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Mais do que araras


[08 de agosto de 2017]



Em abril de 1967, Hélio Oiticica mostrava a instalação "Tropicália", no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, na exposição "Nova Objetividade Brasileira". Mais do que observadores, interessava ao artista a experimentação física de diferentes ambiências pelo público. Para criar seu monumento à tropicalidade brasileira, Oiticica utilizou materiais que remetiam tanto à construção civil, quanto a uma revisão do exotismo tropical. Pedras, plantas, areia e araras faziam parte do projeto e colocavam o público em uma experiência física peculiar no panorama das experimentações artísticas no Brasil. A obra se tornou icônica a ponto de seu nome ser utilizado por um grupo de jovens músicos baianos para batizar o clássico álbum "Tropicália ou Panis et Circencis", lançado em 1968.

Nos últimos vinte anos, tanto a produção de Oiticica, quanto a de outros artistas do grupo do neoconcretismo carioca (especialmente a de Lygia Clark e Lygia Pape) foi exposta nacional e internacionalmente. Suas pesquisas tem um importante reconhecimento institucional devido a projetos curatoriais que enxergam a produção de arte desse período histórico para além das tradicionais narrativas eurocêntricas que ainda dominam o sistema da arte.



A presente exposição não ansiou por se apresentar como mais um projeto dedicado exclusivamente à figura mitológica (e essencial) de Oiticica; sua “Tropicália” e seu aniversário de cinquenta anos foram um ponto de partida, mas não de chegada para a reunião aqui proposta de artistas e procedimentos. Não interessava a Oiticica uma produção de arte que caísse facilmente no clichê da tropicalidade, mas sim algo que convidasse o espectador a ter uma perspectiva crítica perante a crescente folclorização da “cultura brasileira” pregada pela ditadura militar. Em suas próprias palavras, "o mito da tropicalidade é muito mais do que araras e bananeiras: é a consciência de um não condicionamento às estruturas estabelecidas, portanto, altamente revolucionário na sua totalidade. Qualquer conformismo, seja intelectual, social, existencial, escapa à sua ideia principal”.

Optamos, portanto, por reunir obras produzidas num recorte temporal entre a década de 1960 e o início dos anos 1980, período dialógico à ditadura militar no Brasil e às experimentações nas diversas áreas da produção artística. Três grandes tópicos se fazem presentes e, mesmo que não separados espacialmente na exposição, norteiam as obras mostradas: a crítica em torno do estereótipo da tropicalidade e da identidade brasileira; a atenção dada ao corpo ativo para além da noção de espectador; e o interesse em obras que se encontram no limite entre a poesia e as artes visuais.



Esse conjunto de catorze artistas diz respeito a pesquisas desenvolvidas em diferentes áreas e pontos do Brasil. Alguns possuíam formação em Belas-Artes, ao passo que outros eram autodidatas e/ou advindos de áreas como a música e o teatro. Se alguns deles eram amigos e produziam em conjunto, outros sequer se conheceram pessoalmente e desenvolveram poéticas de modo paralelo sem grande conhecimento de seus vizinhos. Com o desejo de complexificar a hegemonia do Sudeste na história da arte no Brasil, estão na exposição artistas que residem em estados tão distantes como o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul. A institucionalização desses agentes é assimétrica e demonstra a precariedade e necessidade de mais pesquisas em torno dessa geração de artistas. Enquanto alguns tem uma produção sólida e reconhecida em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo, outros ainda são vistos como fenômenos de atuação local e urgem por serem inseridos em narrativas mais abrangentes por parte de curadores e historiadores da arte.

Não esqueçamos, por fim, que o próprio alavancamento internacional de Hélio Oiticica – seja em vida, seja post mortem – também contribuiu com o eclipsar de artistas da sua geração que enxergavam o fenômeno artístico de modo dialógico, porém diferente. É tempo de seguir a aprofundar uma revisão dessas décadas e de tornar mais complexa a origem da chamada “arte contemporânea no Brasil” por meio dessa sobreposição de vozes, gêneros, linguagens e idiossincrasias culturais.



Faz-se importante olhar para trás com a distância dessas cinco décadas pós-Tropicália e criar outras maneiras de conexões entre essa constelação de artistas brasileiros. Esse procedimento é semelhante ao que Daniela Seixas, jovem artista convidada a dialogar com o fôlego histórico dessa exposição, sugere com uma série de publicações feita a partir do apagamento das palavras escritas nas cartas trocadas entre Oiticica e Lygia Clark. Ficam os sinais gráficos sobre o vazio das páginas e o público é convidado a unir esses pontos da maneira desejada.

Do mesmo modo, fica o convite por parte da curadoria para que os visitantes percorram o espaço da Galeria GTO e criem suas conexões formais, poéticas e temáticas entre imagens e diferentes anseios existenciais por parte desses artistas atuantes no Brasil que nos ensinam que o fazer artístico durante esse período histórico era muito maior do que qualquer tropicalidade panfletária colorida contida nas figuras das araras. Tratava-se de fazer o que estava ao alcance diminuto das mãos, geralmente com um resultado preto-e-branco que agora nos permite contemplar tanto a escala humana dessas obras, quanto a sua inevitável associação aos chamados anos de chumbo do Brasil.



Resta-nos uma dúvida: até que ponto o presente é menos plúmbico que o passado? Talvez só mais cinquenta anos serão capazes de nos dar uma resposta.


(texto curatorial da exposição coletiva “Mais do que araras”, realizada no SESC Palladium, em Belo Horizonte, entre 08 de agosto e 01 de outubro)
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