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Laura Aguilar


[22 de abril de 2018]



Um dos aspectos interessantes do programa Pacific Standard Time, patrocinado pela Getty Foundation e realizado em Los Angeles, foi a organização de exposições em torno do que a academia estadunidense chama de “Latino art”. Trata-se da produção de arte de imigrantes latino-americanos e seus descendentes nos Estados Unidos. Esses artistas tem pouquíssima circulação e debate no Brasil, meu país de origem – devido à nossa diferente situação geográfica e às nossas discrepantes histórias coloniais -, o que me intrigou bastante durante a visita a essas curadorias.

Uma das mais impactantes era, certamente, a retrospectiva de Laura Aguilar realizada no Vincent Price Art Museum, em East Los Angeles – região extremamente interessante por ser aquela com maior concentração de latinos em Los Angeles. Aguilar também tem ascendência latino-americana; mais precisamente mexicana, o que faz com que sua identidade e sua produção artística muitas vezes seja chamada de “chicana”. Nascida no final dos anos 1950, suas primeiras experiências com cianotipia e fotografia são no final das décadas de 1970 e 1980 por meio de aulas e das primeiras participações em exposições.

O título escolhido para a exposição era inteligente por dialogar tanto com a montagem da exposição, quanto com a pesquisa de Aguilar: “show and tell”, ou seja, “mostrar e dizer” (ou falar). Sua produção fotográfica, baseada quase exclusivamente em retratos, apelava ao nosso olhar de maneira icônica - as salas foram ocupadas por imagens de pequena escala, mas fortes quanto ao impacto de seus temas. Primeiro entrávamos em contato com esses rostos de desconhecidos ou da própria artista para, em um segundo momento, tentarmos processá-los racionalmente. Mesmo nas obras em que o texto se fazia importante para sua pesquisa – e elas não são poucas – o contato com esses corpos fotografados em preto-e-branco vem em primeiro lugar. Em outras palavras: Aguilar é uma grande fotógrafa de pessoas.



Ao observar o seu percurso, é interessante notar um movimento que vai do interesse no outro para, pouco a pouco, um olhar sobre si mesma. Na série “Xerox collage”, de 1983, a artista faz colagens com imagens suas e outras apropriadas. Nessas composições coloridas já aparecem palavras que apontam para questões identitárias: “lesbian woman” aparece em uma, assim como em outra montagem, a imagem de uma garotinha vai se distanciando da repetição da imagem estereotipada de uma família estadunidense. Isolamento e não-normatividade são questões que aparecem de modo bem claro em toda a sua pesquisa.

Nesse primeiro momento de sua produção, chama a atenção a frequência com que encontramos retratos fotográficos em que as pessoas posam para a câmera em diferentes configurações. Sempre intitulados por seus nomes próprios, se tratam de pessoas que não fazem parte dos holofotes estrelares da cultura de Los Angeles, mas sim da constelação de afetos próximos à artista - Sandy, Eddie e Pam são alguns de seus nomes. Pelos lugares em que foram fotografados, pelos traços de seus rostos e por algumas associações que Aguilar faz deles com objetos, fica claro que são majoritariamente imigrantes ou descendentes de tais. Não apenas “chicanos”, mas também de colônias chinesas, japonesas e afro-americanas. São pessoas que, assim como ela, hegemonicamente podem ser vistas como “os outros”.



O olhar da artista, porém, nunca chega a roçar em uma espécie de romantismo ou ingenuidade. Também desde os anos 1980 há séries de trabalhos que questionam de modo ácido essa associação imediata a uma identidade guetificada na cultura estadunidense. A série “Latina lesbian” (1987) traz retratos de mulheres assumidamente lésbicas acompanhadas de textos escritos por suas próprias mãos problematizando os estigmas em torno de suas sexualidades. O autorretrato de Aguilar incluído nessa série traz frases preciosas: “Não me sinto confortável com a palavra lésbica mas a cada dia que passa me sinto mais e mais confortável com a palavra LAURA”. Já em “How Mexican is Mexican” (1990) vemos trípticos em que uma das imagens é sempre da artista. Logo abaixo, novamente com grafias diferentes, lemos relatos das mulheres fotografadas problematizando o que poderia ser “Mexican American”. Até que ponto o termo “chicana” não seria mais um rótulo que separa do que algo que aproxima as diferenças? O que tem de mexicano uma pessoa nascida e educada nos Estados Unidos?

Ademais dessas séries (e outras) que exploram a cultura gay da cidade, é interessante notar também como durante os anos 1990 o olhar da artista também refletiu sobre o que era ser uma mulher artista; mais do que isso, há uma série de fotos em que ela segura placas com dizeres sobre o que é ser uma artista pobre, não advinda das costumeiras famílias aristocráticas de artistas. Em uma placa ela afirma categoricamente: “Querido Papai Noel, eu quero um trabalho com plano de saúde”. De modo mais dramático, na série “Don’t tell her art can’t hurt” (1993), a artista posa para uma série de imagens em que segura uma arma e vai se questionando a respeito dos temas que esperam que ela aborde com sua poética.




Por fim, a exposição trazia também as experiências de Aguilar com as fotografias de seu corpo nu inserido em paisagens naturais. Desenvolvidos desde os inícios dos anos 90, essas imagens se tornam o enfoque central de sua produção no final da mesma década em séries como “Nature self-portrait” (1996) e “Stillness” (1999). Geralmente realizadas em preto-e-branco, são imagens que antecedem os seus trabalhos mais recentes na exposição, a série “Grounded” (2006). Seu corpo nu se desloca por diferentes paisagens entre pedras e árvores e gera contrastes de sua pele com aquilo que o rodeia.

Novamente pensando em sua busca por imagens fora de padrões que cerceiam a liberdade de nossos corpos, aqui vem à tona o corpo obeso, curvilíneo e com áreas de claro-e-escuro da artista. As dobras de sua pele fazem um par harmonioso com as folhas, a areia e mesmo com alguns corpos mais esbeltos que a rodeiam em algumas imagens. Parecem se tratar de imagens que buscam o silêncio e uma integração com a natureza que colocam a sua produção em um lugar diferente da afirmação e negação de identidades verbalizadas – algo advindo dos estudos sociais – vistos nas suas outras imagens.



Sai-se da exposição de Laura Aguilar com a certeza de que há diálogos por se fazer entre a produção de arte “chicana” ou de “Latino art” com a arte feita na América Latina últimas décadas. Um bom começo seria fazer com que as imagens da própria Aguilar circulassem mais em exposições coletivas ou, quem sabe, mesmo em individuais no hemisfério sul das Américas.


(publicado originalmente na edição de março-maio da revista ArtNexus)
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