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Yuli Yamagata


[12 de junho de 2020]



A trajetória de Yuli Yamagata como artista visual é recente, mas não menos experimental devido a isso; sua produção tem aproximadamente dez anos – desde sua graduação em artes visuais pela Universidade de São Paulo até o espaço institucional cada vez maior que tem recebido no Brasil e exterior. Ao observar sua prática, uma série de constâncias plásticas e poéticas chamam a atenção e são dignas de nota.

É central à sua pesquisa o ato de juntar, colar ou – como vemos em muitos de seus trabalhos – costurar; trata-se de objetos que nos levam a imaginar sua confecção desde o desenho mental até o encontro com a sua fisicalidade. Esse processo de feitura dialoga de maneira conceitual com algumas questões que a artista persegue desde seus primeiros trabalhos: a relação entre natureza e artificialidade, corpo humano e abjeção, feitura artesanal e a utilização de materiais industrializados.



Um trabalho me parece exemplar nesse sentido: “Abacaxi” (2015). Disposto sobre o chão, o objeto é composto pela junção de tecidos produzidos industrialmente e comprados na famosa Rua 25 de Março, em São Paulo. Em um país tão estigmatizado pelo imaginário tropical, a presença desse grande abacaxi traz algo de kitsch - não esqueçamos de Carmen Miranda.  Mais do que isso, o objeto chama a atenção devido à sua forma: colocado no chão, assimétrico, com cores vivas e volumes que remetem às coroas das frutas reais, o trabalho se apresenta como um corpo estranho, uma amálgama de simulacros de abacaxis fofos – uma almofada cítrica.

Há humor nesse uso da imagem da fruta e ele é latente pela forma inusitada como a artista usa seus materiais; ao manipular a lycra, o algodão das telas e a fibra siliconada, Yamagata convida o público a um universo onde o contorno retilíneo dos corpos disciplinados cede espaço a formas moles e por vezes dispersas. A lycraestampada, tecido tão associado à indústria da moda esportiva, é apropriada pela artista em imagens que mais parecem um elogio às curvas e ao sedentarismo. “Paola e Paulina” (2018) e “Oroboro” (2016) são bons exemplos dessa experimentação com formas corporais que estão entre o animalesco, o humanoide e o bestial.




Quando observamos seus trabalhos dos últimos dois anos, há um dado anterior que se torna explícito: a violência. Como um desenho animado que promove imagens absurdas e às vezes surrealistas de fisicalidade que nos levam ao riso rápido, Yamagata tem transformado sua pesquisa em uma perversa lição de anatomia humana. Formas que remetem a dedos alongados e unhas vermelhas deram o tom inicial a uma série de trabalhos em que é possível enxergarmos orelhas, bocas, línguas e dentes. O corpo humano é o espaço do prazer e do terror – a boca que deglute a comida é a mesma que proporciona prazer sexual e pode ser o mesmo orifício que profere palavras fascistas.

Essas narrativas da violência também aparecem em novos trabalhos feitos com guache e nanquim sobre papel. Nessas imagens que vem da tradição das histórias em quadrinhos, vemos milhos, queijos e humanos lutando pela vida e, por meio não apenas de seus corpos dilacerados, mas principalmente pelas palavras, afirmando a violência. Yuli Yamagata reflete sobre como viver e violentar são verbos que caminham, infelizmente, lado a lado. A vida de um é inevitavelmente ligada à violência de outros.



Entre o joie de vivre [1] e o memento mori [2] (“lembra-te da morte”), temos à nossa frente uma pesquisa em plena ebulição, atenta aos desastres político-humanitários do presente, mas que se recusa a qualquer instrumentalização oportunista dos mistérios das imagens à literalidade panfletária.


[1] Expressão francesa que significa “alegria de viver” e é usada com mais frequência desde o século XIX, sendo inclusive título de um livro de Émile Zola, de 1883-84. Geralmente utilizada para se afirmar os prazeres da vida de forma hedonista.

[2] Máxima latina que pode ser traduzida como “lembra-te da morte”. Utilizada de forma moralizante, aparece em textos desde a Antiguidade ocidental e foi instrumentalizada depois das reformas católicas na segunda metade do século XVI. A expressão pode ser lida no polo oposto ao hedonismo: lembra-te da morte, lembra-te que a vida é um sopro.


(texto publicado no livro “20 em 2020, os artistas da próxima década: América Latina”, organizado por Fernando Ticoulat e João Paulo Siqueira Lopes)
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