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Inventário verde da Boa Esperança


Maurício Pokemon
[24 de maio de 2019]



Ao observar a trajetória de Maurício Pokémon, notamos que sua pesquisa está baseada na relação entre a fotografia, o espaço público e as muitas ideias do que pode ser uma cidade. Enquanto em “Ocupe o espaço” (2012) – uma de suas primeiras séries – vemos registros de pichações e grafites de Teresina, outras imagens encontradas em “Poros” e “Quintal” (ambas de 2016) estão mais interessadas no corpo humano. Nessas séries, as fotografias tem escalas e aplicações diferentes – algumas vão ao tamanho monumental diretamente na rua, enquanto outras são mostradas pela sequencia de imagens menores.

Suas imagens são generosas – interessam ao artista os rostos, corpos e objetos perpassados pela experiência humana. A maneira como elas são produzidas denotam que a fotografia é uma forma de diálogo aberto entre diferentes pares. Seus trabalhos são afetivos e abrem narrativas que convidam o público a se relacionar com pessoas que fitam a câmera com seus olhos nos nossos olhos. Suas posturas tendem a ser eretas e empoderadas – fotografar pode significar transformar em imagem pessoas que não irão se curvar perante as adversidades.




“Inventário verde da Boa Esperança” é a maior série fotográfica já realizada por Maurício Pokémon. A relação entre espaço e imagem é indicada desde o seu título; trata-se de uma sequência produzida em torno da Avenida da Boa Esperança, na Zona Norte de Teresina. Uma área que no passado colonial era habitada pelo povo indígena Poti, desde meados do século passado começou a ser habitada por pessoas que se tornaram em sua maioria pequenos agricultores. O sonho da casa própria foi concretizado por muitas dessas famílias. Desde 2008, porém, um projeto financiado parcialmente pelo Banco Mundial visa “revitalizar” a área – como qualquer processo de gentrificação, para tal seria necessário que um número considerável das famílias que ali habitam fosse redirecionado para outras localidades de Teresina. O bairro que foi construído a partir da união dos seus próprios moradores se vê ameaçado pelo interesse financeiro do governo público.

O encontro entre os moradores e as fotografias do artista se dá a partir da perspectiva de resistência. Como registrar o cotidiano dessas pessoas e a sua luta diária pela permanência em suas casas e terras? A resposta é: por meio da colaboração e diálogo entre ambos os lados. Nas fotografias, os corpos dos moradores posam para a câmera; por vezes eles são registrados inteiros e frontais, enquanto em outras imagens temos enquadramentos de pequenos gestos. Um deles parece bem representativo: um senhor ergue o seu punho esquerdo e tem registrado parte de seu busto e braço em uma postura facilmente relacionada a manifestações políticas desde o século XIX. A presença do tempo se faz presente quando notamos as rugas, cabelos brancos e marcas nas peles de moradores que não chegaram na Boa Esperança ontem e que certamente não sairão de lá amanhã.



Outros aspectos da região também surgem nas fotografias. Algumas imagens se dedicam a pensar a paisagem em torno dessas casas que muitas vezes são banhadas pelo Rio Parnaíba. Essas fotografias trazem aspectos da agricultura e pecuária familiar desenvolvida nesses espaços. Talvez um dos elementos que mais fortes da série seja a atenção que o artista dá aos detalhes dos muitos objetos utilizados pelos moradores. Halteres feitos de cimento, uma toalha de banho que traz um tigre estampado, padrões coloridos de roupas que imitam a natureza e outros objetos industriais desconstroem a possibilidade de uma imagem romântica e bucólica desse cotidiano.

A forma como essas fotografias são apresentadas traz uma abertura de leituras por parte do público. Dispostas sobre placas de compensado distribuídas no espaço do CAMPO, as imagens foram impressas em diferentes tamanhos e criam diálogos que mais intrigam do que entregam uma leitura óbvia. Ao lado daquela imagem dos pesos de musculação feito com cimento há retratos posados e uma composição com uma flor presa em uma parede. Entre essas fotografias, uma traz a frase “Lagoas do Norte para quem?”, em referência a esse projeto de replanejamento urbano de Teresina. O panfleto político se mistura com a banalidade cotidiana e sugere um quebra-cabeça de situações na Avenida da Boa Esperança. O olhar de Maurício Pokémon se manifesta politicamente, mas não de maneira explícita. Parte da ideia de protestar contra o desaparecimento da comunidade inclui seguir a habitando e mantendo costumes, objetos, arquiteturas e paisagens. O olhar do fotógrafo, portanto, tenta dar conta de maneira não-linear de um pouco de cada uma dessas camadas sociais.




Não devemos nos esquecer que, segundo o título proposto pelo artista, se trata de um “inventário verde”. Essa catalogação que começou verde e se ampliou para outras cores – encarando o verde mais como metáfora do que como cor literal –, ao ser instalada sobre esses compensados que repousam no espaço, já traz em si sua própria fragilidade e despretensão. Muitos outros inventários fotográficos poderiam ter sido montados a partir do volume enorme de fotografias produzidas por Pokémon. Nesse momento, porém, ele opta por uma configuração efêmera não apenas das relações entre imagens, mas também da provisoriedade da expografia. Seu inventário é, antes de tudo, uma provocação – se necessário for, ele pode ser movido e instigar outros percursos por parte do corpo do público. Apoiadas no chão, essas fotografias são um convite não hierárquico à contemplação – nosso corpo é maior do que elas e a expografia clássica que convida à contemplação frontal na altura dos olhos é constantemente recusada.

Nada mais justo que os trabalhos resultantes desse diálogo sejam apresentados também na Boa Esperança – as fachadas das casas dos moradores se tornam espaço para expor imagens em grande escala. Pensando junto a eles e discutindo a respeito das possibilidades do que mostrar, o trabalho segue com seu caráter colaborativo e político. Ao somar a força desses moradores com o poder imagético da fotografia, a manutenção da esperança se faz possível e migra do nome da avenida para a expectativa real de que os despejos não sejam perpetuados.




De maneira precisa e importante, Maurício Pokémon compartilha com o público narrativas e discussões sobre o direito à moradia comuns não apenas à história recente de Teresina, mas a diversas partes do mundo. Como pesquisar essa história e não se lembrar, trazendo para algo próximo de minha vivência, da Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, e o seu Museu das Remoções? Em breve teremos o Museu da Boa Esperança e se faz urgente no Brasil contemporâneo que essas histórias se cruzem, se unam e resistam às ansiedades das empreiteiras.


(texto curatorial relativo à exposição “Inventário verde da Boa Esperança”, de Maurício Pokémon, realizada no CAMPO, em Teresina, entre 24 de maio e 08 de junho)
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