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Canastra da Emília

Arthur Chaves
[28 de novembro de 2019]



Ao intitular esta exposição como “Canastra da Emília”, Arthur Chaves nos coloca diante de uma provocação – quais as relações entre essa citação ao clássico da literatura infantil “Sítio do pica-pau amarelo”, de Monteiro Lobato e a sua produção como artista visual? Comecemos a responder essa pergunta a partir da observação de seu trabalho.

O artista mostra aqui uma série de objetos feitos majoritariamente com tecidos. Para as pessoas que conhecem a sua trajetória – que gira em torno de seus dez anos de produção – esses trabalhos podem ser relacionados com a forma como ele desenvolve sua pesquisa em diálogo com as noções de desenho e pintura. Longe de querer buscar uma essência para esses fazeres, é possível estabelecer vínculos entre sua produção de objetos moles e esses trabalhos anteriores. Na sua exploração do grafite sobre o papel, seus traços por vezes eram repetitivos e geravam imagens sólidas: nuvens de grafite em diversas direções e geralmente em situações instalativas – um desses trabalhos foi montado dentro de uma piscina, enquanto outra série era instalada no chão ou feita diretamente em uma parede. Algo semelhante quanto à experimentação pode ser visto em trabalhos com telas onde há camadas de cores, formatos e materiais – o fundo dos chassis ficam visíveis e as relações entre frente e fundo se confundem em uma só coisa.

É inevitável relacionar esses trabalhos e o que é mostrado na Galeria Superfície: o caráter mole dessas peças com tela é o que possibilita fazermos a ponte com os objetos sinuosos aqui reunidos. Mesmo que pensados para a parede, esses trabalhos novos dispõem do mesmo princípio compositivo: observamos a sua superfície e fica difícil encontrar a entrada ou saída. De fato, nenhuma delas existe e esse elemento intriga na produção de Chaves: seu aspecto de amálgama. Não são trabalhos em que a ideia de desorganização predomine, assim como tentar controlar linearmente estas formas com o olhar parece em vão – é nesse movimento entre dois impulsos que sua pesquisa está baseada.

A experimentação com a cor pela utilização de diversos tecidos chama a atenção do espectador - nesses detalhes poderíamos nos deter por horas. Mesmo nos trabalhos cuja base tem um formato mais próximo do polígono, o artista confecciona uma sucessão de tecidos que nos retira da planaridade e nos joga para o espaço. Chegamos a um elemento central da produção de Arthur Chaves: o apelo ao corpo humano. O ato de usar tecidos por si só apela ao tato tão acostumado a sentir as malhas que compõem as roupas que usamos. Consciente desse desejo do toque, o artista joga com a escala dos trabalhos e de forma inteligente brinca tanto com imagens grandes repletas de detalhes, quando com peças menores que se apresentam de forma mais sutil. Se em umas nosso olhar mergulha em uma piscina de cores, em outras é a transparência e a economia que nos intriga. Dessa forma, Chaves parece reafirmar a todo o tempo seu desejo de experimentar e fugir de qualquer forma segura quanto aos elementos que compõem sua pesquisa. Ziguezague – já nos ensinaram as nossas mães costureiras.

É nesse acompanhar das dobras e curvas desses trabalhos que notamos uma série de colagens de imagens impressas sugeridas pelo artista. A fotografia de uma perna, a reprodução de um desenho do que parece ser uma família e uma imagem da Princesa Diana sorrindo para a câmera: todos esses elementos são vistos no mesmo trabalho e, a partir daí, podemos considerar essa série de obras também como um receptáculo de imagens feitas para o consumo em massa. Colecionador e pesquisador das revistas impressas tão disseminadas no Brasil e no mundo durante os anos 1980 e 1990 – ou seja, no momento anterior ao boom da comunicação digital –, Chaves apresenta suas pequenas cirurgias na tessitura da imagem. Uma vez que percebemos suas apropriações de lugares tão diversos, seus trabalhos podem ser encarados como corpos em mesas de dissecações.

Não à toa, em 2018 ele participou de uma exposição em São Paulo ao lado de Robert Rauschenberg, tão reconhecido pelos usos e desusos das imagens de grande circulação. Uma das diferenças centrais entre os dois é a distância histórica – o artista estadunidense se utilizou dessas imagens simultaneamente à toda geração da pop art. Arthur Chaves o faz algumas décadas depois e embebido de um olhar ainda mais fragmentado devido às vivências pós-internet. Talvez, por isso mesmo suas colagens sejam mais amassadas e por vezes quase rasgadas; a solidez da imagem é ameaçada e seus trabalhos apontam mais para o desaparecimento desses ícones do que para sua preservação.

É esse caráter narrativo de sua pesquisa recente – elemento não tão explícito quando olhamos seu trabalho pela primeira vez – que o aproxima do título dessa exposição. Conforme ditado por Monteiro Lobato, a canastra da personagem Emília era uma caixa em que ela carregava de tudo um pouco; dentro dela havia uma infinidade de objetos que ela utilizava tanto em sua rotina, quanto como material para criar aventuras. Emília, não esqueçamos, era feita de pano – uma boneca frágil que, na ótica do escritor moderno, ganha vida, fala e a capacidade de imaginar.

Arthur Chaves também se vale de uma canastra, tal qual Emília: seu baú é o próprio mundo – por meio de seus cacarecos, imagens, rasgos e texturas, mais do que costurar, ele vai remendando o mundo e a linearidade das narrativas por meio da corporeidade de seus trabalhos.

Baby do Brasil cantava sobre Emília: “Ela é feita de pano / mas pensa como um ser humano”.  No caso desse artista, talvez seja possível afirmar o oposto: suas mãos nos fazem pensar a partir dos panos.


(texto escrito para a exposição “Canastra da Emília”, de Arthur Chaves, na Galeria Superfície, em São Paulo, entre 28 de novembro de 2019 e 25 de janeiro de 2020)
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