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Como se a paixão fosse uma grande esponja molhada


Renan Marcondes
[18 de março de 2021]


A pesquisa que Renan Marcondes desenvolve desde o começo dos anos 2010 como artista visual parece apontar constantemente para uma direção: a experimentação. Com formação em teatro e artes visuais, os trabalhos partem de seu corpo e se relacionam diretamente com diversas tradições daquilo que convencionamos chamar de “performance” – o limite físico, a repetição de ações e a forma como ele se relaciona com objetos são alguns dos elementos que chamam a atenção. Aos poucos, sua pesquisa se expande e, tal qual uma fábula, vai ganhando prolongamentos físicos – objetos usados pelo artista vão de encontro ao corpo do público, ao espaço e se põe em relação com outr_s performers em um flerte com o surrealismo.

Esta exposição dá continuidade à sua pesquisa e, como em todo artista cuja experimentação é a força-motora, traz elementos novos. Essa reunião de trabalhos é intitulada a partir de um texto de Roland Barthes inserido em seu livro “Mitologias”, de 1957. Em “Dois mitos do jovem teatro”, o autor comenta o teatro burguês que traz atores em uma explosão física capaz de levar o público à catarse. Fiel à sua acidez recorrente na escrita, Barthes irá descrever essa excessiva paixão do “ator ‘devorado’” visto em uma peça: “Tinha-se a sensação de estar assistindo a um tremendo trabalho fisiológico, a uma torção monstruosa dos tecidos internos, como se a paixão fosse uma grande esponja molhada e espremida pela mão implacável do dramaturgo”.



Em trabalhos anteriores como “Forma infinita” (2016), “O maior museu do mundo” (2019), “Teatro” (2020) e “Aquele que diz sim, aquele que diz não” (2020), a pesquisa de Renan Marcondes já apontava para diversas esferas institucionais do trabalho artístico: o contrato, a competição, a noção de museu e o espaço cênico. Sabendo de seu interesse em provocar a figura institucionalizada do ator e do artista visual, a opção por intitular essa mostra como “Como se a paixão fosse uma grande esponja molhada” traz em si uma carga de ironia no seu olhar para o páthos e para a metalinguagem.

Renan dá continuidade à série “Das tarefas de artista” e mostra um grupo de trabalhos onde seu corpo realiza ações comumente associadas à figura cristalizada do “artista”, tais como pintar e lidar com outro corpo escultórico. No vídeo “O amador”, a lente da câmera mostra um detalhe de seu corpo pintando algo que, posteriormente, descobriremos ser uma partitura – o trabalho “O amante”. Eis a relação de amor e ódio entre pintura e espaço em branco prestes a ser ocupado pelo pincel. Sempre a experimentar a anatomia e as convenções de ações geradas pelo corpo humano, Renan cria um objeto que vai preso a seu corpo e tem o formato de um arco e flecha. No lugar da flecha, o pincel; no lugar da relação entre braço e pincelada, um movimento novo, aquele do peito e das costas que, de forma um tanto quanto sagitariana, escreve novas linhas para a tradição da pintura.



Já em “Cena (quinze minutos)”, o artista faz referência a Andy Warhol e sua icônica peruca branca. Filmado em um espaço cênico onde vemos apenas dois corpos, Renan intervém diretamente sobre esse corpo-simulacro de Warhol e o manipula de diferentes formas – dobrar, abraçar, dançar, deitar-se sobre, carregar; o fantasma do célebre artista estadunidense se transforma em uma marionete. Andy Warhol está morto e, como o próprio Renan nos ensina em outro trabalho aqui presente, não há espaço para “chorar sobre o leite derramado”, mas sim para dobrar – e até mesmo amassar – certas narrativas da história da arte ocidental.

Nesse sentido, no que diz respeito à dobra, é importante que nosso olhar se detenha na inédita série de desenhos “Palco” – aquarelas de objetos que se contorcem perante os olhos do espectador. Seus títulos trazem algo do universo das artes performativas – “Ópera”, “Dramão”, “Draminha”, “Hamlet”, “Palco italiano” e “Coxia” compõem suas referências ao teatro. Essas palavras se transformam em personagens corporificados em mesas e outros objetos feitos para o corpo humano. Novamente com seu olhar aberto para a fantasia, esse vocabulário das artes performativas é disposto de forma fragmentária e em diálogo com a arquitetura, tal qual um balé disperso ou um ato teatral com muitos personagens que entoam suas vozes de forma dissonante.




Voltando a Roland Barthes e àquelas linhas que antecedem a citação que intitula essa exposição, lemos: “Numa peça nova (que foi premiada) os dois personagens principais masculinos desfizeram-se em todos os tipos de líquidos: choro, suor e saliva”. Acredito que, se torcermos a “esponja molhada” que é essa exposição de Renan Marcondes, poderemos encontrar os mesmos fluidos. A forma como esses líquidos são articulados, porém, não é óbvia; assim como tudo que ele produz, há uma constante busca pela ausência de obviedade e a crença de que as relações entre corpo, imagem estática, imagem em movimento e performance precisam ser continuamente esgarçadas.

Com os olhos nas diversas tradições das artes performativas, mas com movimentos que apontam para o desejo de misturar linguagens e duvidar de categorias estanques, há muita coisa para ser espremida dessa esponja que é a pesquisa de Renan Marcondes.


(texto relativo à exposição “Como se a paixão fosse uma grande esponja molhada”, na OMA Galeria, em São Bernardo do Campo, entre 28 de maio e 24 de julho)
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