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Entrevista com Solange Escosteguy

[23 de outubro de 2019]




(entrevista realizada por e-mail)

Raphael Fonseca - A primeira exposição da qual você participou foi em 1964; a sua exposição mais recente foi realizada neste ano de 2019. Você tem cinquenta e cinco anos de experiência em preparar trabalhos, pensar sua relação com o espaço e apresentá-los ao público. O que mudou e o que continua no que diz respeito ao seu processo de conceber uma exposição?

Solange Escosteguy - Em 1964 tinha 19 anos, em 2019 completo 74 anos. Amadurecimento conta e a visão do passado também. O que não mudou: sou uma operária da arte, acredito mais na transpiração do que na inspiração. Mergulho fundo sempre que me programo para uma exposição - ou seja lá o projeto que esteja desenvolvendo. No começo foi a ruptura dos espaços – era um não à pintura de cavalete e uma procura por formas alternativas para o trabalho e para onde mostrá-lo. Esse processo deu origem às anti-caixas e aos vestidos, verdadeiras esculturas vivas. Hoje continuo rompendo ao usar de forma crítica as palavras alinhadas com a geometria. Assim como ontem, a cor é sempre presente. Uma exposição para mim deve ter uma unidade de conceito e diálogo entre os trabalhos... o rigor técnico e crítico me perseguem para o bem e para o mal.

RF – Como nasceu o interesse em ter as palavras como elemento central nos novos trabalhos?

SE - Os textos sempre estiveram no meu inconsciente... sempre gostei de escrever. Muitas vezes optei por textos mais poéticos ou até adotei textos de outros poetas, como Manoel de Barros, que identificava com meu trabalho na série “Lúdica”, de 2006. Outro aspecto que vivenciei e não posso ignorar foi o momento político de 1964: foi uma época de muita censura em que cada artista se movia e buscava brechas para realizar o seu trabalho. Hoje, as memórias desse tempo ainda estão vivas e parecem reavivar com os tempos de censura e obscurantismo em que nos vemos novamente cercados. É impossível não ser tocada por argumentos que nos levam a uma triste viagem no tempo. Sigo brincando com as cores, mas atenta aos perigos que nos cercam.



RF - Acho interessante que nesses trabalhos novos as palavras apareçam de maneira sintética - parece se acreditar mais na abertura poética de uma só palavra do que escrever frases de efeito. Você pode comentar um pouco a respeito?

SE - Um quadro não é um manifesto: não há razão para longos textos. As palavras aparecem como um sinal de alerta... uma alusão a sinais de trânsito ou simplesmente com a intenção de abrir caminhos para novas ideias e pensamentos. Em tempos difíceis, menos pode ser mais.

RF – A respeito da cor, quando olhamos o início de sua produção, é interessante notar como ela era pensada para o corpo e depois foi trabalhada em objetos que o Oiticica chamou de “anti-caixas”. Por muito tempo a sua produção experimentou – para citar o Ferreira Gullar – uma espécie de “não-objeto”. Como se deu a passagem para a tela e por seu formato mais tradicional?

SE - No início a cor era pensada para o tecido e depois vieram os vestidos onde o corpo dava volume ao desenho ou o desenho era pensado para o movimento do corpo. Sempre me interessei pelo ballet moderno e o processo entre os figurinos e os bailarinos resultando em verdadeiras esculturas vivas; acho que tanto as roupas como as esculturas estão interligadas e, de uma maneira ou de outra acabam se alimentando entre si. Nunca senti prejuízo nessa busca artesanal e acho que, pelo contrário, ela só me enriqueceu. As telas surgiram de razões práticas, em 1981, quando fui morar em Washington. Pela primeira vez não contava com um marceneiro que me ajudasse nos recortes e montagem dos objetos em madeira. Tive que me reinventar pela primeira vez e comecei a fazer trabalhos com cartão, recortes, dobraduras, colagens e pinturas, verdadeiras plantas baixas das anti-caixas. Daí para as telas foi fácil. Mas se observarmos, as geometrias eram trabalhadas com volumes chapados, buscando o equilíbrio ou o desequilíbrio através da cor e das linhas. Já em Montevidéu, em 1981, comecei a retomar as formas vazadas ou que extrapolavam a tela. De volta ao Brasil, retomei novamente os objetos. Essas idas e vindas mantém um fio condutor e não quer dizer que não possa voltar mais uma vez aos objetos... o importante é seguir trabalhando, não importa em qual formato. Sou muito curiosa na prática de experimentar e buscar novos materiais. (risos) E o não-objeto segue vivo!

RF – Já que estamos falando sobre essa passagem do objeto para as telas, você poderia comentar a respeito da sua experimentação com o papel machê? Acho interessante notar que teu trabalho foi de superfícies mais “duras” como a madeira para um formato mais maleável possibilitado pelo papel...

SE - O trabalho de papel maché  foi uma experiência diferente e surgiu da necessidade de trabalhar com pouco espaço e sem ruído. Foi assim que fui descobrindo a infinidade de recursos que essa técnica me oferecia. Como meu primeiro contato com arte foi com a cerâmica, moldar com as mãos era algo que já tinha conhecimento e para mim era muito prazeiroso - aprendi a domar o material e tirar vantagem do que ele me oferecia. Usei da flexíbilidade do papel e me deixei levar pelo material ao invés de trabalhar contra ele. A geometria deu lugar a formas mais orgânicas. Foram cerca de 1dez anos explorando todas as possibilidades, inclusive a de dar aula. Coordenei várias oficinas de papel machê nos países em que vivi nesse período. Foi também uma experiência humana muito enriquecedora. Sei que deixei várias sementinhas nesse caminho. Encerrou-se um ciclo e voltei às telas de hoje.



RF - Pode me contar mais a respeito da sua instalação mais recente? Ali, a cor, as palavras e certo caráter político parecem se encontrar...

SE - Bem lembrado - ali junto meu lado lúdico, a cor e a crítica política. De um lado, inúmeros quadrinhos sinalizando alertas e pensamentos sobre o momento que vivemos... do outro, o que chamo de “Parque de diversões” onde, com uma peteca, podemos descarregar nossa energia acertando o que nos incomoda ou nos dá prazer. Com isso acho que uno a participação do público de forma lúdica e chamo a atenção para questões que estão acontecendo ao nosso redor e que podem ter um peso diferente para cada pessoa. Como diz Ai Wei Wei , todo artista tem que ter um claro sentido de humanidade e  é, por isso mesmo, um ser político, ainda que a arte não tenha de ser necessariamente política. Como dizia meu pai, todo poeta é antes de tudo um atento.


(entrevista publicado originalmente no livro “Solange Escosteguy”, organizado pelo próprio autor e a artista, e editado pela Portas Design, em 2019)
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