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Retrato


[26 de agosto de 2009]

Retratar é a tentativa de resguardar a imagem de um ou mais indivíduos. Todo retrato é um exercício de lembrança e está fadado ao fracasso, já que aquela imagem permanecerá apenas enquanto for um objeto e, além disso, nunca poderá substituir o retratado. Por essas razões, podemos afirmar que os retratos são monumentos já que sua origem latina, monumentum, significa “evocar o passado, perpetuar a recordação”.

Retrato e memória caminham juntos e estão baseados na relação entre quatro pontos: o retratista, o retratado, o comanditário (aquele que encomenda a imagem) e, por fim, a finalidade do mesmo. O retrato tem o seu público-alvo; desde as estátuas romanas de imperadores como Júlio César (100-44 a.C.), passando pelas miniaturas com cunho de lembrança particular, como na corte de Elizabeth I (1553-1603) ou com o advento da fotografia digital. A sua visualidade é proporcional ao seu futuro espaço expositivo público, particular ou mesmo em ambas as instâncias.

Somando a isso, nos retratos há uma tensão entre a individualização do retratado e sua adequação a um tipo. Na Roma antiga, por exemplo, ao observarmos as esculturas de imperadores, por mais que exista uma vontade de denotar uma face específica, temos em maior potência a construção de uma figura que seja facilmente reconhecida como o governante, aquele que merece destaque e deve ser visto por todos. Tal forma de retratar é comumente chamada de “retrato de Estado”. Por outro lado, nas figuras retratadas por Goya (1746-1828), mesmo que saibamos sua posição social (como na pintura da família real de Carlos IV), sua pormenorização e visada crítica aos mesmos saltam aos olhos, tendendo mais para o lado do particular do que para o estatal.

Não só de figuras célebres vive a retratística. Também na antiguidade existiram os retratos de Fayum, que eram pinturas colocadas sobre os sarcófagos de múmias, durante o poderio de Roma sobre o Egito. Nestas placas de madeira eram retratados os humanos correspondentes às múmias; os rostos foram preservados, mas seus nomes próprios foram perdidos com o correr do tempo.

Outro subgênero da retratística é o autorretrato, em que o próprio artista imortaliza sua imagem. Rembrandt (1606-1669) irá fazer mais de cem obras nesse gênero, se representando tanto como pintor, quanto como um personagem bíblico. Isto nos faz lembrar que o retratar não precisa ser individual, mas também pode estar inserido dentro de obras com um cunho narrativo, como nas obras do Renascimento em que encontramos os “retratos de doadores”, ou seja, a inclusão da imagem daqueles que encomendaram a obra e aparecem ali, ao lado das figuras sacras, ajoelhados e rezando.

A memória, uma vez honrada e restrita, também pode ser instantânea, com um artista como Andy Warhol (1928-1987). Além de realizar uma série de autorretratos em Polaroid, este também lançou mão do cinema com cunho documental (retratos em movimento) para eternizar/criticar a banalidade dos mínimos atos do aqui e agora.


(texto publicado como verbete no livro “História da arte: ensaios contemporâneos”, editado pela Eduerj, em 2011)
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