um corpo humano?

Na impossibilidade de concretizar esse encontro de fluidos, o computador entende que, assim como cantado na música, "nós sempre estaremos juntos / por mais distante que pareça / nós sempre estaremos juntos / juntos em sonhos elétricos". A canção, embalada pela experimentação com a música eletrônica de Moroder, nos convida a dançar e lembrar das dádivas que são a vida e a capacidade de sonharmos.





"Electric dreams" é uma exposição que, assim como o filme a música datados do auge da cultura pop dos anos 1980, reúne artistas que se detém sobre a sensorialidade, a sensualidade e a capacidade de sonharmos por meio de obras que remetem ao corpo humano. Esta fisicalidade aparece não apenas como representação em algumas das imagens mostradas, mas também na forma como os próprios trabalhos foram feitos artesanalmente por meio do desenho, da pintura e da colagem de objetos. Os trabalhos aqui reunidos nos trazem texturas e detalhes que nos fazem sentir a importância do tempo para a prática dessas artistas; em um momento em que o isolamento social é recomendado e, assim como no filme citado, nossa sociabilidade muitas vezes é mediada pelos computadores, é feito um convite para observarmos as minúcias da materialidade dessas pesquisas.

Essa pequena reunião de trabalhos propõe também uma conversa entre gerações; tendo como ponto de partida um exemplo do cinema clássico-narrativo dos anos 1980 e observando como uma outra geração tem se voltado insistentemente para a experimentação com a cor, as grandes escalas, as narrativas hedonistas, a iconofilia e a serialização de imagens, é uma honra contar com a presença de artistas que tem um lugar essencial nas histórias da arte no Brasil: Cristina Canale, J. Cunha, Lia Menna Barreto e Victor Arruda. Fruindo as suas imagens e aprendendo com as histórias destes artistas – sobre suas primeiras experiências nas artes visuais que se deram de forma experimental durante e logo após a ditadura militar no Brasil –, temos a certeza de que, mesmo perante o caos, criar mundos é essencial.

Sonhar também é resistir.


(texto curatorial da exposição "Electric dreams", realizada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, entre maio e agosto de 2021)
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